Parte 1: A canção dos Anões: Indo Além do Eu Vou!
Texto por Ana Cris, Pesquisa por Ana Cris e Fabi
Poesias e canções são registros históricos, uma forma de preservar a história e a tradição para as gerações futuras. Os poetas e cantores do passado eram os guardiões da memória do povo, mantendo as histórias dos heróis e das pessoas do passado vivas. O ator Richard Armitage, interprete de Thorin Escudo-de-Carvalho, destaca este aspecto da canção Misty Mountains1. Ele diz:
[…] Para mim ela foi como uma canção de berço para nossos anões jovens, para que eles nunca esqueçam o que aconteceu com eles na Montanha2 […].

No entanto, a memória não separa o presente do passado, uma vez que o primeiro contém o segundo; e por meio da oralidade, a canção é livre para atualizar fatos da história e da vida. Em outra entrevista o ator diz:
Quando eu gravei essa música, eu imaginava que ela tinha sido cantada para Thorin de tempo em tempos, quando ele ainda era um bebê em seu berço e que esta também despertou uma forte identificação emocional entre os outros Anões. Eles cantam com todo o coração, mesmo que o grupo acabou de se conhecer, eles mostram seu apego firme à sua comunidade e além, para o Reino que eles perderam3.
Assim, as canções lembram os grandes acontecimentos do passado, preservam as memórias do presente para o futuro, e atualizam os mitos e rituais de um povo, sendo considerada, portanto, uma tradição viva por seu forte caráter interdinâmico, pessoal e integrador.
Especialmente os guerreiros veem as canções que serão feitas de suas ações como o meio pelo qual sua história será transmitida as gerações futuras. Claramente, a função da música não é apenas reviver os mitos: elas também determinam quais histórias serão contadas. Era necessário, portanto, para os guerreiros realizar algo significativo o suficiente, com nobreza e honradez, para ser digno de uma canção: esta era a sua esperança para a imortalidade4.

Queríamos que ele (Thorin) soasse como um guerreiro que só tinha essa música dentro dele. E, para mim, foi como um mantra2, [...] e eu acho que você sente que a partir dessa cena que ela é um tipo de sagrado. Um momento sagrado para aqueles homens sobre enfrentar seus medos5.
Thorin tomou para si a responsabilidade de corrigir os erros de sua casa e a vingança contra o dragão que lhe foi legada. Doug Adams explica que o tema composto por Howard Shore para Thorin Escudo-de-Carvalho lembra diretamente Erebor, embora ele se move por passos amargos, e não por saltos orgulhosos. Como uma melodia de trompa (i.e. French horn) solitária que passa acima de harmonias A menor e G maior, a determinação de Thorin é pincelada com um sentimento de saudade e melancolia. Seu tema expressa firme determinação e a alma de um anão que não pode perdoar e não pode esquecer. No entanto, aninhado no pesar nobre do tema de Thorin, há esperança: o movimento gradual que abre o seu tema é o mesmo que inicia o tema do Condado6.

