Feeds:
Posts
Comentários

Posts com Tag ‘Animais de poder’

Na dimensão dos sonhos, eu e minha prima estávamos num mar azul cristalino, quase sem ondas. Mergulhavamos no azul infinito e em intervalos regulares retornavamos a superficie para respirar. Num desses mergulhos, avisto um golfinho, e sinalizo para a minha prima, que irei tentar me aproximar dele. Eu nado lentamente, diminuindo a distância entre nós. O golfinho se aproxima, cortando a  superfície da água, e eu toco o seu nariz levemente com a ponta dos meus dedos. Eu sorrio para minha prima, que está distante de nós.

IMG_2324

Abel Tasman National Park, Nelson, Nova Zelândia (Photo: Ana Cris)

Então mergulho, e tento seguir o golfinho, que nada  rapidamente, indo cada vez mais fundo. A cor da água continua cristalina e eu me perco  no meio das bolhas  de ar caóticas que surgem ao meu redor. Eu nado sem direção através delas,  mas elas não oferecem nenhuma indicação do paradeiro do golfinho.  No entanto, adentrando águas cada vez mais profundas eu consigo localizar o golfinho,  e resolvo me aproximar dele.  Ele nada lentamente, e eu consigo tocar o  seu  corpo, percebendo, então,  que uma de suas nadadeiras está presa por uma rede de pesca.

IMG_1210

Golfinho-rotador (Stenella longirostris), Fernando de Noronha, PE – Brasil
(Photo: Camila M Câmara)

Eu volto para a superfície e conto para minha prima que o golfinho está preso numa rede e devemos obter ajuda. Ela me conta que há uma equipe de TV que está filmando os golfinhos, e que eles dizem que não há nada que pode ser feito por ele. Eu digo para ela que isso é uma imensa bobagem. Então volto para o golfinho, e penso comigo mesma: Bom, isso é um problema que somente nós podemos resolver. Ele parece concordar. Assim, eu começo o difícil trabalho de solta-lo da rede, nadando ao seu lado, cada vez mais profundamente. Eu sinto medo, o que acelera a liberação do ar, e consequentemente eu perco o ritmo respiratório. No entanto, eu  finalmente  o liberto, e ele nada livremente, enquanto eu retorno rapidamente à superfície para respirar. Eu acordo com uma crise de asma e toco o golfinho celta que tenho tatuado no meu ombro direito.

Golfinho
Golfinhos na barraNa respiração rítmica me ensina a fluir com a vida
A unir mente, corpo e espírito,
em paz nos dois mundos que me encontro.

Boto-cinza (Sotalia guianensis), Barra do Paraguaçu, Bahia, Brasil (Photo: Instituto de Mamíferos Aquáticos)

O golfinho emerge do mundo das águas para nos ajudar a nos conectar com a parte mais profunda e contemplativa do nosso ser. Eles vão a superfície para respirar o ar, que representa o intelecto e mergulham de volta nas qualidades emocionais dos corpos dágua que o cercam. Ele cria seu próprio ritmo vital ao nadar em meio às ondas, emergindo a intervalos regulares para respirar e submergindo novamente, mantendo o fôlego enquanto permanecem embaixo d’água. Assim, o golfinho é o guardião do sopro sagrado da vida e nos ensinam a modular nossas emoções pelo ritmo da respiração.   São animais altamente inteligentes, que interagem  com o seu ambiente por  meio da ecolocalização; habilidades que representam  suas qualidades de comunicação psiquica.  Eles nos ensinam a modular  nosso som interno, juntamente com a respiração, para alcançar nossos desejos. Quando um golfinho aparece em nossa vida ele nos convida a prestar atenção aos ritmos da natureza, das marés, do nosso corpo e do nosso padrão energético e de comunicação. 

