O calor abrasador sobre a terra silencia a terra. É tudo tão calmo que consigo ouvir o canto do tordo1 nos ramos de um velho álamo2. cfilip filip filip codidio quitquiquit. O pássaro canta solitariamente. Um cântico de desejos não revelados. Dou um passo em sua direção, mas ele voa para longe. E ouço o que a princípio me parece ser o bater da chuva na terra seca, que rapidamente se transforma no som de um trovão. O corcel negro de Guy of Gisborne3 surge ao longe na estrada, conduzido a grande velocidade por seu cavaleiro. É uma visão avassaladora!

Saio do caminho e me escondo atrás do álamo. Em instantes eles irão passar por mim e não quero ser vista. Mas, como se percebesse a minha presença, o cavalo para de repente, levantando-se sobre as patas traseiras, arriscando lançar seu cavaleiro ao chão.
─ Maldito animal, esbraveja Guy of Gisborne, prendendo firmemente seu corpo ao corcel e ecoando meus próprios pensamentos!
O cavalo resfolega, abana a cabeça, mas o cavaleiro é como uma estátua sobre sua garupa alta. Meu coração dispara, e temo ser denunciada por seu ritmo cada vez mais descompassado. O cavalo vira o pescoço, batendo-o na perna de seu cavaleiro. Seus olhos podem não me ver, mas ele sente a minha presença atrás do álamo.
Os olhos de Guy percorrem a vegetação na direção apontada pelo animal. Está tudo tão silencioso que consigo ouvir o tinido do arnês, o arquejar do cavalo, o som, o cheiro, o atrito do couro no corpo do poderoso corcel e, finalmente, o bramido da espada.

─ Quem está aí? Apareça covarde! Ele ordena, ainda olhando em minha direção.
─ Meu Senhor, sou eu, Lady Marian3, respondo educadamente, revelando-me por trás do álamo.
─ Lady Marian? –diz ele. A sua voz é baixa e profunda, quase um murmuro, como se não quisesse ser ouvido. Estais por acaso se escondendo de mim? Ele pergunta.
─Claro que não ─eu digo. Mal conseguindo formar as palavras. Sinto-me como uma fêmea de tordo, encantada por uma canção de amor.
─ O que faz aqui, Marian, tão longe de casa? Essa estrada é perigosa, o bando de Hood a tem como se fosse o seu território.
─ Eles jamais me farão mal, respondo sem pensar.
─Não? Ele hesita por um segundo, o seu coração a latejar, numa mistura perigosa de gênio e desejo, e depois se recompõe, seus olhos adquirindo um frio desdenho. Ele guarda sua espada e desmonta do seu cavalo.

─ Mesmo assim, eu preferia que não se afastasse da casa de seu pai, e andasse sozinha por locais ermos. Há outros perigos que rondam essas matas. Soldados, mercadores, forasteiros, homens cruéis, cansados de dias intermináveis na estrada.
─ Quem se atreveria a me fazer mal aqui? Pergunto. É só uma breve caminhada até a casa do meu pai.
─ Minha querida dama, você vive na luz, não conhece a escuridão do coração dos homens ─ ele diz. Aceita o meu braço e deixe-me levá-la para casa.
─ De fato, seria uma tonta, se não ouvisse o seu conselho ─ eu respondo. E lentamente aproximo-me dele. Sinto o seu corpo tremer como um cavalo preso a uma rédea curta, e seus olhos fitam-me como se nada mais existisse. Meu rosto encosta-se a seu pescoço e sinto a suavidade do cabelo encaracolado de sua nuca como uma pena em minha face. Minhas mãos tocam o grosso cinto que envolve a sua cintura. Busco o punho de sua adaga. Sua respiração é lenta e profunda, e seu cheiro, levemente amadeirado, invade as minhas narinas, inebriando-me por um breve momento. Desembainho a adaga, eu levo a ponta afiada a sua garganta. Uma tênue linha vermelha surge sob a pressão da adaga.
Ele recua chocado, afastando-me, sua postura alerta, como a de um animal ferido. ─ Marian! ─ diz ele, incrédulo. O que me tornaste? Um tolo! ─ ele diz. A raiva duramente controlada em sua voz.
─ Veja, Meu Senhor, posso me defender de homens que rodam as estradas. Declaro triunfantemente. E estou a falar sério!
─ Tomai … ele desafivela a bainha da espada e a lança ao chão. Fique também com a espada como prova de minha estupidez.

