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Posts com Tag ‘auto reflexão’

Texto por Ana Cris, Pesquisa por Ana Cris e Fabi
Por minhas barbas! Disse Thorin.
Você não ouviu nossa música?
O Hobbit1

Quando alguém menciona canções de anões, lembramos logo de "Eu vou"2, cantada pelo anões do filme de animação Branca de Neve e os Sete Anões (1937) da Walt Disney, escrita por Frank Churchill e Larry Morey. Porém,  muitos poemas que Tolkien escreveu para os Anões, não são apenas versos incorporados na história, eles são canções cuidadosamente projetadas para  ilustrar quem são os Anões da Terra-Média.

No entanto, como destaca Corey Olsen, autor do livro Exploring J.R.R. Tolkien’s The Hobbit3 (2102), um dos elementos mais  subvalorizado de O Hobbit são as suas poesias e canções. A maioria dos leitores passa rapidamente sobre eles ou até mesmo ignora-os, perdendo assim alguns dos  momentos literários mais pensativos e inspiradores do autor4. Assim, o que podemos aprender sobre os anões por ir além da canção “Eu vou”, adentrando o mundo de Tolkien, nas vozes de seus novos interpretes ?

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Como acontece em muitas obras literárias, as músicas e poesias  de Tolkien são expressões de memória (olhar para o passado) e de desejo (olhar para futuro), em outras palavras, são expressões do espírito5. Assim, a canção Misty Mountains6narra a história da perda de Erebor e nos fornece insights sobre o desejo do coração  dos anões.

A canção começa com uma estrofe que aparece três vezes ao longo dela, e serve como declaração das intenções da busca dos anões. Eles explicam aonde estão indo: para seu antigo lar subterrâneo (Adentrando cavernas, calabouços cravados). Ilustram como aquele destino está longe deles, tanto em termos de distâncias quanto de obstáculos que o separam de sua terra natal (“Para além da montanhas nebulosas, frias”). Registram a urgência de seu desejo de regresso (Devemos partir antes de o sol surgir). E o mais importante, descrevem a motivação principal: o retorno de seu tesouro mágico e perdido (Em busca do pálido ouro encantado). Essa estrofe sozinha oferece a maior parte da explicação sobre a busca dos anões3.

Entretanto, se quisermos entender Thorin e companhia, temos que olhar além da superfície. Personagens de Tolkien possuem complexidade e profundidade psicológica, não sendo facilmente classificados em heróis ou vilões. Como nós, humanos, eles estão presos entre impulsos conflitantes. Assim, nas estrofes seguintes de Misty Mountains temos um insight sobre a natureza dual dos anões, representada pelos cenários sombrios e cobertos de penumbra subterrânea, onde luz e sombras  coexistem.

[...] Então o objetivo de Armitage foi descobrir tanto a luz e a escuridão dentro de Thorin, porque há sempre um pouco de ambos em cada um de nós.

Fault Magazine

É a partir  de calabouços vazios e cavernas profundas, que o canto grave dos anões ecoam acompanhados pelos  martelos a soar. Um canto cheio de tristeza e melancolia, pois nasce da escuridão da terra, onde dorme a incerteza.

Um exame mais detalhado dessa escuridão – isto é, as inferioridades que constituem a sua sombra – revela que eles têm uma natureza emocional, e, consequentemente, qualidades obsessivas, ou, melhor, possessivas em relação aos seus afetos.

Para seu uso taças foram talhadas
E harpas de ouro. Onde ninguém mora
Jazerem perdidas, e suas cantigas
Por homens e elfos não foram ouvidas.

 Thorin

Afetos (i.e. paixão) geralmente ocorrem onde a capacidade de adaptação é mais fraca, e, ao mesmo tempo os afetos revelam a natureza para essa fraqueza e a existência de um nível inferior da personalidade. Neste nível, com suas  emoções  descontroladas ou mal controladas, a pessoa se comporta como um ser primitivo, que não é apenas uma vítima passiva do seus afetos, mas singularmente é incapaz de julgamento moral7. Em geral, os afetos consomem uma grande parte da energia vital e são o núcleo do  seu sofrimento.

No entanto, os trabalhos que anões realizam são associados com a luz. Eles transformam a matéria bruta em objetos de rara beleza. Capturam a luz “nas gemas do punho da espada”. Enfileiram estrelas em colares, fazem coroas de fogo de dragão e fundem a “luz do sol e da lua” em cordão. As suas gemas são o seu sol e sua lua, o foco de seu amor e paixão, mas também representam a sua função no mundo: plasmar a luz a partir do  mundo das sombras3.

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Também, no coração dos anões está o desejo de vingança contra o dragão, e é no contexto de sua privacidade  que os anões falam a respeito da perda  e  destruição de seu reino. No entanto,  a canção nunca realmente descreve Smaug, o dragão. Ele não é o personagem desta canção. Em vez disso, os anões descrevem os efeitos da vinda dele em suas vidas. Assim, a história que Thorin e sua companhia cantam é contada de maneira a manter o foco sobre as vítimas mortas pelo dragão e sobre a destruição provocada por ele3.

Sob a luz da lua fumavam montanhas;
Os anões ouviram a marcha final.
Fugiram do abrigo achando o inimigo
E sob os seus pés amorte ao luar

É o que os anões querem lembrar. É esse sentimento de perda e destruição que não os deixam esquecer o dragão.  A estrofe final da canção indica a atitude e o comprometimento dos anões com o seu próposito “reconquistar dele nossas harpas e nosso ouro”.  A força do desejo de vingança e a lembrança de seus afetos os impulsionam em sua busca. Mas novamente luz surge a partir de suas sombras, pois igualmente a sua busca está comprometida com os valores da alma: nobreza, lealdade, verdade e justiça para o seu povo.  E pelo seu povo que Thorin e companhia estão dispostos a sacrifica-se por inteiro.  E a  morte  da personalidade em prol dos valores da alma faz brilhar a alma.

