Numa toca do chão vivia um hobbit. O que é um hobbit? Imagino que os hobbits requeiram alguma descrição hoje em dia, uma vez que se tornaram raros e esquivos diante das Pessoas Grandes, como eles nos chamam. Eles são (ou eram) um povo pequeno, com cerca de metade da altura e menores que os anões barbados.
Assim começa o livro The Hobbit de J.R.R. Tolkien, que encantou gerações apresentando um tipo de gente pequena, com tendência a serem gordos no abdômen, sem nenhum poder mágico, discretos, que preferem a calma da vida rotineira a uma grande aventura. Alegres, de humor leve e almas simples, os hobbits nunca prenderam a minha mente, ávida por anti-heróis sombrios, e intensos no seu caminho rumo à redenção. Um dia conversando com Fabi sobre nossos personagens preferidos em O Senhor dos Anéis ressaltei essa falta de identificação emocional com os hobbits. Fabi com seus olhos de lince saiu em defesa dos pequeninos ressaltando a sua coragem frente aos maiores perigos. Desde então, meus olhos buscaram uma nova perspectiva sobre esses personagens e uma maior empatia. Onde está o meu lado hobbit?
Definitivamente um capricorniano nunca será uma pessoa de humor leve e alma alegre. Há uma montanha a subir até o topo, obstáculos a vencer e seu humor será sempre em tons mais ácidos. Todo capricorniano é persistente, leal aos seus amigos, obstinado, astuto e resistente. Ops, como um hobbit? Não, não um hobbit qualquer, mas sim um filho de Túk, pois há algo de não hobbitesco neles, e de vez em quando, algum membro do clã Túk sai em busca de aventuras. Desaparece discretamente, e a família silencia sobre o assunto, mas permanece o fato que os Túks não são tão respeitáveis como os Bolseiros. Foi assim com Bilbo Bolseiro, filho de Beladona Túk, que numa manhã distante, abandonou o Condado por um longo tempo, depois de uma misteriosa visita de Gandalf, e sai na companhia de Thorin Escudo de Carvalho e um grupo de mais doze anões em busca de um tesouro saqueado por Smaug. Gandalf! Se vocês tivessem ouvido apenas um quarto do que eu já ouvi a respeito dele, e eu ouvi só um pouco de tudo o que existe para ouvir, estariam preparados para qualquer tipo de história surpreendente.
Ah, aí está o meu lado hobbit, ou melhor, dizendo, o meu lado Bilbo Bolseiro. Como Bilbo eu vivo numa toca firmemente presa ao chão. Embora o meu Condado não seja nem tão silencioso nem tão cheio de verde, há uma tranquilidade atípica nas grandes cidades, quando você adentra os seus limites. Há pássaros, há um belo jardim e inúmeros Ipês-rosa, que florescem no inverno dando um colorido romântico a toda a área externa. Os dias passam e a lua e o sol se reversam no céu infinito. E como um Bolseiro, eu me sinto feliz e satisfeita na maioria dos dias, esperando a oportunidade para uma grande aventura. Para mim essa oportunidade surgiu numa manhã distante quando o meu orientador me perguntou se eu não queria assumir um projeto de pesquisa no Pantanal sul-mato-grossense por quatro anos, com uma bolsa de doutorado. Claro que sim! Joguei tudo para o alto, emprego, namorado e fui viver “no meio da floresta convivendo apenas com os bichos”. Como Bilbo, eu nunca mais fui a mesma.

E também jamais recuperei a minha reputação de “gente respeitável”, tendo fama de ter uma alma aventureira. Eu sorrio quando ouço a voz da minha mãe ao telefone com suas amigas: “Ah, a Ana Cris nunca me deu trabalho quando era pequena, mas agora não sossega só quer saber de bicho, você não sabe a última…”. E lá se vão horas intermináveis com um relatório detalhado de minha última aventura, complementado com algo suscinto sobre o que eu ainda não fiz: um casamento e a encomenda dos netos! Graças à Deus, os meus irmãos foram generosos com meus pais, e lhe deram quatro lindos netos. O sorriso em meu rosto se desnuvia quando eu penso que as histórias de minha mãe estão ficando velhas assim como eu. Qualquer dia já não me lembrarei dos dias de grande aventura, do sol em meu rosto, do cheiro de um bicho, da não existência do tempo. Eu estou de volta nesse Condado há cerca de dois anos e na maioria do tempo eu sou feliz com que a vida me oferece. Mas, algum tempo atrás eu sonhei com Gandalf! Então alguma coisa dos Túk despertou no meu intimo, e eu desejei ir ver as grandes montanhas, ouvir os pinheiros e as cachoeiras, explorar as cavernas e usar uma espada ao invés de uma bengala. Ops, nem tanto, eu não uso espada nem bengala. Apenas tênis, um bom jeans, camiseta, dinheiro ou cartão de crédito.
Até o fim de seus dias Bilbo nunca pôde lembrar como se viu fora de casa, sem chapéu, bengala ou qualquer dinheiro, e sem nada do que geralmente levava quando saía, sem terminar o desjejum e muito menos lavar a louça, entregando as chaves de casa nas mãos de Gandalf e correndo o máximo que seus pés peludos conseguiam.
Mas, eu, Rosie-Posie Proudfoot de Standelf, uma hobbit, conhecida como Ana Cris, na companhia de sua sobrinha, a meiga e linda Honeysuckle Tighfield de Tookbank, jamais esquecerei o dia que partirei para a Terra-Média, com apenas um objetivo: refazer o caminho de Bilbo Bolseiro. Deixarei as chaves de casa com minha mãe, lhe darei um grande beijo me desculpando por deixar o quarto em uma enorme bagunça, recomendarei aos meus cães que se comportem e sairei para uma nova aventura. Irei a todos os lugares que meus pés conseguirem e meus olhos alcançarem. Ah, esqueci-me, não seria ruim encontrar lá certo anão e sua companhia. Afinal uma garota pode sonhar!
Até a volta!

Queridos amigos,
Estou indo para as minhas tão sonhadas férias na Nova Zelândia, do dia 4 a 22 de fevereiro. Tanto quanto seja possível eu enviarei notícias para vocês. Eu não posso transmitir a felicidade de estar realizando esse sonho, acalentado desde que assistir ao filme O Senhor dos Anéis, de conhecer esse lugar mágico e fabuloso. Uma benção adicional será poder fazê-lo na companhia da minha sobrinha Carol, que é para mim como uma filha. Por favor, nos mantenham em suas orações e bons desejos para que tudo ocorra bem e que possamos voltar em segurança e felicidade plena.
Cuidem-se!


