Feeds:
Posts
Comentários

Posts com Tag ‘Nova Zelândia’

O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.
Deitar-me faz em verdes pastos,
guia-me mansamente a águas tranquilas.
Salmos 23:1-2

Texto Ana Cris, Pesquisa Fabi e Ana Cris, Ilustração Sebastian

IMG_3187

Morelea Farm, Nova Zelândia (Photo: Ana Cris) 

John1 era um menino que prestava atenção a tudo.  Às vezes ele ficava reparando nas coisas que todo mundo vê. As margaridas na janela, as folhas balançando com o vento, as ovelhas pastando. Mas outras vezes, mesmo de dia, mesmo acordado, mesmo de olhos abertos, ele ficava tão distraído que nem respondia quando falavam com ele. Nessas horas, o avô de John costumava dizer. — Ele está espiando para dentro. E estava mesmo2. E aí ele via coisas que muita gente não conseguia ver, pois John sabia se comunicar com seu mundo interior e os tesouros que lá se encontravam3.

Assim, quando ele sentava na cadeira de balanço do avô e espiava para dentro logo estava enfrentando um mar agitado num navio de piratas2. Ou quando ele cuidada das ovelhas e espiava para dentro,   estava numa floresta, cheia de animais falantes.  Em qualquer lugar, John conseguia sair e espiar para dentro. E isso começou a virar mania. Foi assim, que ele conheceu um carneiro chamado Oak-hearted, e eles se tornaram grandes amigos.

JS

John Standring by Sebastian

Com o tempo John foi achando que no mundo de dentro tudo era tão mais divertido do que fora, então ele teve um plano2.

—Sabe Oak, ando com vontade de me tornar um carneiro e ficar aqui para sempre.

— Para sempre? — perguntou Oak.

— Para sempre, respondeu John. Aqui é onde faço tudo o que quero.

Oak respirou fundo e disse.

—Eu acho que para sempre é tempo demais!

Mas John não lhe deu ouvidos e continuou com seu plano. Resignado, Oak disse:

— Bom, para ser um carneiro você deve manter laços fortes com a sua infância, com as qualidades da sua criança, tais como a gentileza, a inocência e a vulnerabilidade4. Ser um carneiro significa que você irá aprender a entrar em contato com uma parte mais vulnerável de si mesmo. Mas de um modo positivo, ou seja, aberto, disponível para sentir de uma forma suave e inocente. Você terá que aprender a aceitação compassiva das limitações dos outros e da dor. E terá que ser mais tolerante com você mesmo. Olhar para o sofrimento emocional que você poderá vir a experimentar com compaixão e aceitação, cuidando de si mesmo e dos outros ao invés de culpa-se ou revoltar-se com a vida4.

IMG_3126_thumb[15]_thumb[4]image
Ovelhas, Nova Zelândia (Photo: Ana Cris) 

E assim, o tempo passou e John cresceu, tornando-se um homem gentil  e prestativo. E de tanto espiar para o mundo de dentro, ele  começou a  perceber as sutilezas que os outros não percebiam.  Introvertido, sua forma de trabalho era mais lenta e ponderada. Ele gostava de focar uma tarefa de cada vez, e tinha grande poder de concentração. Seu pensamento tinha  uma complexidade incomum. E ele tendia a ter uma consciência do mundo a sua volta surpreendentemente forte, percebendo o mundo interior do outro como se fosse a própria pessoa, o que lhe dava um forte sentimento de empatia. Ouvia mais do que falava e muitas vezes ele sentia que se expressava melhor escrevendo. Não gostava de conflitos nem de  jogar conversa fora, mas gostava de discussões profundas com seu avô3.

JS

Mas fora de John havia Carol Bolton1. Carol era a garota mais bonita que John já tinha visto. Pensando bem era a única garota que ele tinha visto, pois no mundo de dentro não havia muitas garotas. Ela era extrovertida  e impulsiva, e  adorava a vibração do mundo de fora, a corrida atrás de fama e fortuna. Mas John era imune a isso. Ele preferia devotar suas energias sociais aos amigos mais íntimos e a sua família. Já, Carol tinha paixão, e estava sempre metida em alguma confusão, tentando subverter a ordem das coisas. Enquanto, John era um observador atento que olhava antes de dar um salto.

JS by SebNo entanto, de tanto espiar para dentro,  o mundo lá fora sumiu. E ele se sentia inadequado, ansioso e assustado quando espiava para fora. Principalmente perto de Carol.

—É… passar o resto da vida espiando para dentro pode não ser uma boa. Ele disse  para Oak.  Não sou como a Carol, não sou heroico e sociável — disse John.

Oak balançou a cabeça. E disse:

—Em tempos de guerra ou de medo, pode parecer que o que mais precisamos são os tipos agressivos e heroicos. Mas se toda a população fosse de guerreiros, não haveria ninguém para notar – quanto mais para lutar contra – as ameaças mais silenciosas3.

John Standring by Sebastian

—Sinto que se quero conquistar a Carol tenho que aprender a ser mais comunicativo e sociável e deixar de ser tão tímido.  Além disso, todos devem ser extrovertidos se querem ser bem-sucedidos, disse John.

—Os introvertidos não são necessariamente tímidos. Timidez é o medo da desaprovação social ou da humilhação, enquanto introversão é a preferência por ambientes que não sejam estimulantes demais. A timidez é inerentemente dolorosa; a introversão, não3. Não seja tão duro consigo mesmo, John. Há muitas qualidades em você. O temperamento extrovertido é atraente, mas a vantagem criativa dos introvertidos está justamente na solidão que pode ser um catalisador da inovação. Pessoas introspectivas podem vir a ter sucesso como artistas, escritores, cientistas e pensadores, pois sua aversão à novidade faz com que passem mais tempo no ambiente  intelectualmente fértil  de suas mentes3— disse Oak

—Sabe, Oak — disse John. Eu espiei para dentro da Carol. E quando ela era apenas uma garota, ela esperava o mundo, mas ele voou longe de seu alcance. Então quando ela foge em seu sono, ela sonha com o paraíso5. E agora ando com uma vontade de  ficar lá para sempre, pois lá está tudo o que quero.