CNV000035

Boto-cinza (Sotalia guianensis), Barra do Paraguaçu, Bahia, Brasil

(Photo: Instituto de Mamíferos Aquáticos)

DSC08576_thumb[3]Deilf, meu golfinho celta, surge da Dimensão dos Sonhos  para me guiar no mar do meu mundo interno. Seu nado rápido e sem direção, produzindo inúmeras bolhas de ar indicam que o envolvimento em muitas idéias e projetos podem sobrecarregar a psique e levar à desorganização e improdutividade. Ele me convida a restabelecer o  ritmo interno, evitando o excesso de indulgência, que pode me levar a um comportamento irresponsável e imprudente. Comportamentos, que por sua vez, podem manifestar-se em apego as ilusões e falta de foco. Ele me lembra que se não desenvolvermos um ritmo para atingir nossos objetivos, podemos sucumbir a sentimentos de depressão e auto-recriminações, mergulhando em emoções negativas que nos imobilizam numa rede de pesca. É importante compreender o poder do ritmo em nossas vidas, estando atento as nossas escolhas e compromissos, modulando nossas emoções para alcança-los. Envolvendo-nos em atividades criativas que são nutritivas, ao invés daquelas que causam a depleção da nossa energia vital. O golfinho me convida a mergulhar fundo nas energias emocionais e   canaliza-las  para um resultado produtivo, estabelecendo o ritmo respiratório e obtendo o sopro vital necessário para nadar nas águas da vida.

Espírito do Golfinho
Respire comigo
Ajude-me a conecta-me com o Sopro Divino
Maná do Universo.

Read Full Post »

O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.
Deitar-me faz em verdes pastos,
guia-me mansamente a águas tranquilas.
Salmos 23:1-2

Texto Ana Cris, Pesquisa Fabi e Ana Cris, Ilustração Sebastian

IMG_3187

Morelea Farm, Nova Zelândia (Photo: Ana Cris) 

John1 era um menino que prestava atenção a tudo.  Às vezes ele ficava reparando nas coisas que todo mundo vê. As margaridas na janela, as folhas balançando com o vento, as ovelhas pastando. Mas outras vezes, mesmo de dia, mesmo acordado, mesmo de olhos abertos, ele ficava tão distraído que nem respondia quando falavam com ele. Nessas horas, o avô de John costumava dizer. — Ele está espiando para dentro. E estava mesmo2. E aí ele via coisas que muita gente não conseguia ver, pois John sabia se comunicar com seu mundo interior e os tesouros que lá se encontravam3.

Assim, quando ele sentava na cadeira de balanço do avô e espiava para dentro logo estava enfrentando um mar agitado num navio de piratas2. Ou quando ele cuidada das ovelhas e espiava para dentro,   estava numa floresta, cheia de animais falantes.  Em qualquer lugar, John conseguia sair e espiar para dentro. E isso começou a virar mania. Foi assim, que ele conheceu um carneiro chamado Oak-hearted, e eles se tornaram grandes amigos.

JS

John Standring by Sebastian

Com o tempo John foi achando que no mundo de dentro tudo era tão mais divertido do que fora, então ele teve um plano2.

—Sabe Oak, ando com vontade de me tornar um carneiro e ficar aqui para sempre.

— Para sempre? — perguntou Oak.

— Para sempre, respondeu John. Aqui é onde faço tudo o que quero.

Oak respirou fundo e disse.

—Eu acho que para sempre é tempo demais!

Mas John não lhe deu ouvidos e continuou com seu plano. Resignado, Oak disse:

— Bom, para ser um carneiro você deve manter laços fortes com a sua infância, com as qualidades da sua criança, tais como a gentileza, a inocência e a vulnerabilidade4. Ser um carneiro significa que você irá aprender a entrar em contato com uma parte mais vulnerável de si mesmo. Mas de um modo positivo, ou seja, aberto, disponível para sentir de uma forma suave e inocente. Você terá que aprender a aceitação compassiva das limitações dos outros e da dor. E terá que ser mais tolerante com você mesmo. Olhar para o sofrimento emocional que você poderá vir a experimentar com compaixão e aceitação, cuidando de si mesmo e dos outros ao invés de culpa-se ou revoltar-se com a vida4.

