Era uma vez uma pequena órfã chamada Qingcheng, que vivia na China antiga. Sozinha e faminta, a criança passava os dias procurado alimento nos campos devastados pela guerra e vivia dos restos deixados pelos soldados mortos. Um dia ao atravessar um rio, Qingcheng encontra
um poderoso ser místico, chamada Manshen, que lhe abre as portas do destino, com a seguinte proposta: Toda a riqueza do mundo será sua em troca de um pequeno sacrifício: Você não poderá jamais amar. Pois tudo o que você amar, você perderá. Você está disposta a aceitar isso? É a criança desamparada e ingênua, aceita. E este se torna o seu destino, que só poderá ser mudado a menos que o tempo flua para
trás, o inverno caia na primavera e os mortos voltem à vida. Vinte anos depois Qingcheng é uma bela princessa que vive numa gaiola dourada aprisionada por sua promessa ( A Promessa, 2005).
Às vezes quando somos crianças algo no mundo dos adultos nos decepciona profundamente e ficamos assustamos, fazendo com que perdemos parte da nossa alma. Na Àfrica Ocidental dizem que ser duro com uma criança faz com que a alma se afaste do corpo alguns metros ou até mesmo alguns dias de caminhada. Mas quando o dano é sério a alma foge. Outra vezes não temos pais atentos que nos protegem e nos ensinam a evitar os ladrões de sonhos e, assim, temos os nossos sonhos roubados. Ou às vezes somos rejeitados por aqueles que deveriam ser nossos amigos. Somos taxados de diferentes, inapropriados ou mal comportados. E quanto mais nos esforçamos para nos ajustar, mais nos perdemos de nós mesmos.![]()
Às vezes ainda jovens nos falta o apoio e o estímulo básico para a nossa criatividade, e cheios de mágoa e resignação, nós paramos de dançar, calamos nossas vozes, esquecemos nossos amigos imaginários, largarmos nossos desenhos e poesias e prometemos nunca mais tocar neles.
Diariamente uma quantidade excessiva de crianças faz alguma promessa terrível anos antes de serem capazes de um melhor discernimento. Elas prometem nunca mais serem elas mesmas. Prometem serem boas, obedientes e comportadas demais. Ou por outro lado prometem serem extremamente danadas para que assim alguém as percebam. Outras prometem nunca mais confiar em alguém ou nunca mais amar, para que não sofram novamente o abandono. E algumas, como Qingcheng, prometem fazer
qualquer sacrifício pela riqueza e sucesso para que não passem mais fome de alma. Embora os adultos pensem que essas promessas são coisas de crianças, coisas que passarão com a idade ou coisas que logo serão esquecidas pelas crianças. Isso não é verdade.
As crianças possuem um coração passional e verdadeiro. Um coração que traz em si toda a força do que ainda está por vir. Quando uma criança faz uma promessa ela está disposta a cumpri-la com todo o seu ser, pois ela acredita que coisas terríveis irão acometê-la caso ela não cumpra a promessa. Não porque os deuses disseram que isso aconteceria, mas sim porque elas acreditam nos adultos. E os adultos acreditam que o medo e o terror são as formas mais eficazes de educar uma criança, ao invés do amor. ![]()
Então as crianças crescem e se tornam adultos presos em uma gaiola dourada ansiosos pela liberdade de voar e de serem quem eles realmente são. Algumas vezes tornam-se adultos neurotizados, insensíveis ou robotizados. Mas, a vida sempre nos diz quando chegou o tempo de quebrar as nossas promessas, seja através de uma inquietação interna ou uma crise existencial.
Para quebra-las temos que voltar no tempo e cuidar da nossa criança interna, amá-la, ampará-la e aceita-la como ela é. Para trazer a nossa alma de volta, temos que deixar o inverno chegar e nos recolher em nossa tocas para curar as nossas feridas, mesmo que todos digam que está tudo bem, que tudo são flores.
Temos que retornar do mundo dos mortos, recuperando a nossa criatividade, trazendo de volta os nossos cadernos de desenho, cantando debaixo do chuveiro ou no carro e balançando os nossos corpos num ritmo só nosso. E finalmente temos que recuperar a nossa capacidade de amar e confiar em nós mesmos e nos outros, como no jardim de infância, onde todos sentavámos e brincávamos no parquinho, como iguais.
Que todas as crianças do mundo nunca mais tenham que fazer tais promessas.
E aquelas que um dia o fizeram, que elas possam quebra-las.
Referências e Legenda
Figuras de 1 a 7. A Promessa. 2005. Título roriginal: (Wu Ji). Direção e roteiro Keigen Chen.
Figura 8. Brincadeira de roda. Disponível em Google.
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