— Excelente! — disse Oak.  Tudo o que a Carol precisa é de alguém  que  lhe traga novamente a inocência, a suavidade e a vulnerabilidade da sua infância. E lá se foi John porta a fora colocar o seu novo plano em prática!

Referência e Notas

 

1. Sparkhouse is a BBC drama, originally shown in 2002, written by Sally Wainwright which is a modern take on Wuthering Heights.  Serie TV BBC UK

2. Machado, A. M. 2008. O menino que espiava pra dentro. Editora Global

3. Cain, S. 2012. O poder dos quietos.  Original title Quiet: The Power of Introverts . Editora Agir

4. Sheep Spirit Animal

5. Paradise – Coldplay

 

6. Richard as John Standring. Images from http://www.richardarmitagenet.com/

Read Full Post »

Situada ao norte do Lake Wakatipu tendo as cordilheira das Remarkables ao fundo, a cidade de Queenstown, na Nova Zelândia, é conhecida como a “capital mundial da aventura”. Ela oferece inúmeras opções para todos os tipos de aventureiros, desde caminhadas ao ar livre até rafting e esqui. Mas sua fama se deve principalmente às atividades aéreas, destacando-se o Kawarau Bridge Bungy Jump, com 43 metros de altura, considerado o primeiro bungee comercial do mundo. Com a crescente popularidade desse esporte de aventura duas questões surgem: porque as pessoas fazem isto e é seguro?

 Arquivo: Kawarau Rio bungy.JPG

KAWARAU BRIDGE BUNGY

O esporte de bungee jump começou com um documentário de 1950 de David Attenborough sobre o ritual Nagol, conhecido como  mergulho na Terra, das ilhas de Pentecostes, em Vanuatu. O documentário mostrava jovens que mergulhavam a partir de uma plataforma de madeira, de 30 metros de altura,  apenas com cipós amarrados aos seus pés. O Nagol é  um ritual complexo de fertilidade, onde os homens se lançam do alto da torre tocando a cabeça no chão, garantindo assim uma boa colheita de inhame para a tribo,  e também um rito de passagem para os meninos que se despendem da infância e entram na vida adulta.

Os rituais devem ser realizados com boas intenções e corações puros

(Provérbio dos índios hopi)

A expressão francesa rites de passage foi adotada por antropólogos e escritores europeus para definir todos os rituais e cerimônias que propiciam a passagem de uma pessoa para uma nova forma de vida ou um novo status social. Igualmente, a palavra latina ritus significa rio. Ao criarmos um rito de passagem mergulhamos no fluxo da força vital que permeia todos os seres, honrando a sacralidade da vida. O elemento mais importante de um rito de passagem é a intenção, é ela que movimenta a energia durante um rito, seja para nós mesmos, seja para um amigo que está celebrando a transição. A contribuição mais importante dos participantes é a solidaridade e o apoio que oferecem por meio de palavras ou de gestos, revivendo-se assim o espírito de irmandade e o sentimento de pertencer a um grupo (Fur, 2003).

digitalizar0003Você é forte, corajosa,  importante! Nós a amamos muito! Você é completamente louca!  eu gritava para Carol, a medida que a fila andava e ela se aproximava da plataforma de salto. O vento jogava meus cabelos para trás e meus olhos apenas sorriam frente a paisagem enebriante que se estendia a minha frente. Carol era um misto de emoções intensas: alegria, entusiamo, vibração  e medo. Correndo em suas veias a  adrenalina; em sua mente, lembranças de seus pais e namorado,  toda sua  vida num único segundo; num  único passo ela se lança para o futuro imprevisível e a mulher adulta que ela está preste a ser tornar.  Ainda na plataforma, a adrenalina já começava a correr em minhas veias e com ela a certeza de que nós nunca mais seriámos as mesmas.

Jumping! (Photo by Ana Cris)

Só os que se arriscam a ir longe demais são capazes de descobrir o quão longe se pode ir.

T. S. Eliot

Enfrentar situações inusitadas e ser capaz de realizar uma atividade desafiadora é sem dúvida uma atração importante nos esportes de aventura. Como Weber (2001) afirma aprender e adquirir insight não são somente efeitos colaterais desse tipo de atividade, eles são partes integrantes delas. Tais experiências trazem conhecimentos sobre si mesmo, que não estão disponíveis na vida cotidiana. Consequentemente, brincar com os seus medos parece ser uma atração em esportes de alto risco. Bungee jump é  bom exemplo disso. “Acho que as pessoas tem um fator de medo inerente, e o que elas desejam, fazer é empurrar-se acima dele. E o interessante, especialmente com bungee é que as pessoas com limiar de medo alto, isto é, aqueles que podem suportar uma grande quantidade de medo, basicamente extraem muito pouco do bungee, é algo que eles podem fazer sem problema. Já, as pessoas com um baixo limiar e, naturalmente, com mais medo, elas  tem  realmente que superar e conquistar algo dentro de si mesmo para fazê-lo. E são essas pessoas que irão lhe dizer que o bungee foi uma mudança de vida, elas realmente sentem que elas conquistaram alguma coisa.” (Mark Patterson, gerente de Marketing, Desafio Rafting).  Medo é parte do que somos, e uma de suas características é sua imprevisibilidade.

DSCN6374Minutos pareciam uma eternidade,  enquanto ela estava parada na plataforma, mirando o abismo aos seus pés. Não havia pressa, nem pressão. Os operadores calmamente passavam as intruções sobre o salto, ajudando-a a readquirir o controle e a confiança. Lá embaixo, seus amigos lhe davam apoio, acenando e gritando o seu nome, Graci e de seu país de origem, Argentina. Um coração vibrava mais do que os outros, a de seu marido.  E então, ela se lançou, leve, livre e solta, seus medos ficando para trás. Um coro de vozes de amigos e desconhecidos vibrou e a aplaudiu! Ali estava uma mulher corajosa!    

Go, Graci, go!

(Photo by Carol)

De uma coisa tenho certeza: não fiquei parada na beira do rio, sempre optei por atravessar e descobrir o que tem do outro lado da margem.

