

Sonia Ivánovna, uma mulher calma, uma sádica, entre um cigarro e outro questionava-me incansavelmente, sobre Sugar Horse .
— Nome? Perguntou Oleg Darshavin.
—Lucas North1, um agente do MI-5.
— Você trabalha para o MI-5? Falou Oleg.
— Para quem você trabalha? Repetiu, olhando-me nos olhos.
— Sugar Horse? A frase de Sonia ressoava em minha mente.
— Faça-o falar, Oleg!
— Lucas North, bem-vindo à Zona (prisão)


Bem-vindo ao lugar onde o tempo fica estável. Ninguém sai e ninguém sairá. Durma meu amigo, e você verá que esse sonho é a minha realidade. Eles me mantêm trancado nesta gaiola e eu não posso respirar o ar livre. Lua cheia, parece nunca mudar.2 Horas se transformam em dias, dias se transformam em anos, anos se perdem no infinito dos dias.
Pensamentos desconexos fluem, eu não posso evita-los. Raskólnikov, um rapaz mirrado e de aspecto sujo, lê em voz alta: Ele experimentava uma espécie de angústia inteiramente nova, não particularmente penosa ou aguda, mas que parecia durável, eterna. Pressentia anos longos, fastidiosos, cheios de fria e terrível ansiedade.3
—Como você entrou aqui? _ perguntei, mas Raskólnikov apenas olhou-me atentamente. E disse: — Ouve perdeste a aposta, e ninguém sabe o que pode acontecer contigo3. Indiferença percorre minhas veias: —E daí, o que isso importa? Do que me serve continuar vivendo? Viver por existir?3 Vozes ressoam em minha cabeça. Para onde ele foi?


—Lucas, vamos, levante-se. Deixe-me ajudá-lo. Você precisa andar um pouco. Faz tempo que não conversamos. Arkady Kachimov, um homem gentil, um homem mentiroso. Havia um tempo que eu teria comprado a solidão a qualquer preço, mas agora sinto que não a posso suportar um só momento3.
—Você tem uma nova tatuagem. Dum Spiro Spero. Mas espero que você saiba que tatuagens são proibidas na prisão. Oleg poderá puni-lo por isso 4,5,6.
— Kachimov _ eu tento me levantar, mas minhas pernas não respondem _ você quem deveria saber que a tatuagem criminal russa é um meio de comunicação secreta, uma liguagem esotérica de imagens representacionais, que o corpo do ladrão usa para informar ao mundo dos ladrões sobre si mesmo4.5.6.
Realmente fascinante, esta linguagem se assemelha a gíria dos ladrões, com uma função similar, codificar informações secretas dos ladrões para protegê-los contra vocês, os forasteiros não iniciados4. Assim, certas questões não precisam ser respondidas, basta lê-las como em um livro. Elas são o meu segundo passaporte5. Arkady me suspende, quando foi que me tornei um homem mais velho que um homem velho?


— Sim, nós estávamos lá, nós escrevemos a história da Rússia. A sua origem foi os campos de trabalhos forçados, os chamados gulags e os subúrbios de St. Petersburg. Entretanto a natureza cruel e hierárquica do mundo criminal russo começou a florescer na década de 20 após a Revolução Russa, e assim houve uma onda de prisioneiros políticos nos anos 20 e 30. Então, a necessidade de criar uma distinção visual clara entre os criminosos e os prisioneiros políticos conduziu os criminosos a desenvolver um sistema sofisticado de valores e códigos para reforçar e apoiar o seu mundo criminal e assim indicar o grau de total comprometimento com esse mundo5.


Obviamente, esse código que evoluiu dentro do mundo criminal dentro dos gulacs foi preservado até os dias atuais. Mas você teria que ser um vor v zakone 4,5, um ladrão em lei, para ter direito a usá-las. Neste mundo, Lucas, tatuagem falsas não são permitidas, elas são punidas com a morte4,5,6. Um agente altamente treinado do MI-5 não deve descer ao submundo das prisões russas. Diga-me o que você fazia em Moscou?
Gnothi seauton, grunhiu Porfiri Pietróvitch visivelmente animado, fuzilando-me com seus olhos: —Matou, mas se considera um homem honrado, despreza as pessoas e anda por aí como um anjo pálido3. Dei de ombros, o que significa o passado? Meus olhos se ofuscaram com a súbita claridade, perdendo-me nas imagens que emergiam.
Tentou se lembrar de Elizabeta. Seu rosto, seus olhos, sua voz. Tudo até o crime dele, a prisão e as torturas, pareciam pertencer a outro mundo, a um estranho, como se não tivesse acontecido com ele. Aliás, está manhã _ ou era noite, não saberia responder _ não conseguia pensar de forma coerente, concentrar a mente em algo, muito menos sentir.