De presença muito menos óbvia, mas igualmente importante como expressão do espírito de um povo é a expressão de sua religiosidade. Richard Armitage cita inúmeras vezes em suas entrevistas a canção dos anões como um mantra, como algo sagrado.
Um mantra é um som, palavra ou grupo de palavras que é considerado capaz de criar transformação. A palavra sânscrita mantra é formada de duas sílabas: MAN que significa “pensar”, e TRA, que se traduz como ferramenta ou instrumento. O seu significado é, portanto, instrumento do pensamento. Recitar um mantra nos ajuda a eliminar os obstáculos mentais criados pelo medo e ressentimento, nos ajuda a colocar as ideias em ação. Uma idéia não colocada em prática é apenas um pensamento. Quando colocamos nossas ideias em ação, damos vida e energia para os nossos pensamentos.
Uma canção de berço, que La Loba canta para mim.
OM significa os sagrados corpo, fala e mente de Tara.
TARE Aquela que liberta do sofrimento verdadeiro.
TUTTARE que elimina todos os medos.
TURE que liberta da ignorância.
SOHA significa possa o significado do mantra enraizar-se em minha mente.
A canção Misty Mountains é o mantra de Thorin, um tipo de canção sacra, solene, reverencial que coloca em ação o seu desejo de retorno ao seu Reino7, bem como um mantra para Armitage, que diz:
A canção foi muito importante como parte da preparação, e na verdade eu usei a música, eu meio que cantarolava a música para mim mesmo quando eu estava andando pelo set. Ela tornou-se como um mantra7 [...].
Mas, que força incompreensível e misteriosa da canção nos atraem para ela? Por que quando você a ouve, soa incessantemente nos ouvidos a sua melancolia, carregada por toda a sua extensão? O que está nela, nesta canção? O que está chamando, chorando, e agarra o coração8?
E eu meio que vi como o modo que Tolkien estava tentando seduzi Bilbo na vinda na busca com eles (anões). E eles, Peter tem um cena onde Bilbo a escuta e quase como uma canção de encantadores de serpentes, ela o arrasta, puxa-o para fora da porta, como as brasas indo para cima da lareira9.
Essas questões foram direcionadas a cantora russa Liudmila Zykina, que levou ao mundo inteiro o lirismo e a melodia das canção popular russa. Ela define a canção russa como a alma do povo russo:
A Canção Russa, criada pelo povo, é a nossa riqueza de valor inestimável. Ela desperta em nós o sentimento de orgulho e amor à Pátria. Nela esta a alma do povo, a vida do povo em toda a sua diversidade. O que pode ser mais maravilhoso que a vasta melodia russa, nascida na grande terra, do grande povo8.
Richard Armitage nos conta que ouviu algumas canções e corais russos para encontrar o tom da canção Misty Mountains daquele lugar de ressonância no ventre9.
A voz de Thorin vem do ventre, onde temos a respiração mais profunda, diafragmática ou abdominal. A respiração tem coneção direta com a emoção, e é a chave da espiritualidade. Em grego, “pyseche” significa respiração e alma, assim como “atman” em Hindu. Para atingirmos a alma precisamos aprender a respirar e nos conectar novamente conosco mesmo. Precisamos encontrar a nossa voz. Armitage nos diz que a música o ajudou a encontrar uma voz para Thorin, uma voz que transmitisse a sua personalidade, o seu espírito:
Na verdade, foi um momento-chave no desenvolvimento do personagem. E porque Tolkien descreve o canto profundo da garganta dos Anões tão especificamente, ele realmente me deu um lugar para olhar para a voz de Thorin, porque era importante para mim encontrar uma voz para ele que, penso eu, era apropriado para que ele pudesse comandar seus anões com honra e nobreza, e ao mesmo tempo, ter um tipo de sensibilidade para ele. E, também está na frente de um exército e dar ordens a eles. Então, essa música me ajudou a encontrar um tom para Throrin10.
A música é um fenômeno absolutamente necessário na vida espiritual de todos os povos. É o ar, sem o qual a vivência, tanto do povo quanto do indivíduo, é impossível e impensável. E assim como nós não valorizamos o ar, até que começamos sufocar, não percebemos a incondicional necessidade e o valor da canção até o momento, quando ela começa a desaparecer8.
Particularmente, a canção de Thorin nos chama pela sua melodia e melancolia, e pelo germe espiritual que brota no coração e alimenta-se da sinceridade humana de cada um, que ao menos uma vez sentiu o desejo do coração dos Anões de voltar para o seu verdadeiro lar e reencontrar o seu tesouro encantado.
Referências
1. Tolkien, J. R. R. The Hobbit or There and the Back Again. Harper Collins Childre’s Book.
2. Inner Space, Interview Richard Armitage – The Hobbit (December 3, 2012).
3. Ecran Fantastique, Interview Richard Armitage (November, 24, 2012).
4. Amendt-Raduege, Amy M. 2010 “Worthy of a Song”: Memory, Mortality and Music in Middle-earth Minstrel Essays on Music in Tolkien Edited by Bradford Lee Eden, McFarland & Company, Inc., Publishers.
5. AccessHollywood, Interview Richard Armitage (December 12, 2012).
6.Notes original text by Doug Adams from The Hobbit – An Unexpected Journey – Original Motion Picture Soundtrack – Special Edition. O tema de Thorin se encontra, por exemplo, nas canções Axe or Sword; Over Hill)
7. James Kleinmann, Interview Richard Armitage, (December 12, 2012).
8. Canção Russa
9. AccessHollywood, Interview Richard Armitage, (December 12, 2012).
10. BadTaste, Interview Richard Armitage, (December 12, 2012).
11. Imagens from The Hobbit: An Unexpected Journey (2012)
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