(Ignez Baptistella)

Todo mundo precisa de uma aventura, uma ruptura da estabilidade da vida cotidiana e de seu mundo conhecido. Na aventura nos lançamos ao mundo com menos defesas e reservas do que em qualquer outra relação.  Na aventura não temos clareza para onde  estamos indo ou do porquê.  Toda aventura envolve algum tipo de risco, e superar  este pode ser retratado como parte da atração para  aventurar-se. A idéia de experiência de fluxo sugerido por Csikszentimihalyi (1975) nos ajuda a resolver essa aparente contradição, mostrando que quando existe um equilíbrio entre a habilidade necessária e o risco inerente, um feedback positivo ocorre em termos de satisfação.

Experiência de fluxo é definida como um envolvimento completo do ator com sua atividade (Csikszentimihalyi, 1975) e é caracterizado por sensações de fusão e fluidez com aquela atividade. Fluxo é um conceito importante porque ele fornece o modelo teórico para entender satisfação na experiência de esportes de aventura (Johnston, 1989).  Somente através do estudo dessas atividades sob o prisma do fluxo é que os sentimentos de harmonia, satisfação e perda de auto-consciência presentes nos esportes de alto risco, se tornam claros (Cater, 2006).

Priest & Bunting (1993) propuseram um modelo de fluxo em esportes de aventura. Os atores sugerem que quando a competência para uma habilidade é alta, mas o risco é baixo, uma condição de exploração e experimentação prevalece. Quando o  risco é aumetado, mas competência diminui, aventura ocorre, e quando os dois são combinados há a condição de pico de aventura que corresponde a natureza balanceada de fluxo sugerido por Csikszentimihalyi (Cater, 2006).

IMG_2289

Ana Cris in the sky (Photo by Carol)

O tempo parou e a paisagem tornou-se estática, como num filme, onde o diretor dá um zoom em câmera lenta. Havia somente o silêncio e a sensação de entrar no grande fluxo da vida. Mergulhando no etéreo, onde não há nem um fim nem um começo. Esquecendo-me por um minuto da “Ana Cris”, e simplemente vivendo  o aqui e o agora.  Um portal azul-turquesa sinalizava a passagem do mundo de   Te Pö (o reino da noite, da escuridão) para o mundo de Te Ao Marama (o reino da plena luz dia), convidando-me a atravessá-lo. Uma alegria invadiu-me por completo.  Então, a corda deu o seu primeiro tranco, trazendo me de volta ao corpo, ao  seu mundo de sensações e urgências. E no balanço da corda  entreguei-me.  Girando, subindo e descendo,  movendo-me para a nova etapa da minha vida.

Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você.

(Fredrich Nietzsche)

Com o crescimento da indústria de turismo de aventura e  consequentemente toda sua maquinaria de marketing,  os turistas podem se envolver em atividades de aventura com a percepção de que há um risco mínimo de dano, devido ao contexto do turismo, que envolve a entrega de uma parte significativa da responsabilidade pelo gerenciamento do risco para o provedor da aventura em questão.  No entanto, os acidentes ocorrem, e suas consequências podem ser trágicas. Ron Watters em seu ensaio The Wrong Side of the Edge de 1998, chama a atenção para o perigo da glamorização do esportes de alto risco.

DSCN6348

Kawarau River (Photo by Ana Cris)

Em nossos esforços para  promover o esporte de alto risco, chegamos a um ponto onde de glamorização e criou-se uma imagem para o consumo geral que é muito diferente do que essas atividades são realmente. Nós desviamos a atenção das pessoas da possibilidade não tão glamourosa que se pode ser morto, concentrando as atenções apenas no lado divertido. É uma mentira, um ponto de vista que permeou quase todos os cantos da nossa sociedade. O efeito tem sido o de tornar a experiência de alto risco em algo semelhante a uma visita à Disneyland. Há uma grande diferença. Na Disneylândia tudo é seguro. Não é assim no  lado de fora (Watters, 1998). 

Esta falsa sensação de segurança de acordo com o psicólogo, Michael Apter em seu livro The Edge Dangerous (Apter 1992) vem de uma avaliação realista de sua capacidade de executar a atividade. Usando a metáfora da borda de um penhasco, Apter teoriza que todas as atividades na vida tem três zonas: uma zona de segurança onde se está longe da borda, a zona de perigo onde se anda no limite, e a zona de trauma onde se cae fora da borda e se é ferido ou morto. Apter acredita que quando as pessoas buscam emoção intensa, elas se colocaram no que  ele chama de uma estrutura protetora que é construída através do uso correto de equipamentos e  tendo a habilidade e preparação adequada para a execução do esporte. Essa armação de protecção nos permite aproximar-se da borda, mas não cair para a zona de trauma.

O que acontece de acordo com Apter é que as pessoas podem ser enganadas em pensar que eles estão operando dentro de uma armação de proteção, quando na realidade elas não estão. Reforçado pelo que ouvem e vêem na mídia e combinado com a falta de conhecimento e habilidade, os limites da armação de proteção são completamente obscurecidos. Apter diz: “Parece simplesmente que as pessoas estão jogando um jogo emocionante, sem repercussões”. Isso é exatamente o que a glamorização de esportes de alto risco pode fazer. Ela dilui a distinção do que é real e irreal, do que é seguro e quais são os riscos envolvidos (Watters, 1998).

DSCN6342

KAWARAU BRIDGE BUNGY

Sem dúvida, bungy jumping pode ser perigoso, e o recente caso da turista australiana que teve a corda rompida durante um salto no Zimbabué, está na mídia para nos lembrar disso. A maioria dos acidentes ocorrem devido  à incompetência da equipe responsável pelos saltos, que não cumprem as normas de segurança para bungee jumping, (veja aqui  e aqui, algumas normas). Igualmente a maioria dos bungy jumpers inexperientes não tem informações sobre os riscos não letais da prática do esporte, que são relatados principalmente nos meios científicos. Entre eles destacam-se o risco de traumatismo ocular associado a bungee jumping, (veja exemplos aqui em inglês e aqui em português), que pode levar a perda da visão.  Assim é importante que o público tenha consciência do  riscos da prática desse esporte, e ao decidir fazê-lo contratem operadores que  estes estejam firmemente comprometidos com as normas de seguranças vigentes.

_______________________________________________________________

Referências

Apter, Michael J. 1992. The dangerous edge: the psychology of excitement. New York:  The Free Press.

