Texto por Ana Cris, Pesquisa por Ana Cris e Fabi
Por minhas barbas! Disse Thorin.
—Você não ouviu nossa música?
O Hobbit1
Quando alguém menciona canções de anões, lembramos logo de "Eu vou"2, cantada pelo anões do filme de animação Branca de Neve e os Sete Anões (1937) da Walt Disney, escrita por Frank Churchill e Larry Morey. Porém, muitos poemas que Tolkien escreveu para os Anões, não são apenas versos incorporados na história, eles são canções cuidadosamente projetadas para ilustrar quem são os Anões da Terra-Média.
No entanto, como destaca Corey Olsen, autor do livro Exploring J.R.R. Tolkien’s The Hobbit3 (2102), um dos elementos mais subvalorizado de O Hobbit são as suas poesias e canções. A maioria dos leitores passa rapidamente sobre eles ou até mesmo ignora-os, perdendo assim alguns dos momentos literários mais pensativos e inspiradores do autor4. Assim, o que podemos aprender sobre os anões por ir além da canção “Eu vou”, adentrando o mundo de Tolkien, nas vozes de seus novos interpretes ?
Como acontece em muitas obras literárias, as músicas e poesias de Tolkien são expressões de memória (olhar para o passado) e de desejo (olhar para futuro), em outras palavras, são expressões do espírito5. Assim, a canção Misty Mountains6, narra a história da perda de Erebor e nos fornece insights sobre o desejo do coração dos anões.
A canção começa com uma estrofe que aparece três vezes ao longo dela, e serve como declaração das intenções da busca dos anões. Eles explicam aonde estão indo: para seu antigo lar subterrâneo (Adentrando cavernas, calabouços cravados). Ilustram como aquele destino está longe deles, tanto em termos de distâncias quanto de obstáculos que o separam de sua terra natal (“Para além da montanhas nebulosas, frias”). Registram a urgência de seu desejo de regresso (Devemos partir antes de o sol surgir). E o mais importante, descrevem a motivação principal: o retorno de seu tesouro mágico e perdido (Em busca do pálido ouro encantado). Essa estrofe sozinha oferece a maior parte da explicação sobre a busca dos anões3.

Entretanto, se quisermos entender Thorin e companhia, temos que olhar além da superfície. Personagens de Tolkien possuem complexidade e profundidade psicológica, não sendo facilmente classificados em heróis ou vilões. Como nós, humanos, eles estão presos entre impulsos conflitantes. Assim, nas estrofes seguintes de Misty Mountains temos um insight sobre a natureza dual dos anões, representada pelos cenários sombrios e cobertos de penumbra subterrânea, onde luz e sombras coexistem.
[...] Então o objetivo de Armitage foi descobrir tanto a luz e a escuridão dentro de Thorin, porque há sempre um pouco de ambos em cada um de nós.
Fault Magazine
É a partir de calabouços vazios e cavernas profundas, que o canto grave dos anões ecoam acompanhados pelos martelos a soar. Um canto cheio de tristeza e melancolia, pois nasce da escuridão da terra, onde dorme a incerteza.
Um exame mais detalhado dessa escuridão – isto é, as inferioridades que constituem a sua sombra – revela que eles têm uma natureza emocional, e, consequentemente, qualidades obsessivas, ou, melhor, possessivas em relação aos seus afetos.
Para seu uso taças foram talhadas
E harpas de ouro. Onde ninguém mora
Jazerem perdidas, e suas cantigas
Por homens e elfos não foram ouvidas.
Afetos (i.e. paixão) geralmente ocorrem onde a capacidade de adaptação é mais fraca, e, ao mesmo tempo os afetos revelam a natureza para essa fraqueza e a existência de um nível inferior da personalidade. Neste nível, com suas emoções descontroladas ou mal controladas, a pessoa se comporta como um ser primitivo, que não é apenas uma vítima passiva do seus afetos, mas singularmente é incapaz de julgamento moral7. Em geral, os afetos consomem uma grande parte da energia vital e são o núcleo do seu sofrimento.
No entanto, os trabalhos que anões realizam são associados com a luz. Eles transformam a matéria bruta em objetos de rara beleza. Capturam a luz “nas gemas do punho da espada”. Enfileiram estrelas em colares, fazem coroas de fogo de dragão e fundem a “luz do sol e da lua” em cordão. As suas gemas são o seu sol e sua lua, o foco de seu amor e paixão, mas também representam a sua função no mundo: plasmar a luz a partir do mundo das sombras3.
Também, no coração dos anões está o desejo de vingança contra o dragão, e é no contexto de sua privacidade que os anões falam a respeito da perda e destruição de seu reino. No entanto, a canção nunca realmente descreve Smaug, o dragão. Ele não é o personagem desta canção. Em vez disso, os anões descrevem os efeitos da vinda dele em suas vidas. Assim, a história que Thorin e sua companhia cantam é contada de maneira a manter o foco sobre as vítimas mortas pelo dragão e sobre a destruição provocada por ele3.
Sob a luz da lua fumavam montanhas;
Os anões ouviram a marcha final.
Fugiram do abrigo achando o inimigo
E sob os seus pés amorte ao luar
É o que os anões querem lembrar. É esse sentimento de perda e destruição que não os deixam esquecer o dragão. A estrofe final da canção indica a atitude e o comprometimento dos anões com o seu próposito “reconquistar dele nossas harpas e nosso ouro”. A força do desejo de vingança e a lembrança de seus afetos os impulsionam em sua busca. Mas novamente luz surge a partir de suas sombras, pois igualmente a sua busca está comprometida com os valores da alma: nobreza, lealdade, verdade e justiça para o seu povo. E pelo seu povo que Thorin e companhia estão dispostos a sacrifica-se por inteiro. E a morte da personalidade em prol dos valores da alma faz brilhar a alma.
Referências
1. Tolkien, J. R. R. The Hobbit or There and the Back Again. Harper Collins Childre’s Book.
2. Branca de Neve e os 7 anões – Eu vou
3. Olsen, C. 2012. Explorando o universo do Hobbit. Ed. Lafonte, São Paulo.
4. Olsen, C. 2012. Why J.R.R. Tolkien’s ‘The Hobbit’ Isn’t Just For Kids. The Wall Street Journal.
5. Stanton, Michael. Hobbits, elfos e Magos. Editora Frente. São Paulo.
6. Misty Mountains performed by Richard Armitage and The Dwarf cast.
7. Carl G. Jung (Author), R. F. C. Hull. The Portable Jung. Penguin Books, USA
8. Images from Jackson, P. 2012. The Hobbit: An Unexpected Journey (2012)
2. Bruno Bettelheim. A Psicanálise dos Contos de Fadas. 16a Edição – PAZ e TERRA – 2002 Traduzido do original em inglês: 
A escritora Joanna Novins em seu ensaio 



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