Bem-vindo, meu filho, bem-vindo à máquina.
Onde esteve? Tudo bem, nós sabemos onde você esteve.
O que sonhou? Tudo bem, nós diremos com o que você deve sonhar.
Pink Floyd- Welcome to The Machine

BASEADO NO LIVRO DE P. K. DICK
Ela permaneceu ali durante algum tempo, olhando-o para ter certeza de que ele não acordaria, não se sentaria, de medo, como às vezes fazia durante a noite. Em seguida, voltou à cozinha se sentou mais uma vez à mesa. Os andróides sonham com carneiros elétricos? O título do livro que ele estava lendo, ficou em sua mente. Gostaria tanto de ter um animal de estimação, um outro ser vivo ao qual pudesse se ligar. Afinal é isso que nos difere dos andróides: a capacidade de sentir empatia. Mas será essa diferença tão importante?
Em seguida, ouviu a porta do apartamento bater. E pensou aonde teria ido Lucas. Ele pode estar de volta logo mas, por outro lado, pode não estar, disse a si mesma, e sentiu os ossos dentro do corpo se encolherem de velhice. Em silêncio, Lucas desceu o elevador acompanhado por seu vizinho. Nada tinha a dizer a ele, a mente inteiramente concentrada no trabalho que tinha à sua frente.
— Encontre-me às nove e trinta no gabinete de Dave Holden, tinha dito Harry Pearce minutos atrás. — O que foi que aconteceu? — perguntou Lucas, com um calafrio. — Dave Holden quer que a unidade cerebral Nexus-6 seja retirada do mercado.
Não se sentia surpreso. Desde que foram anunciados os relatórios de desempenho em
agosto de 1991, a maioria das forças policiais vinha tendo problemas com andróides rebeldes, que desejavam liberdade a qualquer custo. O Nexus-6 possuía dois trilhões de constituintes, além de uma capacidade de escolha na faixa de dez milhões de possíveis combinações de atividade cerebral. Em 4,5 décimos de segundo um andróide equipado com essa estrutura cerebral podia assumir qualquer uma das quatorze reações comportamentais básicas.
O Nexus-6, refletiu Lucas, superava todas as classes de humanos em termos de inteligência. No entanto, um andróide, por mais dotado que fosse de capacidade intelectual, não podia sentir empatia. Empatia, evidentemente, existia apenas na comunidade humana, ao passo que inteligência em algum grau podia ser encontrada em todos os filos e ordens, incluindo os aracnídeos.
— Por quê? — perguntou Lucas. — Por que devo matá-los?
Harry respondeu:
— Você será solicitado a fazer o mal onde quer que vá. Esta é a condição básica da vida, ser obrigado a violar sua própria identidade. Em alguma ocasião, todos têm que fazer isso se querem continuar no sistema. É a sombra final, a maldição que alimenta o sistema.
— Isso é tudo o que você tem a me dizer? — perguntou Lucas.
— Vá, Lucas, e faça o seu trabalho, mesmo sabendo que é errado.—respondeu Harry.
Lucas leu o arquivo sobre Danielle Ortiz, uma unidade Nexus-6 especialista em segurança de sistemas, uma ex-hacker. Dirigiu-se para uma casa em ruínas, no centro da cidade. Um único aparelho de TV anunciava os seus produtos à sala vazia. Entrou. No outro cômodo, viu uma moça sentada na cama, um computador sobre os joelhos. Usava uma roupa colorida que constrastava com o cinza do lugar.
— Quem é você? — disse ela, erguendo os olhos. A maquiagem alargava-lhe os olhos, enormes e amendoados, que se fixaram nele e não se desviaram. O tom dela mantinha fria reserva, aquele frio que ele encontrara em tantos andróides.
— MI-5, por favor queira acompanhar-me— respondeu.
— O senhor pensa que eu sou andróide? É isso? — Sua voz caíra quase até o ponto de extinção. — Eu não sou andróide. Nem nunca vi um! Seus cílios alongados tremeram involuntariamente e ele notou que ela tentava manter uma aparência calma.
— O senhor tem informação de que há um andróide nessa rua? Eu teria prazer em ajudá-lo. Se eu fosse um andróide, teria esse prazer?
—Um andróide — observou ele — não se importa com o que acontece com qualquer outro andróide. Esta é uma das indicações que procuramos.
— Neste caso — disse a Srta. Ortiz — o senhor tem que ser um andróide. — Essas palavras deixaram-no surpreso. Olhou-a fixamente. — Porque — continuou ela — seu trabalho é matá-los, não? O senhor é o que chamam de… Fez um esforço para se lembrar.
—Spook —respondeu Lucas. — Mas eu não sou um andróide.
— Como você pode saber se você é um andróide ou não? O que distingue um humano de um andróide?
Um andróide fisicamente igual, com igual capacidade de processamento do cérebro humano, teria