Cater, C. I. 2006. Playing with risk? participant perceptions of risk and management implications in adventure tourism. Tourism Management 27: 317-325.

Faur, M. 2003. O legado da Deusa. Editora Rosa dos Tempos. Rio de Jnaeiro.

Watters, R. 1998. The Wrong Side of the Edge in To the Extreme: Alternative Sports Inside and Out, edited by Synthia Sydnor and Bob Rinhart and published by State University of New York Press.

Read Full Post »

We’re in Day Five of the FanstRAvaganza 3 in THE HOBBIT tagteam chain! If you missed Day One, check out the posts at here

fanstravaganza-banner-small12_579pxB_thumb[2]

Mihi Ki Ngā Manuhiri

(Agradecimentos aos visitantes)

IMG_1440_thumb[7]

E te manuhiri tūārangi

Hāere mai, hāere mai.

Hāere mai ki te whakanui i te karanga o tēnei rā,

Nō reira, nau mai, hāere mai.

E ngā mātā waka,

E ngā tai, e whā,

Nau mai, hāere mai ki te whatutuki i te

kaupapa o te rā nei.

Hāere mai, hāere mai, hāere mai.

E ngā iwi, e ngā reo, e ngā mana,

Tēnā koutou kua tae mai nei ki te manaaki i

te kaupapa o te rā nei.

Nō reira, nau mai, hāere mai.

Para os nossos ilustres visitantes,

Bem-vindo, bem-vindo.

Bem-vindo a esta ocasião especial em que estamos hoje aqui reunidos.

Bem-vindo, bem-vindo.

Para o waka diversos, provenientes dos quatro mares, bem-vindo, bem-vindo.

Bem-vindo, com a vossa presença que tem cumprido o propósito deste dia.

Bem-vindo, bem-vindo.

Para os muitos povos, todas as vozes, todas as montanhas,

todos os rios, obrigado por terem vindo a apoiar esta

ocasião auspiciosa. Bem-vindo, bem-vindo.

Figura 1. Representação dos ancestrais (Photo: Carol)

—————————————————————————————————-

O pöwhiri é um ritual de encontro (Royal, 2001), cujo objetivo é criar algum tipo de acordo entre os grupos, para determinar as áreas de diferenças e reconhecê-las, mas principalmente, para desenvolver e prescrever áreas de mútuo acordo e unidade (Royal, 2001).  Assim, o papel do pöwhiri é unir as pessoas. Esta é uma regra para todos os rituais de encontro.

Rituais de encontro são importante uma vez que o modo em que encontramos inicialmente cada outro estabelece o terreno em que todos os diálogos subsequentes serão construídos, influenciando a forma, a direção e em última análise o resultado.

Para entendermos o pöwhiri, precisamos entender um importante tema da  cosmologia Maori, que é o movimento da escuridão (Te Pö) para a luz (Te Ao). Quando a separação da terra (Papatuanuku)  e do céu (Ranginui) ocorreu, ela tomou lugar num contexto de um movimento da escuridão para a luz. Quando o ceú é finalmente separado da terra, a luz é derramada no mundo. Um novo estado, um novo mundo, uma nova consciência é criada chamada Te Ao Märama, ou o mundo da luz (Royal, 2001).

image

Figura 2. Richard Armitage numa cerimônia de pöwhiri realizada no set de filmagens de The Hobbit, citando em seu discurso o tema da cosmologia Maori, do movimento da escuridão (Te Pö) para a luz (Te Ao).

A mesma simbologia está presente na  wharenui (or whare tupuna) e na marae, que simbolizam o mundo e a realidade em geral. A wharenui, a casa ancestral é um templo ao Te Ao Märama. Ela ergue-se como um lembrete que todos que vem a marae  devem buscar a realidade de luz nas suas atividades. Normalmente ela é intrisecamente esculpida com imagens estilizadas dos ancestrais, e a construção em si é vista como o corpo do ancestral, com a crista como a coluna vertebral, as vigas como as costelas e as colunas superiores laterais como braços. O teto é Ranginui, o chão é Papatuanuku e  o interior é Te Ao Märama. Assim, o wharenui é um lugar de repouso, de reconciliação e de luz. Ao entrar, normalmente o grupo anfitrião se posiciona a esquerda onde eles podem guardar a porta, e os visitantes se posicionam a direita.

IMG_0632

Figura 3. Casa ascentral , onde normalmente se realiza cerimônias pöwhiri, conhecida como wharenui, localizada numa área aberta  chamada marea areare (Photo: Ana Cris).

A marae, a área aberta de terra em frente a wharenui,  por outro lado é orientado em direção a  Te Pö, em direção a escuridão, em direção ao conflito. A marae é o simbolo da identidade tribal. O objetivo da marae é trazer as pessoas de seu estado de conflito para um estado que é análogo ao Te Ao Märama (Royal, 2001). E por essa razão que o ritual é chamado pö (escuridão) e whiriwhiri (unir e costurar).

Há uma diversidade no modo em que o pöwhiri é conduzido e os lugares onde eles são promulgados. A despeito dessa diversidade há uma forma geral para todos os pöwhiri. Você pode reconhecer um pöwhiri quando você ver um destes:

1. Warea – Um encantamento de proteção por parte dos visitantes, para avisar os anfitriôes de sua iminente visita e para buscar orientação e proteção dos Atua (deuses).

2. Wero – Significa lançar uma lança, e é o modo tradicional de testar as intenções dos visitantes. Normalmente um guerreiro corre em direção aos visitantes, gesticulando, fazendo caretas e empunhando a sua taiaha (lança) e deixa um taki, um objeto ritualístico (folhas ou um bastão esculpido) no caminho em frente ao visitante. A posição do taki indica as intenções dos anfitriões, se de paz ou guerra.

Quadro isolado 1

Figura 4. Cerimônia de pöwhiri, onde guerreiro Maori testa as intenções do visitante, performando um wero (Photo: Ana Cris).