                                                     To be continued

Referências

1. Tolkien, J. R. R. The Hobbit or There and the Back Again. Harper Collins Childre’s Book.

2. Branca de Neve e os 7 anões – Eu vou

3. Olsen, C. 2012. Explorando o universo do Hobbit. Ed. Lafonte, São Paulo.

4. Olsen, C. 2012. Why J.R.R. Tolkien’s ‘The Hobbit’ Isn’t Just For Kids. The Wall Street Journal.

5. Stanton, Michael. Hobbits, elfos e Magos. Editora Frente. São Paulo.

6. Misty Mountains performed by Richard Armitage and The Dwarf cast.

7.  Carl G. Jung (Author), R. F. C. Hull. The Portable Jung. Penguin Books, USA

8. Images from Jackson, P. 2012. The Hobbit: An Unexpected Journey (2012)

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Há um ano atrás, comecei o La Loba. Timidamente,  seguindo o desejo de me aventurar solitariamente pela savana. Deixando para trás a segurança da toca e o conforto da não exposição.  Em tão pouco tempo, muita coisa aconteceu; conheci novos amigos, aprendi sobre diferentes culturas, viajei para o outro lado do mundo. E a cada novo encontro trouxe  ao blog um pouco da minha  Jornada . Muitas vezes a escrita tomou a forma de contos,  na voz de diferentes personagens de Richard Armitage. Por exemplo, as histórias de Lucas North e Guy of Gisborne  me despertam idéias e sentimentos, expandindo a percepção da minha própria Jornada e indo além de suas histórias originais. Contar a minha história no La Loba  tem me permitido acessar a força transformadora da experiência pessoal de transcendência e a importância de viver plenamente a própria individualidade.

E assim, a Jornada através da escrita tem sido uma aventura  rica e cheia de surpresas, que inúmeras vezes acelera o coração e me fazem correr mais rápido para o La Loba.  A descoberta da amizade tem sido uma  grata recompensa. E eu não poderia deixar de fazer uma justa homenagem a Fabi, que nesse primeiro ano tem sido uma companheira de aventura, colaborando com inúmeros textos e ideias! Muitas vezes mudando a minha disposição sobre  a vida com  suas palavras de incentivo e amizade.

image Maned wolf pups

   

       Filhotes de lobo-guará.

Igualmente,  uma outra boa  experiência é a interação com a comunidade de fãs de Richard Armitage. É gratificante ler os seus comentários, receber emails, trocar idéias e entrar nos seus blogs,  os quais inúmeras vezes inspiram o La Loba.

Não é a toa que as coisas acontecem. Não é a toa que nos encontramos através da nossa admiração por esse incrível ator britânico e a partir daí passamos a compartilhar as nossas vidas e experiências, e assim aprendemos uns com os outros a arte de viver. O escritor chinês  Lin Yutang, nos ensina, em sua obra  sobre a tradição chinesa antiga, o caminho da vida plena.  Ele nos diz para sermos plenos devemos escolher diferentes amigos para diferentes tipos de ambiente. Sabiamente, ele especifica:
                     “Para apreciar as flores, busquemos amigos de bom coração.
                        Para apreciar os rapazes/moças, amigos (as) divertidos(as).
                                 Para subir ao alto de uma montanha, amigos românticos.
                                      Para olhar a lua, amigos de fria filosofia.
                          Para um festim de vinho, amigos com originalidade e encanto.”

                                    Para multiplicar momentos bons e dissipar os tristes,

                                           amigos que eu encontrei no La Loba! Friends_RA

 Mari Lais linda60 Bibiana Mille Cacau Carol Grace saraleee Ana The Crow Joanna fitzg Nane Jonia lucylou Mulubinba Grammarye phoebe lucylou Mrs. E. B. Darcy (@MrsFitzwilliamD)  Beachbaby Beatriz Del Picchia Phylly3 Gray_Stormcrow onemorelurker Karina Glorinha + all lukers!

                                        A todos vocês

Muito Obrigada!

La Loba

  Alguns números que me fazem feliz!

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Baseado em
Somebody That I Used To Know
Gotye (feat. Kimbra)

De vez em quando eu penso em quando estávamos juntos. Como quando você disse que se sentia tão feliz que poderia morrer. E eu tentei dizer  a mim mesma que você era a pessoa certa para mim.

Mas eu me sentia tão sozinha, e nessa situação, você pode ficar viciado a uma  ilusão. Então, quando eu descobri que não fazíamos sentido. Eu me resignei ao fim, ao inevitável fim.  E eu admito que eu estava triste que tudo tenha acabado. Porque às vezes é insuportável desejar profundamente algo e ter consciência que isso não está ao seu alcance.

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Bem, eu  disse que ainda seríamos amigos, mas eu menti. É um pouco duro da minha parte simplesmente te cortar. Mandar meus amigos pegarem seus recados e mudar o meu número.  Fingir que  nada aconteceu e que não éramos nada. Eu o trato como um estranho e isso é tão rude. E embora eu ache que você não mereça isso. Eu não irei fazer diferente. Agora, você é apenas alguém que eu costumava conhecer.

De vez em quando eu penso em todas coisas que me ferraram.  Todas  as coisas ao quais eu tive que sobreviver e seguir em frente. Você disse que poderia fazer tudo isso passar. Mas aquilo é uma dor que eu ainda me lembro. E talvez eu seja uma dessas peças danificadas que nunca irá funcionar novamente. Talvez eu tenha apenas perdido a fé.