também a nossa capacidade de pensar, sentir e reagir? Sentiria um andróide a necessidade de ser amado? Se sim, então os andróides são seres vivos? O que é estar vivo? Se o Andróide tem consciência de que irá morrer como tem consciência que existe; isso não será o suficiente para ele ser considerado vivo? Mas isto não importa. As coisas elétricas também têm suas vidas. Insignificantes como essas vidas são, pensou Lucas North.
— Sou capaz de sentir empatia por, pelo menos, certos andróides. Não por todos eles, mas… por um ou dois. Como por Danielle Ortiz, pensou consigo mesmo. Ela era realmente notável. Não entendo isto: como um talento como aquele podia ser um passivo para a sociedade?
Escoltou-a em direção ao carro, Danielle não o acompanhou de bom grado, mas; por outro lado, não resistiu ativamente. Aparentemente se resignara com seu destino. Lucas vira isso antes em andróides, em situações cruciais a força de vida artificial que os animava como que falhava, se pressionada demais, pelo menos em alguns deles. Não em todos.
Então algo aconteceu, homens da CO19 saltaram de um carro em alta velocidade, uma saraivada de balas jorrou em cima deles. Danielle, tentou correr, mas foi atingida. Lucas revidou, mas não havia nada a fazer. Então, um homem alto, descarnado, feições duras, usando óculos de aro de osso e barba fofa em ponta, o interrogou.
— Lucas North? O senhor é andróide? O motivo por que pergunto isto é que, no passado, tivemos por aqui vários andros fugitivos da ex-União Soviética passando por agentes do MI-5, estamos à procura de um suspeito. Por favor, queira acompanhar-me.
—Não sou andróide—respondeu Lucas. Fui submetido ao teste Voigt-Kampff antes e não me importo de passar pela mesma coisa outra vez. Mas sei quais serão os resultados. Posso falar com Harry Pearce?
—O senhor tem direito a um único telefonema.
— Harry — disse Lucas. — Estou sendo retido pelo CO19 como uma unidade Nexus-6—disse Lucas.—Não posso entender isso. Eu preciso de sua ajuda.
— Como é que eu posso salvá-lo — respondeu Harry — se não posso salvar a mim mesmo? — Sorriu tristemente. — Você tem um nome e uma vida que nunca foram feito para ser seu. Você não tem amigos, nem família, nem passado. Sua memórias não são suas. Você não é uma pessoa real. Você compreende isso?
Pensativo, começou a juntar seus artigos de valor para entregá-los. Isto não faz sentido, disse a si mesmo. Quem são estas pessoas? Talvez isto seja um engano. Era difícil acreditar no que estava acontecendo.
—Você está numa enrascada, Lucas North—observou Phil Resch. Parecia divertir-se.
— Este é o tipo de erro que um andróide comete. Resignar-se com seu destino. —respondeu Lucas, deferindo um golpe no rosto de Phil Resch que o deixou desacordado no chão. Em seguida, saiu em fuga, camuflando-se pela cidade. Em questão de minutos todos os agentes do MI-5 seriam notificados que ele era um andróide Nexus-6, e teriam um código 678, atirar para matar. Pouco importava, ele só queria voltar para ela.
— Lucas, acorde, você está tendo um pesadelo. Ela disse, seu longo cabelo caindo em seu rosto enquanto o beijava.
Ele levantou-se dolorosamente, o rosto sonolento e confuso, como se um sem-número de batalhas houvessem sido travadas nele, durante muitos anos. Em seguida, devagar, tomou o caminho da cozinha.
— Você irá voltar para a cama? Ela perguntou.
— Sim — disse ele fracamente. O celular tocou, uma mensagem de Harry Pearce congratulando-o pelo êxito da missão.
— Quem é? ela perguntou. — Harry, ele disse friamente.
— O que ele queria?
— Desejar uma longa e merecida paz — ele respondeu. Vamos apresse-se, nós vamos sair, leve o mínimo com você.
—Para onde vamos? ela disse sobressaltada.
— Eu vou abandonar esse negócio, vou sair do MI-5. Chamou um táxi e desligou o celular. — Você vem?
— Muito bem — concordou. — Uma longa e merecida paz, ela disse beijando-o enquanto o elevador descia.
Referências

Dick, P. K. 2007. O caçador de Andróides. Título originial Do Androids dream of electric sheep? Ed. Rocco, Rio de Janeiro, Brasil.

Blade Runner é um 1982 filme de ficção científica americano dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford, Rutger Hauer e Sean Young.![image_thumb[1]_thumb[1] image_thumb[1]_thumb[1]](http://manedwolfdotwordpressdotcom.files.wordpress.com/2012/06/image_thumb1_thumb1_thumb1.png?w=191&h=268)
Spooks é uma série dramática da televisão britânica que foi originalmente exibido na BBC One, de 13 Maio de 2002 – 23 de outubro de 2011, composta de 10 séries.
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