3. Karanga – Chamado de boas-vindas pelos anfitriões. Quando os visitantes aceitam o taki, uma mulher ou um grupo de mulheres iniciam a karanga, em que os visitantes são chamados a se aproximar do grupo hospedeiro. Frequentemente a saudação terá um boa-vindas aos espíritos dos ancestrais. Os visitantes começam  sua aproximação através do waharoa (portão) e cruzam a marae.

imageimage

Figura 3. a. Cerimônia de pöwhiri realizada no set de filmagem de The Hobbit, onde as mulheres Maori realizam o Karanga, chamado de boas-vindas aos visitantes. b. Richard Armitage recebe o taki, um ramo de folhas, um objeto ritualístico que representa as boas intenções dos anfitriões e dos visitantes.

4. The Haka – Dança cerimonial dos homens, brandindo armas, torcendo suas faces e mostrando a língua com a intenção de  inspirar medo nos visitantes, mostrando aos visitantes que os anfitriões são poderosos e perigosos, e então preparados para qualquer subterfúgio.

  IMG_0801IMG_0806

Figura 4. Guerreiros Maori perfomando a Haka, numa cerimônia pöwhiri (Photo: Ana Cris).

5. Pöwhiri – Canto acolhedor de boas vidas ao visitantes, executado pelas mulheres, com o propósito de afastar os espíritos malignos e fornecer aos visitantes um acesso seguro a Marae.

6. Tangi. Pranto em lembrança aos mortos em ambos os lados, pedindo que seus espíritos se afastem ou fiquem quietos durante as conversações.

IMG_0764IMG_0784

Figura 5. Cerimônia de Pöwhiri  e Tangi (Photo: Ana Cris)

7. Whaikorero. Discursos de ambos os lados. Aqui o anfitrião mais velho dá boas-vindas aos visitantes, citando os seus ancentrais,  seu turangawaewae (seu lar, literalmente  “um lugar para ficar”, suas montanhas e  rios, sua linha de família (genealogia) e sua relação com o outro. Então há dois protocolos diferentes paeke (onde todos os anfitriões falam e depois os visitantes) e tauautuutu (onde anfitriões e visitantes falam alternadamente). Qualquer que seja o protocolo, os visitantes irão primeiro agradecer aos anfitriões e o representante do grupo irá se identificar formalmente, dizendo o seu nome, seu lar, suas montanhas e rios, genealogia e as razões para a  visita. É costume após o palestrante (e a corte de apoio)  cantar um waiata tradicional (música ou canto). Danças típicas também são realizadas.

After Sir Ian gave his speech all the actors playing dwarves stood up and sang one of the songs from The Hobbit, a particularly haunting baritone ballad called Misty Mountains.

IMG_0795

Figura 4. Performance de dança típica Maori,  troca de bastôes em um pöwhiri (Photo: Ana Cris)

8. Hongi.  Com as introduções formais completadas, os visitantes agora se movem para o contato físico com seus anfitriões. Um ritual de pressionar os narizes, hongi,  e trocar apertos de mãos, hariru, são realizados. No hongi, o sopro da vida  (respiração) é compartilhado e  as cabeças são pressionadas juntas, representando assim o compartilhamento de sentimento e pensamentos.

Hobbit-PreProduction29.jpgHobbit-PreProduction30.jpg

Figura 5. Elenco do The Hobbit, em uma cerimônia pöwhiri, realizam hongi (acima) e o hariru (abaixo) com seus anfitriôes Maori e equipe de produção.

9. Kai. Compartilhamento de alimento, os visitantes são servidos primeiro como uma marca de respeito e hospitalidade. O compartilhamento de alimento é o passo final na retirada do tapu, que é a remoção de todos os perigos espirituais e impedimentos a amizade e comunicação aberta.

10. Take. Momento em que as discussões dos propósitos são realizados seguido pelo Poroporaki, os discursos finais e despedida.

IMG_0748

Figura 6. Kai preparado em pedras quentes oferecido ao nosso grupo de visitantes.

IMG_0779Sendo gradual, o pöwhiri é necessariamente sequencial. Uma vez que cada nível de entendimento e intimidade é construído em entendimentos anteriores. A experiência  que é de fato criada no consciente ou no subconsciente depende da boa-vontade daqueles presentes. Mergulhar na cultura Maori é um convite a uma viagem a partir da ëscuridão, onde temos medo do novo e do desconhecido, para o mundo de te Ao Märama, o mundo da luz, onde reconhecemos no outro uma porção do nosso ser.

Figura 7. Carol aprendendo uma dança típica dos Maori numa cerimônia de pöwhiri.

See in Hobbit team today is Mrs. E.B. Darcy. Tomorrow/Saturday Antonia Romera takes up the baton. Then Sunday, it’s back to me to wrap us up. You can find more fanstRA fun today here: FanstRAvaganza 2012, FanstRA on Twitter and FanstRAvaganza on Facebook

Read Full Post »

fanstravaganza-banner-small12_579pxB

No início, Richard Armitage fez dezenas de fãs – e ele continua a fazê-los! Para começar a cadeia the fandom, Didion converte amigos para Armitage • Phylly3 relata sobre suas experiências no fandom • Na cadeia Hobbit, Ana Cris escreve sobre sua visita recente a locação do filme • Mrs. E. B. Darcy especula sobre o que o nosso herói vai fazer em An Unexpected Journey (spoilers!) • A cadeia King Richard Armitage  começa com Maria Grazia em uma adaptação cinematográfica de Richard III • A partir da cadeia fanfic, fedoralady explica o apelo popular da fanfic • Annie Lucas corteja-nos com Guy de Gisborne em  "One Chance" • Na cadeia freeform, Fabo  fala a partir de uma testemunha  ocular sobre a visita de Richard Armitage a uma escola de pronúcias nos  EUA • jazzbaby1  pergunta" o que eles estavam pensando?" re: mulheres Lucas Norte • ChrisB  abre o alfabeto Armitage, com "A é para a Ação" • Links para todos as mensagens de 3FanstRA aparecem aqui no final de cada dia.

—————————————————————————————————————————–

"Aquele que toma a realidade e faz dela um sonho é um artista.

Também será artista aquele que do sonho faz a realidade."

