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As Montanhas Sagradas, As Montanhas Sombrias – Parte I

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Great Smorky Mountains são um santuário para o povo Cherokee. Nós acreditamos que as montanhas, as florestas e os riachos irão fornecer tudo o que precisamos para a sobrevivência. Consideramos estas montanhas sagradas, acreditando que os Cherokees foram escolhidos para cuidar das montanhas como as montanhas cuidam de nós.

Palavras do chefe Cherokee Jerry Wolfe

A indústria do cinema neozelandesa cresceu apoiada em uma das características mais notáveis do país: as paisagens montanhosas de Aotearoa; 60% da Ilha Sul e 20% da Ilha Norte é classificada como montanha. Cineastas do mundo todo captam, em suas lentes, cenários únicos e deslumbrantes, que recriam desde o mundo antigo do Japão do século 19 (O Último Samurai, 2004) até a Terra-Média de Tolkien (Senhor dos Anéis, 2001-2003 e The Hobbit, 2012-2013).

No entanto, plateias do mundo inteiro nem sempre compreendem o significado das montanhas para a população indígena local e a importância de sua visão de mundo para a conservação dos recursos naturais do planeta, bem como os impactos adversos que produções de tais magnitudes podem ocasionar em paisagens naturais.

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The Misty Mountains (The Southern Alps, New Zealand)

Cosmologia Maori explica o começo do mundo como Te Kore, o reino do caos ou o nada, em que habitava Io, o deus supremo, de cuja iho (essência) os vazios posteriores foram concebidos. A partir de Te Kore surgiu Te Po (o reino da noite, da escuridão) donde vieram Ranginui, o Pai do Céu e Papatuanuku, a Mãe-Terra, os pais primordiais de tudo o que existe no mundo que vivemos hoje, Te Ao Marama (o reino da plena luz do dia) (Ruru, 2004).

Assim, a compreensão Maori do mundo coloca importância central sobre whakappa (genealogia) e a personificação do mundo natural. Como muitos outros povos indígenas, Maori veem o mundo como um inteiro unificado onde todos os elementos (plantas, animais, rios e rochas) são genealogicamente conectados. Isso contribuiu para o desenvolvimento e a prática de uma ética ambiental única que mantém muitas das montanhas da Nova Zelândia como paisagens naturais sagradas.

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Mt Ruapehu, New Zealand (Photo: dannyandellen)

Para os Maoris, as montanhas são tapu (sagrado) e têm mauri (a força da vida), porque eles são tupuna, seus antepassados. A ética Maori dita que o tapu e mauri das montanhas devem ser respeitados. E que os seres humanos são kaitiaki (responsáveis) pelo meio ambiente. Ser um kaitiaki significa cuidar do seu próprio sangue e ossos, literalmente (Ruru, 2004). Igualmente na cosmologia andina o Apu (montanha) é um ser vivente. São eles que guardam as sabedorias ancestrais em suas pedras, pois é lá que os espíritos ancestrais vivem. Os povos andinos acreditam que o Apu tem vitalidade, e às vezes se disfarçam, adquirindo um aspecto humano. Todo Apu tem ciúme do seu próprio corpo e se preocupam com o maltrato que podem receber dos seres humanos, por isso aqueles que querem tocar seu corpo necessitam purificar-se e pedir permissão a sua essência espiritual, com um ritual a Pachamama, a Mãe-Terra, onde são oferecidos folhas de coca, flores e cantos tradicionais (Frota, 2008).

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Apu (Montanha sagrada), Cordilheira dos Andes, Bolívia (Foto: Monique Pinheiro)

Eric Vesper no seu post Quint on the set of The Hobbit Part 6 – Good Morning, Koro, relata uma cerimônia powhiri realizada com intenção semelhante, pelo qual participaram a iwi (tribos) anfitriãs, Ngati Uenuku e Ngati Rangi e a equipe de produção e elenco do The Hobbit, para a realização das filmagens no Mt Ruapehu. Além disso, um representante dos Maoris, Turama Hawira, permaneceu ao lado da equipe durante as filmagens "para proteger a montanha de você e você da montanha”.