—Deixe-me sozinho, Arkady. Deixe-me apenas existir. Vocês me extirparam tudo, meu país, minha vida, minhas roupas, meu corpo, vocês não podem remover minha pele. Meros símbolos, palavras neutras, sem sentido. Kachimov ofereceu-lhe um pão, um luxo na Zona. Não tinha fome, embora seu corpo definhasse a cada dia.
Vinha sendo assim desde que essa tosse 4,5 o acometeu. Aceitou assim mesmo, trocaria por algo, quando saísse da solitária, uma nova tatuagem talvez. Embora desconfiasse que fosse a agulha do tatuador que o deixou doente. De qualquer forma a doença era uma praga por toda a Zona e os antibióticos não faziam mais efeito. Kaminov pronunciou seu nome chamando-o a realidade.



—Não, Lucas, neste mundo símbolos tatuados são registros da vida do ladrão, eles são a sua realidade. Para um ladrão, todas suas tatuagens tem significado. O mundo da tatuagem é uma das sequências simbólicas que são aceitas como realidade, e que consequentemente moldam a consciência do próprio ladrão. Moldam a sua vida diária, pois eles subordinam toda a sua vida a elas4. Palavras saiam da boca de Kachimov, uma fala mansa e levemente irônica que não disfarçava a natureza ardilosa dos seus olhos. Lucas já não conseguia ouvi-lo, uma horrível sensação percorria lhe o corpo, um tremor, como se sua alma já o tivesse deixado.
—O ladrão vive através de suas tatuagens, ele é mentalmente imerso nessa realidade, ou seja, ele se dissolve no mundo simbólico de seu próprio corpo4. Um prisioneiro cujo corpo não foi simbolicamente tatuado na Zona é o mais baixo dos prisioneiros, um moribundo, despossuído de qualquer traço de força e dignidade4,5,6. Lucas, o que você tem?! Assustou-se de repente Kachimov. Vamos, sente-se, suas mãos tremem e você está gelado, um fantasma. Esqueça tudo isso. Essa conversa o deixou extenuado.


Mas algo que Kachimov disse despertou sua mente. E uma nova frieza o tomou, seus olhos se estreitaram mirando o espelho d’água. E o espelho mirou-o de volta e ele viu o olhar do predador. Sem culpa, sem remorsos apenas mais uma morte a fazer. Pode ser que seja inútil, mas por instinto, ele acelera e somente acelera, pois este não é um crime para ser compreendido. Pensamentos e diálogos internos se dissipam, deixando sua mente clara e ágil. E num único movimento, Kachimov está em suas mãos, sua cabeça dentro da água.
— Acha que tem minha mente em suas mãos? Soprando coisas em meu cérebro até levar-me a insanidade2. Aqui, não se faz nada sem força, e essa força é preciso conquistá-la à força. Mas uso de violência gera planos violentos. Pensamentos sombrios. Sonhos de guerra, sonhos de mentirosos. Mantenha-me amarrado, Kachimov. Construa o meu medo para o que está lá fora. Convença-me que trair é o único jeito de sair novamente. E se eu acordar amanhã terei a sua caveira tatuada em meu corpo.
Os olhos de Kachimov abriram-se e o medo estampou-se em seu rosto, pois por um único segundo ele viu algo que não esperava ver, não simplesmente a máquina de matar altamente treinada pelo MI-5. Ele viu algo que na superfície poderia parecer quebrado, cansado, danificado, mas que na verdade estava apenas na espreita, aguardando a oportunidade para matar. Ele viu o predador, ele viu a fúria. Porém, Kachimov tinha a vantagem de não estar doente e fraco, e embora fosse um homem de certa idade, seu corpo era forte e treinado. Num impulso readquiriu o equilibro apoiando-se no corpo de Lucas. Seus olhos se encontraram e ele suplicou.