Malba Tahan

Você vive uma vida tecida com magia? A região de Waikato na Ilha do Norte é uma das áreas rurais mais ricas da Nova Zelândia. A paisagem é dominada por colinas e prados verdes, onde predomina a criação de cavalos-puro sangue. Nela localiza-se a cidade de Matamata, que em Maori significa "cabeceiras", e era o nome do pa de Te Waharoa, situado numa península próximo a um pântano que cobria uma grande área perto da cidade de Waharoa. Atualmente, Matamata é mais conhecida por abrigar em suas fazendas Hobbiton.

IMG_2207

Waikato, Nova Zelândia (Foto: Ana Cris)

Aventure-se ao sul de Matamata em Hinuera Road e logo se tornará evidente porque Peter Jackson,  o diretor da trilogia O Senhor do Aneis e The Hobbit, criou Hobbiton nessa região, há milhares de quilômetros de Sarehole e da Inglaterra rural de Tolkien; as inúmeras fileiras de arbustos (cercas-vivas) ou árvores espaçadas proporcionam vislumbres de piquetes e gramíneas baixas que são uma visão do Condado, a mais famosa vila do Hobbits (Brodie, 2002).

IMG_0122

Mas o que são Hobbits? Os Hobbits são um povo discreto mas muito antigo, mais numeroso outrora do que é hoje em dia. Amam a paz e a tranqüilidade e uma boa terra lavrada; uma região campestre bem organizada e bem cultivada era seu refúgio favorito. Todos os hobbits viviam originalmente em tocas no chão, ou assim acreditavam, e nesse tipo de moradia ainda se sentiam mais à vontade; mas com o passar do tempo foram obrigados a adotar outros tipos de habitação. Na verdade, no Condado da época de Bilbo, geralmente apenas os mais ricos e os mais pobres mantinham o antigo hábito. Os mais pobres foram viver em tocas do tipo mais primitivo,  meros buracos com apenas uma ou nenhuma janela, enquanto os abastados  construíam versões mais luxuosas das escavações simples de antigamente. Mas locais adequado para esses tipos de túneis grandes e ramificados (ou smials, como os chamavam) não se encontravam em qualquer lugar, e nas planícies e nos distritos baixos os Hobbits, conforme se multiplicavam, começaram a construir acima do solo (Tolkien, 2002).
IMG_0263

Hobbiton, Matamata, Nova Zelândia (Foto: Ana Cris)

O oficio da construção pode ter vindo dos Elfos ou dos Homens, mas os Hobbits o usavam a sua própria maneira. Não gostavam de torres. Suas casas eram geralmente compridas, baixas e confortáveis. Uma preferência por janelas e mesmo por portas redondas era a peculiaridade mais importante da arquitetura hobbit. As casas e tocas dos Hobbits do Condado eram sempre grandes, e habitadas por grandes famílias (Tolkien, 2002).

  IMG_0228IMG_0209

IMG_0200

IMG_0916

Hobbit-arquitetura, Hobbiton, Matamata, Nova Zelândia (Foto: Ana Cris)

Eu concordo com Andy Serkis: quando você está em Hobbiton você acredita que esse local realmente existe e ele faz isso por si mesmo. Você pode se imaginar como um Hobbit, tendo o seu terceiro lanche, sem se preocupar com a circunferência do seu abdomen. É com se o tempo não existisse e o mundo real  fosse uma mera lembrança. É como estar dentro de uma pintura de Monet. Tudo é tão calmo e plácido, que em segundos a sua mente torna-se tranquila e quieta. Você pode ver Gandalf em sua charrete descendo as colinas ao encontro de Frodo. E ter a visão que Bilbo teve ao deixar a sua casa, para se aventurar com Thorin e companhia em busca do tesouro de Erebor.

IMG_0987

Árvore da Festa, Hobbiton, Matamata, Nova Zelândia(Foto: Ana Cris)

Mas acima disso, estar em Hobbiton é estar em contato direto com a fantasia.  Em sua famosa palestra sobre conto de fadas, Tolkien descreve as três funções da fantasia: Recuperação, Fuga  e Consolação. O mundo da fantasia pode nos conduzir para longe das coisas que  conhecemos tão bem, pode nos fazer repensar a nossa verdadeira vocação. Pode ajudar-nos a recuperar a apreciação do simples no mundo real,  a “fugir do” para encontrar aquilo para o qual fomos criados. Fantasia pode nos ajudar a escapar da limitações do espaço e do tempo, lembrando-nos que fomos feitos para outros mundos. E por fim,  pode nos conduzir a um sentimento de alegria que nos ajuda a enfrentar as adversidades da vida.

IMG_0162

Pub, estábulo, ponte and mercado, Hobbiton, Matamata, Nova Zelândia (Foto: Ana Cris)

Assim o sentimento de estar em Hobbiton foi como se eu estivesse tecendo a minha vida  com magia. O que é magia? No seu mais básico, a magia é a aplicação da intenção de criar uma mudança no mundo (Moore, 2008).  Para Tolkien, magia é encantamento, que em seu estado mais puro pode ser definido como arte. A arte de tornar real o imaginado. Se é tão simples, se posso acreditar que Hobbiton existe, mesmo que por algumas horas, então posso tecer a minha vida  com magia,  transformando sonhos em realidade. E assim encantar-me novamente pelo mundo.  Criar a realidade com arte, tecer o próprio destino, soa como uma maneira mais agradável de experimentar a vida, não?

—————————————————————————————————–

final_216x299BNo início, Richard Armitage fez dezenas de fãs – e ele continua a fazê-los! Para começar a cadeia the fandom, Didion converte amigos para Armitage • Phylly3 relata sobre suas experiências no fandom • Na cadeia Hobbit, Ana Cris escreve sobre sua visita recente a locação do filme • Mrs. E. B. Darcy especula sobre o que o nosso herói vai fazer em An Unexpected Journey (spoilers!) • A cadeia King Richard Armitage começa com Maria Grazia em uma adaptação cinematográfica de Richard III • A partir da cadeia fanfic, fedoralady explica o apelo popular da fanfic • Annie Lucas corteja-nos com Guy de Gisborne em "One Chance" • Na cadeia freeform, Fabo fala a partir de uma testemunha ocular sobre a visita de Richard Armitage a uma escola de pronúcias nos EUA • jazzbaby1 pergunta" o que eles estavam pensando?" re: mulheres Lucas Norte • ChrisB abre o alfabeto Armitage, com "A é para a Ação" • Links para todos as mensagens de 3FanstRA aparecem aqui no final de cada dia.