Não há nada que posso dizer para acalmar a sua raiva, por isso, tiro a espada do chão, limpo-a e volto-me para o seu corcel negro. Seguro-o pela rédea, afagando a sua crina e lentamente o puxo, iniciando a caminhada de volta para casa.
Passo diante de Guy, minhas mãos o tocam levemente, convidando–o à acompanhar-me. Seguimos em silêncio. Consigo ouvir o rumor de sua capa atrás de mim e a contrariedade de seus pensamentos. Quando chegamos ao final do bosque detenho-me e viro-me para ele, oferecendo suas armas e a rédea de seu cavalo.
─ Meu Senhor, perdoe-me. Eu digo debilmente. Não quero que fiques aborrecido comigo e passe a me tratar com indiferença. Minha voz soa trêmula, e surpreendo-me com a sinceridade das minhas palavras. Ele me olha.
─ Nunca. Diz ele simplesmente. Nem que esse fosse o meu desejo, eu poderia lhe ser indiferente. Você me trata como um cão e como um cão eu devo segui-la para todo o sempre.
─ Não diga isso!
─ Não digo o quê?
─ Não suporto vê-lo falando assim! Irei sentir-me arrependida para todo o sempre da minha insensatez.
─ Porque o arrependimento? Provoca ele. De uma maneira ou de outra, eu não passo de um animal para você. Ele diz. E num movimento brusco ele me toma em seus braços.
Suas mãos firmemente prendem meu corpo junto ao seu. E sinto o calor de sua pele irradia-se pelo meu corpo, despertando a minha feminilidade. Sinto sua respiração próxima ao meu rosto e meus lábios se entreabrem levemente. Eu o desejo, e inesperadamente, ele me beija! E ao invés de repeli-lo, eu quero reconciliar a violência no seu coração4. Exorcizar os demônios do seu passado, e satisfazer os desejos secretos do seu coração.

O meu coração corre acelerado e meu corpo responde tão prontamente ao seu toque, que por um momento penso que poderia deitar-me com ele, ali como uma sacerdotisa pagã, tendo apenas o céu de álomos como testemunha. Mas então, ele me afasta com veêmencia.
─ Pronto, Minha Senhora, estamos quites ─ ele diz. Roubaste as minhas armas e eu roubei a sua. A partir daqui estás em segurança. Lá está o seu pai. Devolva-me o cavalo e seguirei o meu caminho em paz. Ele diz com leve ironia, numa voz suave quase inocente.
Consigo sentir a cor do meu rosto intensificar-se pela raiva e o orgulho ferido. No entanto minhas palavras saem fracas, quase infantis.
─Seu insolente! Ergo minha mão para dar-lhe um tapa. Mas ele a segura, impedindo-me.
─ Melhor não, Marian. Você já me feriu hoje, e eu não quero que se arrependa novamente!
─Tome as suas armas e seu cavalo. Respondo ainda com raiva, livrando-me dos seus braços e jogando as armas em cima dele. Ele as pega com incrível agilidade.
─ Aceita a adaga, Minha Senhora, como uma lembrança minha. Ele diz, assumindo a máscara que normalmente usa. Fria e sem amor.
─ Claro, se é isso que desejais. Eu digo orgulhosamente, tomando a adaga e virando-lhe as costas.

─ Marian ─ ele me chama, sua voz quase um sussurro. E eu ouço o canto do tordo ao longe. Porque fui lhe dar ouvidos!
─ Não se aborreça comigo. Perdoe a minha loucura. Ele diz. Seus olhos refletem a tempestade de seus sentimentos. Um misto de vulnerabilidade e orgulho. E vejo o tanto que ele já sofreu, e incapaz de feri-lo novamente, eu digo docemente:
─ Venha Guy, leve-me até o portão de casa. Ele me olha e segue ao meu lado silenciosamente. Eu quero acalma-lo, reconciliar a violência do seu coração. Quero reconhecer a sua beleza e satisfazer os desejos não revelados do meu coração.
Referências e Notas
1. Para acessar o significado do tordo como um Animal de Poder, eu segui apenas a minha intuição. Logo no início do conto, temos esse pássaro canoro, anunciado para Marian a chegada de uma canção de amor. A canção de Marian e Guy of Gisborne como todas as canções de amor é cheia de incertezas, medos e inseguranças. O tordo nos ensina que para cantar a canção do amor temos que criar o nosso próprio repertório, a expressão da nossa individualidade (cada macho de tordo pode ter um repertório de mais de 100 frases). Igualmente, ele nos lembra que para nos relacionarmos precisamos abrir os nossos canais de percepção e perceber a expressão do outro.
Song Turdus philomelos
2. Já a árvore álomo na tradição celta representa a Incerteza. De acordo com essa tradição, pessoas ligadas ao álamo não são muito seguras de si mesmas, mas são valentes se for necessário, precisam estar em um ambiente agradável, são muito seletivas, e às vezes solitárias, muito alegre, de natureza artística, boa organizadora, tentam aprender através da filosofia, confiável em qualquer situação, assume as relações muito seriamente.
3. O conto é baseado na série Robin Hood, produzida pela BBC One e transmitida entre 2006-2009. As imagens são de Richard Armitage, como Guy of Gisborne e Lucy Griffiths, como Marian, personagens da série.
4. Undisclosed Desires- Muse
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