O amor de mãe é uma dádiva de Deus. Se mantém firme por todo o sempre (Gaskell, 2011).

Minha mãe diz que a medida que envelhecemos compreendemos mais o nossos pais, talvez porque compreendermos mais a nós mesmos. Mas indenpedente de nossa mãe exterior, a maioria dos adultos tem uma mãe interior, como legado de sua mãe verdadeira, que compô-se não só da experiência da mãe pessoal mas também de outras figuras maternas de nossas vidas. Na psicologia junguiana, esse emaranhado todo é chamado de complexo materno (Estés, 1994). Segundo Clarissa Estés (1994), a mãe interna é um dos aspectos centrais da psique do ser humano, e é importante reconhecer sua condição, reforçando certas características, corrigindo algumas, erradicando outras e começando tudo de novo se necessário. Ao longo do tempo eu fiz o meu dever de casa, reconstruíndo a minha mãe interna mais de acordo com as necessidades emocionais da minha criança interior. E tudo estava em paz com minhas mães e eu até que meus irmãos começaram a ter filhos…

Carol (8), Marina (8), Flávia (4) e Claudio (11)
Como irmã mais nova, solteira e iniciando a faculdade, eu tinha algum tempo livre para estar com meus sobrinhos. E isso era um prazer! Meu passeio preferido era levá-los ao parque da cidade, onde eu e meus irmãos brincávamos quando crianças, e vê-los descobrir novas (para eles) aventuras! A cada desafio suas mãos pequeninas se agarravam as minhas em busca de segurança e se algo os assustava eles olhavam imediatamente para mim. E então, eu lhe sorria, dizendo com olhos que estava tudo bem, que eu estava ali para eles, e assim, eles se sentiam seguros e se entregavam as suas brincadeiras. E nesses momentos, eu tomava consciência que eu me tornara uma figura materna para aquelas quatro crianças.
Cada conselho, cada palavra, cada gesto. Ajudar a escrever a história da Carol, tem sido a terapia mais intensa ao qual eu me submeti. A mais transformadora. Ser amiga e conselheira da Carol me faz rever todos os dias os meus conceitos, preconceitos, medos e vitórias. Ter consciência que eu faço parte e influencio a história da Carol, me faz simplesmente querer ser uma pessoa melhor.
(A história de Carol, Contos de Loba, junho de 2010 publicado no Jornal Deusa Viva)
…E assim, o país das maravilhas ruiu outra vez! Que exemplo de figura materna eu queria ser para aquelas crianças? Uma mãe ambivalente, uma mãe prostrada, uma criança sem mãe, uma mãe criança? (veja Estés para maiores explicações).
Não, eu queria ser uma mãe loba, uma mãe selvagem. Aquela que personifica a força feminina para nutrir, cuidar e é amorosa com seus filhotes, os ajudando a descobrir os seus talentos. Aquela que tem a habilidade de superar momentos difíceis, defendendo sua prole com garras e dentes, e que por isso pode ser invocada como uma fonte de sustentação e proteção. E para isso, eu precisava de mulheres reais no mundo objetivo que fossem mais velhas e mais sábias para me ensinar a ser uma mãe. Mulheres que se tornaram calejadas por terem passado por tudo que passaram na criação de seus filhos, sejam eles uma prole real ou seus projetos criativos. E indenpendentes do custo, seus olhos vêem, seus ouvidos ouvem, suas línguas falam e elas são amorosas (Estés, 1994). Então eu precisava de minha Mãe.
Fale novamente comigo daquele modo, mãe. Não nos deixe pensar que o mundo endureceu demais os nossos corações. Se a senhora dissesse aquelas boas e velhas palavras, me faria sentir um pouco da simplicidade piedosa da minha infância (Gaskell, 2011).

Eu precisava da minha Mãe ancestral, da Mãe criadora, que tem muitas faces e muito nomes, e que é representada em diversas culturas como a “Senhora do amor incondicional”. Eu precisava daquela que nutre com o leite da compaixão, purifica e liberta os seres humanos das suas dores, egoísmos e sofrimentos, vertendo sobre eles ondas de amor incondicional (Fur, 2012). Irradiando a luz da compreensão, que nos permite perceber nossa confusão e, com a sua paciente sabedoria, ela se empenha em nos libertar da escuridão da ignorância, das amarras materiais e das ilusões espirituais. Aquela que nos ensinam a olhar para dentro de nós e descobrir o melhor que existe em nós, auxiliando-nos a estabelecer relações de cuidado e respeito com todos os seres vivos (Fur, 2012). E ela estava perto de mim, representada pela minha mãe, tias, irmã e amigas.

Assim, à medida que os anos passam, eu compreendo mais a minha mãe, talvez porque eu compreenda mais a mim mesma. No final de semana passada, minha mãe fez 68 anos, e eu e meus irmãos lhe oferecemos uma festa surpresa. Estavam presentes algumas de nossas mães, pessoas que nos viram crescer junto com seus próprios filhos. E claro seus netos e filhos foram o tema da conversa. Ah, a Carol faz Medicina Veterinária na UnB. A Marina faz Meterologia na UFRJ, enquanto o Claudio fez administração e já trabalha com o pai. A Flávia está terminando o ensino médio. A Ana Cris foi para a Nova Zelândia…
Eu ainda não sei o tipo de mãe que eu sou para os meus sobrinhos, mas se eu for um pouquinho parecida com a minha mãe, eu estarei satisfeita!
Feliz Dia da Mâes!
Referências
Estés, C.P. 1994. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Editora Rocco, Rio de Janeiro.
Gaskell, E. 2011. Norte e Sul. Título Original: North and South, Editora Landmark, São Paulo, Brasil.
Faur, M. 2012. Tara, Grande Mãe Compassiva e Protetora. Deusa Viva, nº 150. Disponível somente em português.
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