No entanto, Peter Jackson não foi autorizado pelo iwi Ngati Tuwharetoa a filmar numa nova área do Mt Ngauruhoe, gerando algumas críticas dos fãs da trilogia. As encostas da montanha já tinham servido como locação para a Montanha da Perdição na trilogia  "Senhor dos Anéis", mas uma nova área vinha sendo cogitada como possível locação para a Montanha Solitária. (O pico da Montanha da Perdição foi criado digitalmente com imagens de montanhas do Hawai, pois ambos os picos do Mt Ruapehu e Mt Ngauruhoe são considerados sagrados).

photo of Mt Ngauruhoe Central North Island

Mt Ngauruhoe, New Zealand (Photo: Rolf Hicker)

Mt Ngauruhoe é um vulcão ativo, feito de camadas de lava e tephra. É a abertura mais jovem do complexo vulcânico de Tongariro, no Planalto Central da Ilha do Norte, território do iwi Ngati Tuwharetoa. Embora visto pela maioria como um vulcão em seu próprio direito  é tecnicamente um cone secundário do Monte Tongariro.

Mt Tongariro é descrito em antigos contos tribais como uma grande força em um universo onde tudo é vivo, ele é "considerado o mais sagrado dos seus antepassados, sendo portanto, tratado com respeito e humildade, bem como com reverência” (Ruru, 2004). Em 1887, o chefe supremo do iwi Ngati Tuwharetoa, representado o povo Maori, decidiu que a melhor maneira de garantir que os pico sagrado não fosse "retalhado” e vendido peça por peça pelos pakeha (i.e. pessoas de origem britânica) seria doá-lo para a Coroa com a finalidade específica de criar o primeiro parque nacional da Nova Zelândia "para o uso de ambos os nativos e os europeus" (Ruru, 2004).

Ver em Tongariro National Park, central North Island, Nova Zelândia

Tongariro National Park, New Zealand

O Mt Ruapehu, junto com o Mt Ngauruhoe e o Mt Tongariro formam o Parque Nacional de Tongoriro, o quarto Parque Nacional criado no mundo e reconhecido pela Unesco como um dos 28 Sítios do Patrimônio Mundial, devido a sua alta relevância cultural e biológica. O Parque Nacional de Tongariro é um ambiente sensível e instável. Ao norte do Parque há uma floresta tropical latifoliada, com inúmeras espécies endêmicas (só ocorrem naquela região). Existem 56 espécies importantes de aves, entre elas o Kiwi, a ave símbolo da Nova Zelândia. Acima de 2200 metros vivem apenas líquens incrustantes.

Liquens na encosta do Mt Ruapehu, New Zealand (Photo: Eric Vesper)

Em 1987, a Nova Zelândia comemorou com orgulho o 100 anos do primeiro parque nacional no mundo ocidental a ser criado em cooperação com os povos indígenas. No entanto, cada vez mais a comunidade científica tem reconhecido que preceitos de conservação aplicados em paisagens consideradas sagradas são amplamente difundidos em sociedade tradicionais do mundo todo (Smith & Wishnie, 2000; Negi, 2010). Entre eles destaca-se: (1) Restrições ao uso de espécies sensíveis ou recursos essenciais à vida, (2) proteção de espécies consideradas sagradas; (3) eliminação de pragas ou evitação de introdução de espécies exóticas, (4) evitação de superexploração por regulação do início, quantidade de coletores e duração das colheitas; (5) rodízio de uso de manchas de habitat para evitar o esgotamento dos recursos e (6) minimização do risco de modificação adversa de habitat. Este conservacionismo indígena é frequentemente atribuído ao respeito espiritual pelo mundo natural e a um entendimento prático das leis que rege o meio ambiente (Negi, 2010).

Igualmente, medidas para minimizar o impacto ambiental nas locações tem sido recomendadas pelo Departamento de Conservação da Nova Zelândia e prontamente atendidas pela equipe de produção de Peter Jackson. Dessa maneira, plateias do mundo inteiro irão se encantar mais uma vez com cenários deslumbrantes, bem como com a conservação da diversidade cultural e ambiental das paisagens da Nova Zelândia.

Richard Armitage como Thorin, Escudo de Carvalho fotografando Mt Aoraki/Mt Cook

As Montanhas Sagradas, As Montanhas Sombrias – Parte I

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Referências Bibliográficas

Frota, W. 2008. Caminhando com os ventos. Editora Livro Rápido. Élogica. Maceio, Brasil.