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Você diz que eu só  preciso de amor. Mas eu sei que nós não fazemos  sentido. Você disse que poderia deixar isso passar. Mas, eu não quero estar presa a alguém que eu apenas conheci. E talvez, eu realmente precise sentir  o amor.

Então, eu não quero viver desse jeito, lendo cada palavra que você diz.  Não me faça acreditar  que eu tenha  feito tudo errado. Eu não preciso disso.  Me deixe ser apenas alguém que você conheceu. E seja alguém que eu apenas conheci.

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Franky!                                                                                                                                         Franky!
I’m not scared                                                                                                          Eu não tenho medo
I know that you’re gone                                                                                     Eu sei que você se foi
but I’m still here                                                                                         mas eu ainda estou aqui
Franky!                                                                                                                                         Franky!
Tell me why I’m still here                                                  Diga-me porque eu ainda estou aqui
When you’re not, what’s the deal?                         Quando você não está, qual é o propósito?
Where did you go                                                                                                           Aonde você foi
It’s stormy on this road                                                                    É tormentoso por esta estrada
And I’m alone                                                                                                         E eu estou sozinha
I’m still your princess1                                                                          Eu ainda sou sua princesa
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Era uma vez um Belo Reino, onde vivia uma  princesa e o seu principe, eles eram muito felizes e tinham inúmeros planos juntos. Mas um dia o príncipe saiu para cavalgar e nunca mais voltou. E Bela caiu  num sono profundo, assim como seus pais e todos os habitantes do castelo.

E foi assim que que o Belo Reino deixou  de existir para Bela. Eis o significado simbólico do sono mortífero em que caíram todos e tudo que circundavam a princesa, pois o mundo só está vivo para a pessoa que desperta para ele — disse La Loba, enquanto lentamente escovava os meus cabelos.

—Ela caiu num sono profundo a fim de apagar a lembrança de sua dor? Eu perguntei. Sim, La Loba concordou. E serão necessários muitos anos, um longo processo para que a princesa venha a despertar, pois ela dorme o sono da transformação. Cumprido o tempo determinado, ela haverá de acordar2,3.

—E o mundo não será mais o mesmo. Eu disse a La Loba, enquanto me deitava em minha cama.

—Sim, minha querida — disse La Loba — o mundo continua a girar. E jovens como você temem os períodos de inatividade, onde parece não acontecer nada, devido a  crença comum de que só se fazendo coisas se pode atingir os objetivos. No entanto, um período longo de calma, de contemplação, de concentração sobre o eu, pode nos levar às maiores realizações. E Bela não ficará presa permanentemente na imobilidade mesmo que ela sinta no momento que este período de quietude pareça durar cem anos2,3.

—Por favor, continue a história, pedi a La Loba, até que eu durma!

Enquanto o Reino adormeceu, continuou La Loba,  os espinheiros cresceram em volta da Torre  onde a princesa se refugiou e todos que tentaram chegar até ela fracassaram, pois ela ainda não estava pronta e em seu sono ela buscava a sua própria identidade e liberdade.

—Eu gostaria que ela tivesse um Dragão a protegendo em sua Torre — eu disse a La Loba.

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— Ah, mas ela tinha, ela respondeu . Black Dragon4 é o seu nome, o dragão da renovação. Ele é o maior de todos os Dragões e seu fogo é muito poderoso. O Black4 está no início e no fim de todos os processos. Com seu enorme coração ele trabalha a auto-aceitação e a coragem para fazer mudanças nas nossas vidas. Ele nos ajuda a superar nossos traumas. E permite que você enxergue as situações difíceis de maneira objetiva. Se algo difícil aconteceu, ele vai ajuda-la a dissolver as emoções e o sofrimento que vêm das lembranças, permitindo que você se distancie emocionalmente da situação, enxergando-a com compreensão e aceitação, entendendo o seu aprendizado. Depois disso, este Dragão irá nos ajudar a colocar o que foi aprendido em prática para que possamos continuar a caminhada. Black é um salvador que vem nos resgatar quando passamos por períodos de crise. Ele penetra na escuridão e traz a luz. Com seu fogo poderoso ele limpa profundamente a nossa energia mental e os nossos ambientes psico-emocionais negativos4.

—Sim, um dragão negro como a noite. E o que aconteceu com Bela? perguntei a La Loba.

—Bom, embora o tempo não apague os momentos vividos no passado, ele tem o poder de retirar deles a sua vitalidade, deixando-nos apenas  uma lembrança.  Assim, passado o tempo, Bela juntou forças na solidão, e se tornou ela mesma, adquirindo maturidade emocional. Mudanças aconteceram dentro dela que a despertaram para a possibilidade de uma nova vida feliz em seu reino. E assim a princesa sentiu-se viva novamente. E, por conseguinte, o que antes pareceria impenetrável se abriu. O muro de espinhos subitamente se transformou numa cerca de flores grandes e belas, permitindo que alguém pudesse entrar, pois somente o relacionamento com os outros nos "desperta" do perigo de deixar nossa vida adormecida por tempo demais2,3.

Então, ela encontrou o príncipe e o beijou5, continuou La Loba. Todos consideravam o príncipe um homem insignificante e sem ambições. Um homem praticamente invisível em seu mundo. Entretanto, ele era um homem bom, um verdadeiro gentleman, com senso de humor, mas sofria preconceito por sua aparência. E foi por esse homem por quem, lentamente, Bela se apaixonou. E no coração de Bela, onde estavam todas as suas Belas,  ele conheceu a sutileza da dor e a delicadeza do amor5.

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Referências

1. Franky’s Princess – Emilie Simon

2. Bruno Bettelheim. A Psicanálise dos Contos de Fadas. 16a Edição – PAZ e TERRA – 2002 Traduzido do original em inglês: The Uses of Enchantment:
The Meaning and Importance of Fairy Tales.