 

Referências Bibliográficas

Brodie, I. 2002. The Lord of the Rings. Location Guidebook. HarperCollins Publishers, Auckland, New Zealand.

Tolkien, J. R. R. 2002. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Editora Martins,  Fontes, São Paulo.

Informações sobre Hobbiton:

Hobbiton Movie Set & Farm tours

Read Full Post »

Viagens vistas como iniciação, ou seja, viagens feitas com a mente e o coração realmente abertos para permitir-se experimentar o que for que acontecer, podem ser altamente transformadoras. O de fora, o novo, o inusitado, o estrangeiro podem nos impactar e despertar dentro da gente esse mesmo novo e inusitado, aquilo que é nosso, mas até aquele momento nos foi estrangeiro. E, se a gente se colocar na posição de peregrino na vida, a viagem transformadora, pode ser tanto para o outro lado do mundo como em volta do quarteirão da nossa casa!

Cristina Balieiro

O Feminino e o Sagrado

IMG_2044

Há uma canção de Iggy Pop e Ricky Gardiner, The Passenger, regravada por Siouxie and Banshees, que junto com o texto de Cristina Balieiro, traduzem o sentimento que tenho sobre a minha viagem à Nova Zelândia. E faço minhas as palavras do ator Richard Armitage sobre a sua experiência nesse país: Os lugares que nós fomos e as coisas que nós vimos superou todas as nossas expectativas (Armitage, R. 2011).

Luís Pellegrini argumenta que se deve estimular a viagem no mundo exterior pelo simples fato de que, pelo menos nas etapas iniciais dos processos de iniciação, é muito mais fácil ver, experimentar e compreender no mundo objetivo de fora aquilo que na realidade acontece no mundo subjetivo de dentro. Isso é verdadeiro para mim. Foram nas viagens que fiz ao México, Peru e Chile, em momentos diferentes, onde inicialmente contemplei as minhas sombras ou tive insights sobre um novo caminho para a minha vida, iniciando assim processos de transformação interior que continuam até hoje. Interessante notar que nenhumas delas tinham tal objetivo. Longe disso, todas visavam exclusivamente o turismo. Em comum os países escolhidos como destino detinham paisagens de grande beleza cênica com uma diversidade biológica e cultural que os tornam únicos no mundo. A Nova Zelândia não foi uma exceção.

IMG_2900

Diferentes religiões nos ensinam que Deus está em todos os lugares, mas eu acredito que há lugares que nos chamam a uma reflexão mais profunda e propiciam uma maior conexão com o Divino. Há lugares que sensibilizam a alma, abrindo os canais de comunicação e desarmando as nossas defesas, facilitando assim a comunhão com o Grande Espírito. Para mim esses lugares sempre foram às florestas, os mares, os rios, os desertos. O importante é sentir. E eu sinto a presença de Deus quando encontro um animal selvagem, quando  ando na floresta ou quando contemplo uma montanha. Não há medo, não há solidão, não há aflição, pois Deus está realmente em tudo, inclusive dentro de mim. IMG_0859

No entanto, algo diferente aconteceu durante a  viagem a Nova Zelândia. Algo inteiramente novo para mim durante uma viagem iniciática. Talvez seja resultado da beleza sem igual das paisagens da Nova Zelândia, do contraste de suas cores, que vão do azul turquesa dos rios e mares, o verde dos campos, pincelados com tons de vermelhos, laranjas e amarelos de suas flores até o cinza e branco das montanhas, que despertam o encantamento na alma de qualquer visitante. Talvez seja reflexo do meu mundo interno, do ponto que estou na minha jornada. Mas o fato é que poucas vezes eu senti uma gratidão tão profunda e sincera pela vida, quanto a que senti durante toda a  viagem pela Aotearoa, que em Maori significa Terra da Grande Nuvem Branca. Uma gratidão à Deus, pela minha vida, por todos aqueles que cruzaram o meu caminho, por todas as coisas que me trouxeram até aqui e que me levarão mais adiante. Uma consciência profunda que toda essa beleza,  toda essa grandiosidade foi criada para mim, para você, para nós. Então, vamos cantar The Passenger, na voz de Siouxie e desfrutar do que é nosso:

Nota de Agradecimentos:

A todos aqueles que torceram, rezaram, mandaram pensamentos positivos para que a nossa viagem a Aotearoa fosse um sucesso meus sinceros agradecimentos. À minha irmã Cacau um agradecimento especial por ter confiado a mim e me presenteado com a companhia, durante a viagem, da sua filhota Carol. A minha mãe por tudo sempre. A Carol, a melhor companheira de viagem que alguém poderia desejar! A Camille por toda a aventura e companhia em Hobbiton e Auckland. A Rosangêla, da Nascimento Turismo, por todo o seu auxílio e atenção cuidadosa durante a fase de definição do roteiro e planejamento da viagem. Aos guias na Nova Zelândia, Mani e Margot, da Pacific Destinationz, que  sempre foram atenciosos e extremamente zelosos em cuidar das duas ovelhas desgarradas do grupo, atrás de mais uma foto ou simplesmente perdidas em contemplação. Em especial, a Margot pelos seus esforços em viabilizar todos os passeios extras que nos desejávamos, e não foram poucos, com extremo zelo e eficiência. Aos inúmeros amigos que fizemos na viagem, obrigada pela sua amizade, em especial ao casal argentino Graci e Dario. E por último, não menos importante, meus agradecimentos a Richard Armitage (The Hobbit) e Peter Jackson (Senhor dos Anéis e The Hobbit), que me trouxeram a inspiração para conhecer à Terra-Média.

Video2-RA04.jpg

Read Full Post »

Numa toca do chão vivia um hobbit. O que é um hobbit? Imagino que os hobbits requeiram alguma descrição hoje em dia, uma vez que se tornaram raros e esquivos diante das Pessoas Grandes, como eles nos chamam. Eles são (ou eram) um povo pequeno, com cerca de metade da altura e menores que os anões barbados.