Negi, C. S. 2010. Traditional Culture and Biodiversity Conservation: Examples From Uttarakhand, Central Himalaya. Mountain Research and Development 30(3): 259-265.

Smith, E. A. and M. Wishnie. 2000. Conservation and subsistence in small-scale societies. Annual Review of Anthropology 29:493–524.

Ruru. J. 2004. Indigenus peoples’s Ownership and Management Of Mountains: The Aotearoa/ New Zealand Experience. Indigenous Law Jornal, Volume 3, Fall 2004.

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As Montanhas Sombrias, As Montanhas Sagradas – Parte II

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Contam os anciões que Aoraki,  filho de Ranginui,  o Pai do Céu,  saiu a navegar  com seus três irmãos ao redor de Papatuanuku, a Mãe-Terra, que jazia como um só corpo em um continente enorme, conhecido como Hawaiiki. Um dia, um desatre aconteceu e sua waka (canoa)  encalhou em um recife, Aoraki e seus irmãos subiram para a parte alta da waka para tentar retornar ao seu lar celestial. No entanto,  foram surpreendidos  pelo vento sul,  que os congelou, transformando-os em pedra. Eles ainda estão lá. Aoraki é a montanha conhecida como Mount Cook e seus irmãos são os maiores picos próximos dele  (Alpes do Sul),  Te Waka é a Ilha Sul (Runa, 2004).

Mt-Cook

Aoraki and Lake Tapeko, New Zealand

A história do surgimento do  Aoraki ilustra a visão amplamente difundida, em populações indígenas,  de montanhas como símbolo de identidade cultural  e até mesmo de identidade pessoal. O modo  para identificar a si próprio em um encontro intratribal Maori começa com o nome de uma montanha da tribo, em seguida vem o nome de um lago ou rio, e finalmente o nome de um chefe da tribo (Ruru, 2004).

Ko Aoraki te mauka teitei (Aoraki é a montanha sublime), Ko Waitaki te awa (Waitaki é o rio), Ko Te Waipounamu te whenua (A Ilha Sul é a terra), Ko te Rapuwai, Ko Waitaha, Ko Kati Mamoe, Me Kai Tahu te iwi (Estas são as tribos que formam a familia Ngai Tahu).

Assim para os Maoris, as montanhas são tapu (sagrado) e têm mauri (a força da vida), porque eles são tupuna, o seus  antepassados. Igualmente na mitologia andina o Apu (montanha) é um ser vivente. É um filho direto de Pachamama, a Mãe-Terra. São eles que guardam as sabedorias ancestrais em suas pedras, pois é lá que os espíritos ancestrais vivem (Frota, 2008).

Machu Pichu, Peru

A associação de montanhas com os valores mais profundos e as aspirações mais altas em diferentes culturas e tradições é tão comum na experiência humana (Bernbaum, 2006), que podem ser descrita como um atributo universal da cultura. No Himalaia, o Monte Kailas é um centro de perigrinações para budistas, que o consideram o centro do universo e para os hindus, que acreditam ser este a morada de Shiva. O Monte Sinai ocupa um lugar especial na Bíblia como o local onde Moisés recebeu os Dez Mandamentos, a base da lei e da ética na civilização ocidental. Já o Monte Fuji representa a busca da beleza e simplicidade que está no coração da cultura japonesa. Mesmo no mundo moderno e secular, o Monte Everest é um símbolo inspirador para a realização de um ideal superior, seja espiritual ou não (Bernbaum, 2006).

                   Mount Kailas, Tibet                                       Mount Sinai, Egypt

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1300159281_mount-kailashMount Fuji

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Mount Fuji ,Japan                                                       Mount Everest, Nepal

Como os Maori, os povos da Terra-Média, criados por J. R. R. Tolkien, tem uma forte identidade cultural, moldada por uma experiência compartilhada da comunidade, cujo senso de história está entrelaçada no tempo e no espaço com um sentido de lugar (Sabo, 2007).  De acordo com Sabo (2007), Tolkien cuidadosamente imprimiu sua mitologia  sobre a paisagem da Terra-Média, e trabalhou em sua narrativa expressões  de tempo-profundidade e um senso de história, transmitidas não apenas em palavras, mas na própria paisagem.