3. Qual Bela Adormecida você quer ser? Texto de Cristina Balieiro

4. Black Dragon, O Dragão da Renovação – Texto de Dragon Energy Center

5. La delicatesse (A Delicadesa do Amor) – Um filme de David Foenkinos e Stéphane Foenkinos. França, 2011.

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Miragem

Pegando a saída sul num dia de verão, ao som de Siouxie & the Banshees1, eu olho a estrada a minha frente e vejo-a coberta com uma poça d’água. No entanto, eu nunca a alcanço, pois o que observo é uma miragem. Para muitos a palavra miragem pode invocar imagens de viajantes sedentos que se movem lentamente em areias do deserto em direção à imagem de uma lagoa de água fresca e cristalina. No entanto, à medida que eles se aproximam a água desaparece, pois a visão é meramente uma ilusão ótica. Os personagens podem variar, cowboys no Vale da Morte, nos EUA ou soldados no  deserto do Saara, no Norte da África, mas o simbolismo é claro, pessoas morrendo de sede perseguindo uma imagem que só existe em suas mentes. Somos então propensos a considerar miragem como uma ilusão de uma mente sobrecarregada; uma invenção da imaginação de pessoas ressequidas pela sede.

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O mesmo simbolismo tem sido usado  para descrever fans. Na esfera do senso comum, o fã é visto como alguém incapaz de estabelecer distinções – entre o real e a ficção; entre admiração e amor incondicional; e entre a própria identidade e a identidade do ídolo (Jenson, 2001; Storey, 1996).

Fechado em seu próprio universo,  o fã seria, então, um indivíduo em constante crise de identidade e valores, que projeta, na figura do ídolo, tudo aquilo que ele gostaria de ser mas não é, gerando um sentimento misto de dependência e frustração. Além disso,  recebem o rótulo de indivíduos infantis e imaturos que não vivem suas vidas por completo e que tentam compensar falhas de sua vida por meio de relações inventadas com ídolos e personagens (Jenkins, 1992).

 

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De acordo com American Meteorological Society’s Glossary of Weather and Climate, miragem é um fenômeno de refração, em que uma imagem de algum objeto distante aparece deslocado de sua verdadeira posição por causa de grandes variações de densidade verticais perto da superfície, assim a imagem pode aparecer distorcida, invertida  ou trêmula.

No caso de miragem em estradas, os raios de luz solar, em direção ao asfalto, sofrem refração devido ao gradiente de temperatura das camadas de ar próximas ao asfalto. Essa refração desvia a direção de propagação da luz, e em seguida, a luz reflete-se (reflexão total) nas camadas de ar próximas ao solo. Assim, o que nossos olhos veêm e nossa mente inicialmente interpreta como água são de fato raios de luz vindo a partir do céu azul e nuvens, acima e a frente de nós, refratados por mudanças fortes na densidade do ar próximo a superfície, de modo que eles parecem ter vindo a partir do solo. Em síntese, a imagem que vemos é real, não é uma ilusão, a interpretação de nossa mente (espelho d’água) é que é incorreta.

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O termo miragem tem origem na expressão francesa se mirer que significa mirar-se, ver-se no espelho. Assim miragem, ao contrário do que o senso comum dita, é um fenômeno  real; não é uma ilusão óptica. O mesmo pode ser dito para o que é ser um fã.

O primeiro passo de ser um fã é mirar-se, ver-se no espelho. No caso o espelho, pode ser um ídolo, um personagem ou uma história. Mirar-se é se colocar naquela situação, vivendo-a não como um observador passivo, mas como um agente projetado. Para Matt Hills (2002) essa projeção do Eu no outro não reflete falta de personalidade ou uma disfunção identitária, uma vez que para personificar um ídolo, um personagem ou uma história, é necessário que o fã se conheça e esteja perfeitamente consciente de si próprio. A mente projetada de um fã permite-lhe dar continuidade ao seu interesse e reforçar a sua própria identidade  através da autoconsciência,  que por sua vez lhe permite assumir por alguns momentos uma nova identidade e vivenciar novas situações (Hills, 2002).

Além disso, mirar-se num espelho, envolve não apenas fascinação ou adoração, mas também frustração e antagonismo, e  é a combinação dessas duas reações que motivam o engajamento ativo dos fãs na produção criativa de fanfics, fanart, fanvideo, entre outros. Porque as narrativas  com frequência não satisfazem completamente os fãs, e eles precisam lutar com elas, tentando articular entre eles possibilidades não realizadas dentro da narrativa original (JENKINS, 1992).

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Assim, os fãs vêem a adesão ao fandom como um movimento que parte do isolamento cultural e social em direção a uma participação ativa em um grupo receptivo às suas produções (JENKINS, 2006). Nesse ambiente, os fãs dividem referências, interesses e um senso comum de identidade que faz com que eles tenham a sensação de pertencer a um grande grupo, que não se define por termos tradicionais como raça, credo, gênero, classe social ou localização geográfica, mas por indivíduos que compartilham textos e conhecimentos. Estar nesse grupo é buscar uma aceitação que tem mais a ver com o que você tem a acrescentar à comunidade do que quem você é (JENKINS, 2006).

No entanto, como no fenômeno de miragem, a informação sobre nossos ídolos, personagens ou histórias  podem sofrer  um tipo de refração  até chegar aos nossos olhos,  causada principalmente pelos elementos da nossa atmosfera cultural (mídias, entrevistadores, agentes publicitários, mercado) ou pelo filtro do próprio ídolo. E então vemos uma imagem distorcida, invertida ou trêmula do objeto real.  Muitas vezes  o que pensamos ser o objeto real é a reflexão de nós mesmos. Isso não que dizer que seja uma ilusão, é real para nós, somente a interpretação de nossa mente sobre o objeto real é que pode estar incorreta.