Assim começa o livro The Hobbit de J.R.R. Tolkien, que encantou gerações apresentando um tipo de gente pequena, com tendência a serem gordos no abdômen, sem nenhum poder mágico, discretos, que preferem a calma da vida rotineira a uma grande aventura. Alegres, de humor leve e almas simples, os hobbits nunca prenderam a minha mente, ávida por anti-heróis sombrios, e intensos  no seu caminho rumo à redenção. Um dia conversando com Fabi sobre nossos personagens preferidos em O Senhor dos Anéis ressaltei essa falta de identificação emocional com os hobbits. Fabi com seus olhos de lince saiu em defesa dos pequeninos ressaltando a sua coragem frente aos maiores perigos. Desde então, meus olhos buscaram uma nova perspectiva sobre esses personagens e uma maior empatia. Onde está o meu lado hobbit?

Definitivamente um capricorniano nunca será uma pessoa de humor leve e alma alegre. Há uma montanha a subir até o topo, obstáculos a vencer e seu humor será sempre em tons mais ácidos. Todo capricorniano é persistente, leal aos seus amigos, obstinado, astuto e resistente. Ops, como um hobbit? Não, não um hobbit qualquer, mas sim um filho de Túk, pois há algo de não hobbitesco neles, e de vez em quando, algum membro do clã Túk sai em busca de aventuras. Desaparece discretamente, e a família silencia sobre o assunto, mas permanece o fato que os Túks não são tão respeitáveis como os Bolseiros. Foi assim com Bilbo Bolseiro, filho de Beladona Túk, que numa manhã distante, abandonou o Condado por um longo tempo, depois de uma misteriosa visita de Gandalf, e sai na companhia de Thorin Escudo de Carvalho e um grupo de mais doze anões em busca de um tesouro saqueado por Smaug. Gandalf! Se vocês tivessem ouvido apenas um quarto do que eu já ouvi a respeito dele, e eu ouvi só um pouco de tudo o que existe para ouvir, estariam preparados para qualquer tipo de história surpreendente.

17-05-2006_03 001Ah, aí está o meu lado hobbit, ou melhor, dizendo, o meu lado Bilbo Bolseiro. Como Bilbo eu vivo numa toca firmemente presa ao chão. Embora o meu Condado não seja nem tão silencioso nem tão cheio de verde, há uma tranquilidade atípica nas grandes cidades, quando você adentra os seus limites. Há pássaros, há um belo jardim e inúmeros Ipês-rosa, que florescem no inverno dando um colorido romântico a toda a área externa. Os dias passam e a lua e o sol se reversam no céu infinito. E como um Bolseiro, eu me sinto feliz e satisfeita na maioria dos dias, esperando a oportunidade para uma grande aventura. Para mim essa oportunidade surgiu numa manhã distante quando o meu orientador me perguntou se eu não queria assumir um projeto de pesquisa no Pantanal sul-mato-grossense por quatro anos, com uma bolsa de doutorado. Claro que sim! Joguei tudo para o alto, emprego, namorado e fui viver “no meio da floresta convivendo apenas com os bichos”. Como Bilbo, eu nunca mais fui a mesma.

E também jamais recuperei a minha reputação de “gente respeitável”, tendo fama de ter uma alma aventureira. Eu sorrio quando ouço a voz da minha mãe ao telefone com suas amigas: “Ah, a Ana Cris nunca me deu trabalho quando era pequena, mas agora não sossega só quer saber de bicho, você não sabe a última…”. E lá se vão horas intermináveis com um relatório detalhado de minha última aventura, complementado com algo suscinto sobre o que eu ainda não fiz: um casamento e a encomenda dos netos! Graças à Deus, os meus irmãos foram generosos com meus pais, e lhe deram quatro lindos netos. O sorriso em meu rosto se desnuvia quando eu penso que as histórias de minha mãe estão ficando velhas assim como eu. Qualquer dia já não me lembrarei dos dias de grande aventura, do sol em meu rosto, do cheiro de um bicho, da não existência do tempo. Eu estou de volta nesse Condado há cerca de dois anos e na maioria do tempo eu sou feliz com que a vida me oferece. Mas, algum tempo atrás eu sonhei com Gandalf! Então alguma coisa dos Túk despertou no meu intimo, e eu desejei ir ver as grandes montanhas, ouvir os pinheiros e as cachoeiras, explorar as cavernas e usar uma espada ao invés de uma bengala. Ops, nem tanto, eu não uso espada nem bengala. Apenas tênis, um bom jeans, camiseta, dinheiro ou cartão de crédito.

Até o fim de seus dias Bilbo nunca pôde lembrar como se viu fora de casa, sem chapéu, bengala ou qualquer dinheiro, e sem nada do que geralmente levava quando saía, sem terminar o desjejum e muito menos lavar a louça, entregando as chaves de casa nas mãos de Gandalf e correndo o máximo que seus pés peludos conseguiam.

Mas, eu, Rosie-Posie Proudfoot de Standelf, uma hobbit, conhecida como Ana Cris, na companhia de sua sobrinha, a meiga e linda Honeysuckle Tighfield de Tookbank, jamais esquecerei o dia que partirei para a Terra-Média, com apenas um objetivo: refazer o caminho de Bilbo Bolseiro. Deixarei as chaves de casa com minha mãe, lhe darei um grande beijo me desculpando por deixar o quarto em uma enorme bagunça, recomendarei aos meus cães que se comportem e sairei para uma nova aventura. Irei a todos os lugares que meus pés conseguirem e meus olhos alcançarem. Ah, esqueci-me, não seria ruim encontrar lá certo anão e sua companhia. Afinal uma garota pode sonhar!

Até a volta!

HobbitTrailer20.jpg

Queridos amigos,

Estou indo para as minhas tão sonhadas férias na Nova Zelândia, do dia 4 a 22 de fevereiro. Tanto quanto seja possível eu enviarei notícias para vocês. Eu não posso transmitir a felicidade de estar realizando esse sonho, acalentado desde que assistir ao filme O Senhor dos Anéis, de conhecer esse lugar mágico e fabuloso. Uma benção adicional será poder fazê-lo na companhia da minha sobrinha Carol, que é para mim como uma filha. Por favor, nos mantenham em suas orações e bons desejos para que tudo ocorra bem e que possamos voltar em segurança e felicidade plena.

Cuidem-se!

Read Full Post »

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.