IMG_3126_thumb[15]_thumb[4]image
Ovelhas, Nova Zelândia (Photo: Ana Cris) 

E assim, o tempo passou e John cresceu, tornando-se um homem gentil  e prestativo. E de tanto espiar para o mundo de dentro, ele  começou a  perceber as sutilezas que os outros não percebiam.  Introvertido, sua forma de trabalho era mais lenta e ponderada. Ele gostava de focar uma tarefa de cada vez, e tinha grande poder de concentração. Seu pensamento tinha  uma complexidade incomum. E ele tendia a ter uma consciência do mundo a sua volta surpreendentemente forte, percebendo o mundo interior do outro como se fosse a própria pessoa, o que lhe dava um forte sentimento de empatia. Ouvia mais do que falava e muitas vezes ele sentia que se expressava melhor escrevendo. Não gostava de conflitos nem de  jogar conversa fora, mas gostava de discussões profundas com seu avô3.

JS

Mas fora de John havia Carol Bolton1. Carol era a garota mais bonita que John já tinha visto. Pensando bem era a única garota que ele tinha visto, pois no mundo de dentro não havia muitas garotas. Ela era extrovertida  e impulsiva, e  adorava a vibração do mundo de fora, a corrida atrás de fama e fortuna. Mas John era imune a isso. Ele preferia devotar suas energias sociais aos amigos mais íntimos e a sua família. Já, Carol tinha paixão, e estava sempre metida em alguma confusão, tentando subverter a ordem das coisas. Enquanto, John era um observador atento que olhava antes de dar um salto.

JS by SebNo entanto, de tanto espiar para dentro,  o mundo lá fora sumiu. E ele se sentia inadequado, ansioso e assustado quando espiava para fora. Principalmente perto de Carol.

—É… passar o resto da vida espiando para dentro pode não ser uma boa. Ele disse  para Oak.  Não sou como a Carol, não sou heroico e sociável — disse John.

Oak balançou a cabeça. E disse:

—Em tempos de guerra ou de medo, pode parecer que o que mais precisamos são os tipos agressivos e heroicos. Mas se toda a população fosse de guerreiros, não haveria ninguém para notar – quanto mais para lutar contra – as ameaças mais silenciosas3.

John Standring by Sebastian

—Sinto que se quero conquistar a Carol tenho que aprender a ser mais comunicativo e sociável e deixar de ser tão tímido.  Além disso, todos devem ser extrovertidos se querem ser bem-sucedidos, disse John.

—Os introvertidos não são necessariamente tímidos. Timidez é o medo da desaprovação social ou da humilhação, enquanto introversão é a preferência por ambientes que não sejam estimulantes demais. A timidez é inerentemente dolorosa; a introversão, não3. Não seja tão duro consigo mesmo, John. Há muitas qualidades em você. O temperamento extrovertido é atraente, mas a vantagem criativa dos introvertidos está justamente na solidão que pode ser um catalisador da inovação. Pessoas introspectivas podem vir a ter sucesso como artistas, escritores, cientistas e pensadores, pois sua aversão à novidade faz com que passem mais tempo no ambiente  intelectualmente fértil  de suas mentes3— disse Oak

—Sabe, Oak — disse John. Eu espiei para dentro da Carol. E quando ela era apenas uma garota, ela esperava o mundo, mas ele voou longe de seu alcance. Então quando ela foge em seu sono, ela sonha com o paraíso5. E agora ando com uma vontade de  ficar lá para sempre, pois lá está tudo o que quero.

— Excelente! — disse Oak.  Tudo o que a Carol precisa é de alguém  que  lhe traga novamente a inocência, a suavidade e a vulnerabilidade da sua infância. E lá se foi John porta a fora colocar o seu novo plano em prática!