Referências

JENKINS, Henry. Textual poachers: television fans and participatory culture. New York: Routledge, 1992.

JENKINS, Henry; Introduction: “Worship at the Altar of Convergence”: A New Paradigm for Understanding Media Change. In Convergence culture: where old and new media colide, New York University Press, Nova Iorque e Londres, 2006.

HILLS, Matt; Cult Bodies. Between the ‘self’ and the ‘other’ in Fan Cultures, Routledge, Londres e Nova Iorque, 2002.

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Debaixo de suas roupas

Há uma história sem fim

Há o homem que eu escolhi

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1-03.jpgA escritora Joanna Novins em seu ensaio Do Clothes Make the Man? chama a atenção para os figurinos dos personagens masculinos das séries de TV que reforçam o seu cárater bad boys, e portanto o seu sex appeal  junto ao público feminino. Afinal, quem consegue resistir ao chápeu off-white de Raylan em Justified ou o couro preto de Guy of Gisborne na série Robin Hood?

No mundo ocidental contemporâneo, as roupas não são apenas vestimentas que protegem o corpo. Elas são partes da nossa existência, traduzem estados de espírito e identidades pessoais. Preenchem o mundo dos significados e nos ajudam a construir diversas narrativas sobre quem somos ou como queremos ser vistos (Lage, 2011).  Assim, Lars Svendsen (2010), em seu livro Moda – Uma Filosofia,   argumenta que  uma compreensão da moda deveria contribuir, para uma compreensão de nós mesmos e de nossa maneira de agir.  Então, se a roupa faz o homem, como questiona J. Novins,  uma compreensão da nossa atração pelas roupas desses personagens deveria contribuir para o nosso entendimento do que buscamos em nossos parceiros.

Em geral, esses   personagens usam cores escuras, um casaco de couro preto, combinado com jeans que são o uniforme do bad boys. Os jeans surgiram como uma peça de roupa da classe trabalhadora, mas logo foram incorporados pelos artistas, depois pelos ativistas políticos de esquerda e gangues de motociclistas, algo que lhe deu um caráter de expressão de oposição ao statusimage quo (Svendsen, 2010) . 

Os bad boys, Damon Salvatore, interpretado por Ian Somerhalder e Jim Stark, interpretado por James Dean.

Mas o quem fez a combinação jeans e jaqueta de couro torna-se um símbolo de uma figura trágica romântica foi James Dean, que no célebre filme Juventude Transviada vestia uma calça Levi’s e representava um personagem símbolo da periferia das grandes cidades, que levavam uma vida desesperadamente monótona em meio ao conforto material e ao vazio social e afetivo. A partir daí, as palavras jeans, juventude e contestação nunca mais se separaram (Veríssimo, 1998).

Você é uma canção escrita pelas mãos de Deus
Não me entenda errado
Mas você é o dono do lugar1

Outro ponto é que esses caras possuem um estilo. O estilo é uma expressão da vida que o indivíduo constrói. Uma manifestação de sua individualidade. Nos dois casos, a percepção pessoal seleciona, da interação com o mundo externo, os elementos – símbolos, fatos,   objetos, emoções, etc. –, o que melhor possibilitem a produção de um repertório cognitivo. Conferindo, assim, significado às experiências vividas e estruturando-as no mundo interno (Scardua, 2009).

Embora, o estilo bab boy possa nos remeter ao mundo do rock, ele está ligado a um arquétipo masculino muito mais antigo, a do guerreiro. Uma das características desse arquétipo é a agressividade, que é uma atitude em relação à vida, que estimula, energiza e motiva. Força-nos a tomar a ofensiva e sair da posição de "defesa" diante dos problemas que surgem na vida. O lema do samurai é sempre "saltar" para o confronto, com toda a sua "energia vital". O guerreiro sabe o que quer, e sabe como consegui-lo. Ele é estratégico e tático, avaliando de forma realista as circunstâncias e as suas limitações, se adaptando à situação (Moore & Gillette, 1993). 

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À esquerda, James Hetfield,  frontman da banda de trash metal Metallica, e seu estilo Seek & Destroy. À direita , Guy of Gisborne, interpretado por Richard Armitage e sua vestimenta de guerreiro-samurai.

O guerreiro é consciente da iminência da própria morte. Ele sabe que a vida é frágil e curta. Em vez de deprimi-lo, essa consciência faz com que haja um grande fluxo de energia vital que o leva a vivenciar intensamente a sua vida, de uma forma que só ele conhece. Cada ato é importante. Cada ação é realizada como se fosse a última. Não há tempo para hesitações.  Ele não "pensa demais", porque pensar muito leva à dúvida, e esta à hesitação, que conduz à inércia. E a inércia pode causar a perda da batalha (Moore & Gillette, 1993).

A energia do Guerreiro também mostra o que chamamos de compromisso transpessoal. Sua lealdade é para com algo — uma causa, um deus, um povo, uma tarefa, uma nação — maior do que o indivíduo. No entanto, essa devoção ao ideal ou meta transpessoal, a ponto mesmo de se anular, leva o homem a outra característica do Guerreiro. Ele é uma pessoa emocionalmente distante enquanto estiver com essa energia. O que não significa que o homem  seja cruel, apenas não toma suas decisões baseado numa relação emocional, exceto com o seu ideal (Moore & Gillette, 1993).

Assim, talvez pela influência desse arquétipo, o estilo bad boy seja um dos que mais ressalta a  masculinidade tal como é conhecida na nossa sociedade. Embora originalmente a indumentária do guerreiro vise a proteção do corpo, ao fazê-lo ela também ressalta o seu aspecto de sedução, porque ela evidencia algumas partes julgadas como particularmente atraentes pelo sexo oposto, como por exemplo o torax.