Segundo Flieger (2006), uma paisagem que traz elementos tangíveis do passado pode funcionar como um repositório da memória cultural. Estas memórias  contextualizam, os acontecimentos presentes da  história   e revelam através de detalhes do clima, da vegetação e do relevo, as motivações, as reações e os pensamentos dos personagens. Assim, Tolkien criou não apenas uma geografia, mas também uma paisagem cultural para a Terra-Média (Sabo, 2007). Os leitores se identificam com seus personagens, porque possuem lugares da mesma forma definidos em seu cenário cultural.

Southern Alps

The Misty Mountains (The Southern Alps)

Havia muitas trilhas que conduziam àquelas montanhas, e muitas passagens que as atravessavam. Mas a maior parte das trilhas era engano e decepção, e não levavam a lugar nenhum. Era um trilha difícil, uma trilha perigosa, um caminho tortuoso, solitário e comprido.  A oeste, muito longe, Bilbo sabia que estava a sua terra de coisas seguras e confortáveis, e a pequena toca de hobbit (Tolkien, 2011).

Assim, Tolkien claramente foi sensível ao fato que a vida de um povo, assim como de um  indivíduo, suas crenças e todos os eventos que vão fazer sua história, estão intimamente ligados com o lugar (Sabo, 2007). Neste contexto, o significado de  Erebor, a Montanha Solitária, para Thorin, Escudo de Carvalho é imediato. Ela representa sua herança, sua pátria e sua identidade. Ela é tapu (sagrado) para os Anôes e tem mauri (força de vida), representada pela Pedra de Arkenstone, o coração da Montanha.

Contam os antigos que Aulë, ansioso pela vinda dos Filhos de Ilúvatar,  criou os Anões na escuridão da Terra-Média. Ora, Ilúvatar soube o que estava sendo feito e repreendendo-o por sua ousadia.  Arrependido, Aulë pegou um martelo para destruir a sua criação,  mas nesse momento Ilúvatar deu vida própria aos Anões e ordenou que  Aulë  os colocassem para dormir  na escuridão debaixo da pedra até os Primogênitos surgirem na Terra.  Então Aulë colocou os Sete Pais dos Anôes em sono profundo e os levou para locais bem afastados (Tolkien, 2009).  Durin, o Imortal,  foi deixado sob o Monte Gundabad nas Montanhas Sombrias durante os Anos das Árvores. Quando ele acordou, ele viajou para o sul até se deparar com Kheled-zâram, onde fundou a cidade de Khazad-dûm, mais tarde chamada Moria. O Monte Gundabad permaneceu como um local sagrado para os Anões e um lugar de encontro com os outros Pais dos Anões. Durin foi o fundador da casa dos Barbas-longas, que ficou conhecida como Povo de Durin, da qual descende Thorin, Escudo de Carvalho, que restabeleceu o  Reino sob a Montanha (Tolkien, 2001).

As Montanhas Sombrias, As Montanhas Sagradas – Parte II

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Referências Bibliográficas

Bernbaum, E. 2006. Sacred Mountains: Themes and Teachings. Mountain Research and Development Vol 26 No 4: 304–309.

Flieger, V. 2006. Deep Wells of Memory: Collective Past in Middle-earth. Tolkien 2006 Conference. U of Vermont, Burlington. 8 Apr.

Frota, W. 2008. Caminhando com os ventos. Editora Livro Rápido. Élogica. Maceio, Brasil.

Ruru. J. 2004. Indigenus peoples’s Ownership and Management Of Mountains: The Aotearoa/ New Zealand Experience. Indigenous Law Jornal,  Volume 3, Fall 2004.

Sabo, D. 2007. Archaeology and the sense of history in J.R.R. Tolkien’s Middle-earth . An article from: Mythlore.

Tolkien, J. R. R. 2001. O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei. Título original The Lord of the Rings: The Return of the King. Editora WMF Martins Fontes, São Paulo, Brasil.

Tolkien, J. R. R. 2009. O Silmarillion. Título original The Silmarillion. Editora WMF Martins Fontes, São Paulo, Brasil.

Tolkien, J. R. R. 2011. O Hobbit. Título original The Hobbit. Editora WMF Martins Fontes, São Paulo, Brasil.

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