—Lucas, mantenha-se humano, mantenha-se vivo! Você está cansado, desnutrido, seus pulmões enfraquecem a cada dia. O que isso significa para você? Nada. Você não pertence a esse mundo. Você não é um assassino. Você é um espião, seus crimes pertencem à coroa britânica, pertencem a Harry Pearce. Você não precisa sujar suas mãos. Nos entregue Sugar Horse e você poderá ir para casa, para sua esposa, para seus amigos, para seu país. Você ganhará uma medalha e uma aposentadoria por transtorno de estresses pós-traumático. E tudo isso será esquecido.
—Sim, apenas me rotule de mentalmente desequilibrado. Eu sonho com a mesma coisa todas as noites. Veja isso, a silhueta de um veleiro9. Eu vejo minha liberdade à vista. Sem portas trancadas, sem barras nas janelas. Sem coisas para fazer o meu cérebro ter medo. Você acha que pode me salvar desse inferno? Três cúpulas10, Arkady, três anos. E simplesmente deixe tudo o que eu vivi ser como um sonho.
Ao disser isso sua fúria aplacou e ele não desejou mais matá-lo, não faria diferença. A consciência que estava três anos enterrados naquele lugar o atordoou como se todo o tempo parado começasse instantaneamente a correr. Solto-o, virando-lhe as costas. Mas não reconhecia o caminho para casa, para a sua cela.


—Lucas, deixe-me ajudá-lo, diga-nos os nomes de Sugar Horse _ disse Kaminov, percebendo que algo se rompera dentro dele. Mas um novo símbolo em seu braço chamou-lhe a atenção. Uma rosa dos ventos, uma estrela de oito pontas11 somente permitida aos ladrões em lei, aos lobos-alfas do submundo do crime. Lucas percebeu a sua surpresa e disse:
—Isso é um sinal de honra, similar a uma estrela sobre um uniforme. Seus olhos se encontraram e novamente suas mãos fecharam em torno da garganta de Kachimov e ele sussurrou: —Eu sou um escravo do destino, mas não um lacaio da lei.
— É isso que significa, o Ancião dos Dias? Kachimov tentava ganhar tempo, pois sabia que Sonia estava por perto mantendo a vigilância. Era questão de segundos para Oleg e a própria Sonia surgirem, mas segundos podia fazer toda a diferença entre estar morto ou continuar vivo.


Era uma questão de segundos para Lucas North também. Já, não importava matar ou não Kachimov, Oleg os encontrariam a qualquer momento. E o resultado final deste jogo já estava previamente definido. Hoje era o dia do predador, só que de outro predador, mais forte, mas saudável, mas motivado a viver.
Assim, Sonia e Oleg chegaram quase simultaneamente, ou pelos menos seus golpes foram assim registrados em seu corpo. Na Zona há aqueles que lutam com seus punhos, enquanto outros usam a cabeça5. Mas se não há porque lutar, não há porque viver. E um vazio começou a preencher lentamente todos os seus espaços internos, endurecendo-o por dentro, esvaziando-o de suas emoções, de seus desejos, de suas lembranças, de sua consciência, preenchendo-o com o nada.
Bem vindo, meu amigo, ao lugar onde ninguém sai e ninguém sairá.


Parte II
—————————————————————————————————–
Referências
Há uma ampla discussão sobre Willian Blake e Lucas North, e eu recomendo essas duas fontes de referência o Spooks Fan Blog e o Spooks Forum. No entanto, propositalmente, eu ignorei esses textos, buscando uma outra referência: as tatuagens criminais russas. Uma simbologia, que como William Blake, é primária na construção do mundo significativo de Lucas North (1), personagem da série Spooks, produzida pela BBC.
Eight years in a Russian prison has had a profound effect on him. His personality is divided between who he was before he was imprisoned, the prisoner, and the person he has become. He was once the best in his field, and now he is trying to regain his former brilliance.
Richard Armitage


Assim, duas fontes principais foram pesquisadas e são o alicerce para qualquer um que se proponha a estudar ou tenha alguma curiosidade sobre esse código não verbal das prisões russas. A primeira á a coleção Russian Criminal Tatoo Encyclopaedia de Danzig Baldaev (4). Entre 1948 e 1986, durante a sua carreira como um guarda prisional, Danzig Baldaev fez mais de 3.000 desenhos de tatuagens. Baldaev fez anotações abrangentes sobre cada tatuagem. A segunda fonte é o documentário The Mark of Cain (5) de Alix Lambert, que serviu de fonte para o filme Eastern Promises de David Cronenberg. Como fontes auxiliares temos o filme citado e o artigo de “Signs of Honor” Among Rusian Inmates in Israel’s Prisons, de Efrat Shoham (6). Para descrever o mundo interno de Lucas North, eu tive como base o livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévsk (3), bem como a letra Welcome Home (Sanitarium), do Metallica (2).
Seus comentários como sempre são bem-vindo e muito apreciados!
Ana Cris
Read Full Post »