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O Diabo veste Prada – James Hetfield, frontman do Metallica, com seus óculos Prada e Lucas North, personagem de Richard Armitage com sua jaqueta Belstaff.

Embora o estilo seja aparentemente composto por peças básicas, de cárater igualitário, ele ganhou uma diferenciação com designs mais clean e o acréscimo de  marcas. Assim, ele pode ser um indicativo da  classe e status social,  área de atuação profissional,  um estilo de vida mais urbano ou rural. Mas acima de tudo ele se deixa envelhecer, trazendo a informalidade  da juventude, sem que o homem aparente ter um complexo de Peter Pan.

Assim, num primeiro olhar, esse bad boy pode parecer rude e mal-humurado. Alguém que não parece  capaz de manter um emprego. Na melhor das hipóteses, ele é um bêbado. Na pior das hipóteses, ele mau e destrutivo, e pode está envolvido em coisas ilegais, que acrescentou a sua lista a palavra perigoso (Novins, 2012). Mas um exame mais atento, além das aparências, pode revelar que debaixo de suas roupas há o homem que é o nosso par perfeito. E que a nossa primeira impressão estava surpreendemente errada.

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Debaixo de suas roupas

Há o homem que eu escolhi

É o meu território

E todas as coisas que eu mereço

Por ser uma boa menina, querido1

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Referências

1. Underneath Your Clothe – Shakira

 

 

 

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Através da névoa, eu sigo meu caminho. Eu não quero estar com medo. Morrer por dentro para poder respirar. Esquecer quem eu sou para que o seu mundo faça sentido.  A noite se aproxima, e eu irei cantar a canção da Lua novamente. Invocar  a energia psiquica e o inconsciente que guarda todos os segredos da sabedoria e do conhecimento. E então eu irei descobrir o meu prórprio caminho.

Eu irei chamar com o meu uivo, o cão lunar da minha alma. Por favor, não queira ser meus olhos e ouvidos, pois os meus sentidos são bastante apurados e eu conheço os caminhos que me levam a novos mundos e que me trazem de volta ao lar.

imageNão tente me assustar, eu não irei me perder pelo caminho.  Eu sigo o lobo e a  lua cheia  ilumina o meu caminho. Como ele, eu sigo os meus instintos. Eu levanto o meu nariz ao vento, eu inspiro os seus cheiros. Orelhas alertas, eu escuto os sons da vida. Eu mudei, e posso parecer um pouco quebrado, mas minha essência  permanece.  Então, eu não sou  um estranho em minha própria pele.

Aos seus olhos posso  parecer distante ou preso em outro mundo. Mas eu não estou mais ferido, e essas cicatrizes embora permaneçam comigo, elas apenas dizem aonde eu estive e não aonde eu irei.

imageEu caminho com o meu lobo e  não tenho medo de desbravar novos caminhos. Sentir a terra pulsando, correr pelo mundo e caçar o  meu próprio alimento. E  voltar para compartilhar o alimento adquirido.

imageEu não sou mais aquela menina insegura ou dolorosamente tímida implorando a sua aprovação. Eu não sou um estrangeiro em meu próprio território. Eu encontrei o cão lunar da minha alma.  Eu simplemente não estou mais só.

image E me sinto inteira novamente. Eu tenho uma voz, e eu serei ouvida por todos aqueles que entoam a canção da noite. A canção da Lua. Eu compartilharei segredos e quebrarei promessas.

Embora eu não esteja mais com raiva, eu estou cansada de me sentir estagnada, esperando você me olhar. E apesar de suas mentiras, eu sei que você me vê. E você sabe que eu sinto a sua solidão e frio. Eu conheço os seus caminhos, se  anestesiar por dentro para permanecer vivo.  Para não sentir  a dor.  Mas esse é um remédio que mata por dentro. E eu quero viver.

imageO alívio existe e eu o encontro quando eu aceito ser quem eu sou. Quando eu aceito que você está simplesmente errado.  Que é você quem não conhece os caminhos e se perdeu na escuridão da sua alma. imageO seu coração se guia apenas pelo seu egoísmo, e isso não me fere mais. Você perseguiu e matou o lobo, mas ele vive dentro de mim. E a lua prateada ilumina os seus pêlos em minha nuca.  Você saberia disso se apenas me olhasse nos olhos.  Você conheceria a verdadeira natureza da minha alma. Mas agora é muito tarde e nossas escolhas apenas nos distanciam cada vez mais.

A noite se aproxima e eu ouço a  canção da Lua. Ela me diz que eu irei continuar a uivar, cantar e viver. Que um novo sol se levanta por mais escura que seja a noite. comportamento-dos-lobos A matilha me chama com seus uivos distantes. Eu não sou um desconhecido em meu próprio mundo.

Eu ouço a canção lunar,  e  agora eu compreendo o caráter único de cada personalidade e a beleza de ser quem você é. Eu não tenho medo de redescobrir os meus talentos e  dons naturais. Eu não sou um estrangeiro em meu próprio território.  Eu sou o cão lunar da minha alma, e eu sou livre para ser-lo.

imageViver é crescer, e crescer é aceitar que todas as formas de vida podem ser nossos mestres.  Basta  solicitar sua orientação. Minhas mãos se prendem ao pêlo do lobo, e ele caminha ao meu lado. O lobo conhece os caminhos.

O caminho é estar disposto a subir montanhas, adentrar florestas, caminhar em desertos, cair em abismos e sair de lá com a força de ser quem você é. Pronto  para tornar-se o seu próprio mestre. Pronto para compartilhar a canção da Lua com a sua matilha. Pronto para tornar-se Uno com a própria Lua.

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series8-35

E depois de tudo, céu e terra aí estão, como se nada tivesse acontecido. Um bom dia para estar vivo, Senhor. Um bom dia para estar vivo, ele respondeu1. Ora, que tudo vá pra o inferno, pensou Lucas North2. Apenas sinta-se bem neste momento. A chuva caia lentamente enquanto  caminhava. Não prestava atenção ao trovão longínquo.

O trabalho estava feito. Fora um herói por um dia. Não se sente bem dessa forma? Todas as peças se encaixam como notas musicais de uma grande sinfonia. Orquestrada por uma mão invisível chamada destino3. Não podia vencê-lo apenas por um dia? Arriscara sua vida numa roleta russa. Suas apostas foram altas e todas as peças tombaram a sua vontade. E um novo dia nasceu em sua mente. Não podia ser um herói apenas por um dia?

series7-81Apenas vire e escolha a direção certa. Súbito, imagens de sua infância vieram a sua mente. Mãos pequenas agarravam-se as suas. O menino que ele foi um dia. Uma profunda angústia refletia-se em seus olhos. Passou-lhe a mão na cabeça e disse: Apenas reze por bons sonhos, garoto. Pois em qualquer trilha do destino, você será instado a escolher não uma, mas inúmeras vezes3.

Escolha a direção certa. Não tenha medo. Não preste atenção aos clarões longínquos1. As trilhas do destino se bifurcam, se dividem e se reconectam. A cada passo você faz uma escolha e toda escolha resulta em novas trilhas3. Apenas  encontre a direção certa, garoto.

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Os olhos do garoto o acompanhavam enquanto ele se distanciava lentamente pela ruas da cidade. Um anjo pálido na escuridão. Não prestava atenção as trilhas do destino e uma única trilha luminosa se estendia às suas costas3. Enquanto à sua frente era apenas escuridão.

Fora o herói por um dia. Apenas sinta-se bem por um momento, pensava.  Mas há muito tempo não sentia nada, nem mesmo tristeza. O vazio o preenchia. Não prestava atenção aos olhares aflitos que cruzavam o seu caminho.

Apenas sinta-se bem nesse instante  em sua rota de colisão com o seu grande momento. Riu consigo mesmo, dizem que nem mesmo o destino sabe onde qualquer caminho pode levá-lo. E se soubesse ele não o falaria. Destino adora guardar segredos3.  E todas as peças tombam à sua vontade.

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Fora o herói do dia. Não se sente bem dessa forma? Não podia simplesmente ser o herói por mais um dia? Não podia simplesmente vencê-los?  Um bom dia para estar vivo, senhor. Um bom dia para estar vivo, ele respondeu.

Apenas vire-se e escolha a direção certa. Não preste atenção ao trovão longínquo. Sinta-se bem apenas por um instante, pensava enquanto caminhava.

Então eis que surge aquela luz no fim de seu túnel. Apenas sinta-se bem em sua rota de colisão com seu grande momento2.  Não se sente bem deste modo? Em sua rota de colisão.

Então eis que surge aquela luz no fim de seu túnel. Era apenas um trem de carga vindo em sua direção.  Vindo em sua direção2.

Referências

1. No Leaf Clover é a oitava música do álbum ao vivo S & M, da banda Metallica, gravado com a Orquestra Sinfônica de São Francisco em 1999.

2. Lucas North, personagem retratado por Richard Armitage, nas temporadas 7, 8 e 9 da série Spooks, produzida pela BBC, de 2002 a 2011.

3. Sandaman é uma história em quadrinhos criada por Neil Gaiman em 1988, pela Editora DC Comics. Aqui são citadas frases de Destino um dos sete Perpétuos.

4. Todas as imagens estão disponíveis em RichardArmitageNet

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Desapareci há cerca de um ano, naquele dia recebi uma carta. Ela me levou ao alto das montanhas, onde a minha vida com as águias começou. Por favor, perdoe-me pelo longo silêncio (Colbert, 2005). Esta carta rompe esse silêncio, nos unindo novamente em palavras e pensamentos.

Naquele dia, enquanto meus pés vagavam atravessando as colunas do templo, meus olhos percorriam as montanhas solitárias. Meus olhos vagavam sem destino até avistar as asas da liberdade, as asas da Harpia1. Então o sol despertou-me  inundando-me com luz e rompendo a escuridão dos meus dias. E assim meu coração de águia começou a pulsar.

Nós somos águias. Somos feitos para a liberdade e não para o cativeiro. Temos dentro de nós o chamado para o céu infinito, o chamado dos picos mais altos das montanhas. O chamado para a maior das realizações, a realização plena do nosso ser.

imageNossas almas almejam a luz do sol.

A integração do nosso ser ao Grande Espírito. Nossas penas  anseiam o voo rumo ao impossível, ao inalcançável e ao inimaginável. Anseiam o mundo que vai além das cercas que limitam nosso pequeno universo, feito de parcos desejos e interesses mundanos. Nossas asas desejam romper o comodismo, o conformismo, os padrões de pensamento repetitivos, alçando nossa mente a uma realidade muito mais ampla (Boff, 1997).

Nas asas da águia descobri que não bastava apenas libertar-me dos grilhões que me prendiam ao chão, do medo do desconhecido, da segurança da vida ordinária. Mas precisava libertar-me para: para a realização de minhas potencialidades, para a realização do meu próprio destino, para a realização de minha natureza de águia (Boff, 1997). Dei-me conta que também podia e devia voar penetrando no céu infinito do meu próprio ser.

Convivendo com as águias percebi que a nossa existência não está pronta, que devemos construí-la continuamente. Não importa as coisas que nos aconteceram, mas sim como reagimos a elas. O decisivo são os sentimentos, os valores e as visões que elaboramos em contato com as aventuras e desventuras da nossa vida (Boff, 1997). O que importa é o crescimento que elas nos proporcionam.

Voe. Ouça a canção da águia, busque a recuperação da sua alma selvagem, da sua natureza criativa, livre e em comunhão com o Divino. A domesticação excessiva faz com que deixemos de ser quem realmente somos para ser quem “os outros” desejam que sejamos. A domesticação nos afasta do nosso verdadeiro ser e do nosso destino. Voe o caminho da águia. Voe ao céu infinito.

Voe, voe, voe.

Referências e Legendas

1. A harpia (Harpia harpyja) é uma das maiores aves de rapina do mundo, com envergadura de 2,5 metros e peso de até 10 kg.O habitat principal são as florestas tropicais e a espécie se dispersa geograficamente do México à Bolívia, na Argentina e em grande parte do Brasil, notadamente no Amazonas, vivendo em árvores altas, dentro de vasta mata, onde constrói seus ninhos. Habitava as matas brasileiras de forma abrangente. Hoje pode ser encontrado na Amazônia e visto raramente na Mata Atlântica. Na região amazônica da Guiana, onde foi bem estudado, verificou-se que é um predador sobretudo de mamíferos.

2. Colbert, G. 2005. Ashes and Snow, um filme de  Gregory Colbert,  que usa fotografias e cameras cinematográficas para explorar a interação entre os humanos e animais. Feito em 60 minutos é uma narrativa poética antes do que um documentário. O objetivo é retirar as barreiras naturais e artificiais entre humanos e outras espécies, dissolvendo a distância que existe entre eles. http://www.ashesandsnow.org/

3. Boff, L. 1997. A águia e a galinha. Uma metáfora da condição humana. Editora Vozes. Petropólis, Brasil.

A águia e a galinha.
Leonard Boff
Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos, esse homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
- De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei cimo galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
– Já que de fato você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
– Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
– Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurou-lhe:
– Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
– Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
– Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
– Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra as suas asas e voe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento…”

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All I really need to know about how to live and what to do and how to be I learned in kindergarten. Wisdom was not at the top of the graduate school mountain, but there in the sand pile at school. These are the things I learned:
Share everything.
Play fair.
Don’t hit people.
Put things back where you found them.
Clean up your own mess.
Don’t take things that aren’t yours.
Say you’re sorry when you hurt somebody.
Wash your hands before you eat.
Warm cookies and cold milk are good for you.
Live a balanced life – learn some and think some and draw and paint and sing and dance and play and work every day some.
Take a nap every afternoon.
Goldfish and hamsters and white mice and even the little seed in the Styrofoam cup – they all die. So do we.
When you go out in the world, watch out for traffic, hold hands and stick together.
Robert Fulghum1

I found this text a few years ago and it made me laugh like never before, because it was really right. All I needed to know about living, what to do and how to be I learned in kindergarten. Throughout my academic life, from undergraduate to PhD, nothing was more important than the lessons of kindergarten. And nothing was more difficult than learning how to fix our own mess and apologize if someone hurt!
However, the best time in kindergarten was the time when the teacher opened the books and told us little stories. Stories of pirates, princesses, ghosts and talking rabbits. Legends of Boitatá, Saci Pererê and Curupira. Stories that populated our imaginations and gave us the information needed to understand the world around us. With her  calm and melodious voice, usually the half light, she turned fantasy into reality, evoking emotions and gave wings to our imagination. We came back home as dragon knights, fearsome pirates or enchanted princesses.
The stories I liked best were the Jungle Book, a collection of stories by Rudyard Kipling, a British writer who lived in India for 10 years and was inspired by local stories and legends to create his most famous short story “The Brothers of Mowgli”.  This tale is the story of Mowgli, an Indian baby that was found by wolves after his parents suffer an attack of a  tiger, than he was accepted in the pack at the request of Bagueera, the black panther and Baloo the bear, who teaches the boy the laws the forest. Ten years after Mowgli is no longer accepted by the wolves, influenced by the tiger Shere Khan, and is expelled to the village where he must learn to be a man. Thus, the trajectory is the story of Mowgli how to grow and find the world to which you belong.
Upon hearing the story of Mowgli in kindergarten, I never imagined I would live it many years later, as a biologist, studying the ecology and behavior of the maned wolves in Brazilian savanna, locally known as Cerrado. And certainly I would live four years in the Brazilian Pantanal, one of the few places which still an abundant and diverse wildlife, learning with wild animals to be a human.
Today on my birthday, I just want to find all my family and friends, panthers, bears, wolves, those who walk on two legs and those who walk on four paws, those who fly across the vitual world and those who fly with imagination and sing the Baloo’s song “Bare Necessities”: friends, home, health, work, entertainment and art.

Look for the bare necessities
The simple bare necessities
Forget about your worries and your strife

References and Subtitles

Figure. Room 3 Kindergarten – Educator Filomena Matos. Available in http://cibelo-morais.blogspot.com/2010/12/contos-pela-paz-cibelo-morais.html

1. Fulghum, R. 1988. All I had to know in life I learned in kindergarten. Best Seller Publishing, São Paulo.
2. Brazilian folklore.
Boitatá
Represented by a snake of fire to protect the forests and animals and has the ability to pursue and kill those who disrespect nature.
Curupira
Like Boitatá, curupira is also a protector of forests and wildlife. Represented by a dwarfwith long hair and feet turned backwards.
Saci Pererê
The Saci Pererê is represented by a black boy who has only one leg. Always with his pipeand a red cap that gives you magical powers. Lives ready antics and has great fun with it.She loves horses wonder, wake up burning food and people with laughter.
3. Klipling, R. 2009. The Jungle Book. Editora Scipione, Sao Paulo.
4. Song “Bare Necessities” by Terry Gilkyson theme of the character Baloo in the movie Jungle Book, Disney.

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