Referência e Notas

 

1. Sparkhouse is a BBC drama, originally shown in 2002, written by Sally Wainwright which is a modern take on Wuthering Heights.  Serie TV BBC UK

2. Machado, A. M. 2008. O menino que espiava pra dentro. Editora Global

3. Cain, S. 2012. O poder dos quietos.  Original title Quiet: The Power of Introverts . Editora Agir

4. Sheep Spirit Animal

5. Paradise – Coldplay

 

6. Richard as John Standring. Images from http://www.richardarmitagenet.com/

Read Full Post »

O calor abrasador sobre a terra silencia a terra. É tudo tão calmo que consigo ouvir o canto do tordo1 nos ramos de um velho álamo2. cfilip filip filip codidio quitquiquit. O pássaro canta solitariamente. Um cântico de desejos não revelados. Dou um passo em sua direção, mas ele voa para longe. E ouço o que a princípio me parece ser o bater da chuva na terra seca, que rapidamente se transforma no som de um trovão. O corcel negro de Guy of Gisborne3 surge ao longe na estrada, conduzido a grande velocidade por seu cavaleiro. É uma visão avassaladora!

Guy and marian1

Saio do caminho e me escondo atrás do álamo. Em instantes eles irão passar por mim e não quero ser vista. Mas, como se percebesse a minha presença, o cavalo para de repente, levantando-se sobre as patas traseiras, arriscando lançar seu cavaleiro ao chão.

─ Maldito animal, esbraveja Guy of Gisborne, prendendo firmemente seu corpo ao corcel e ecoando meus próprios pensamentos!

O cavalo resfolega, abana a cabeça, mas o cavaleiro é como uma estátua sobre sua garupa alta. Meu coração dispara, e temo ser denunciada por seu ritmo cada vez mais descompassado. O cavalo vira o pescoço, batendo-o na perna de seu cavaleiro. Seus olhos podem não me ver, mas ele sente a minha presença atrás do álamo.

Os olhos de Guy percorrem a vegetação na direção apontada pelo animal. Está tudo tão silencioso que consigo ouvir o tinido do arnês, o arquejar do cavalo, o som, o cheiro, o atrito do couro no corpo do poderoso corcel e, finalmente, o bramido da espada.

guy

─ Quem está aí? Apareça covarde! Ele ordena, ainda olhando em minha direção.

─ Meu Senhor, sou eu, Lady Marian3, respondo educadamente, revelando-me por trás do álamo.

─ Lady Marian? –diz ele. A sua voz é baixa e profunda, quase um murmuro, como se não quisesse ser ouvido. Estais por acaso se escondendo de mim? Ele pergunta.

─Claro que não ─eu digo. Mal conseguindo formar as palavras. Sinto-me como uma fêmea de tordo, encantada por uma canção de amor.

─ O que faz aqui, Marian, tão longe de casa? Essa estrada é perigosa, o bando de Hood a tem como se fosse o seu território.

─ Eles jamais me farão mal, respondo sem pensar.

─Não? Ele hesita por um segundo, o seu coração a latejar, numa mistura perigosa de gênio e desejo, e depois se recompõe, seus olhos adquirindo um frio desdenho. Ele guarda sua espada e desmonta do seu cavalo.

Guy and marian4

─ Mesmo assim, eu preferia que não se afastasse da casa de seu pai, e andasse sozinha por locais ermos. Há outros perigos que rondam essas matas. Soldados, mercadores, forasteiros, homens cruéis,  cansados de dias intermináveis na estrada.

─ Quem se atreveria a me fazer mal aqui? Pergunto. É só uma breve caminhada até a casa do meu pai.

─ Minha querida dama, você vive na luz, não conhece a escuridão do coração dos homens ─ ele diz.  Aceita o meu braço e deixe-me levá-la para casa.

─ De fato, seria uma tonta, se não ouvisse o seu conselho ─ eu  respondo. E lentamente aproximo-me dele. Sinto o seu corpo tremer como um cavalo preso a uma rédea curta, e seus olhos fitam-me como se nada mais existisse. Meu rosto encosta-se a seu pescoço e sinto a suavidade do cabelo encaracolado de sua nuca como uma pena em minha face. Minhas mãos tocam o grosso cinto que envolve a sua cintura. Busco o punho de sua adaga. Sua respiração é lenta e profunda, e seu cheiro, levemente amadeirado, invade as minhas narinas, inebriando-me por um breve momento. Desembainho a adaga, eu levo a ponta afiada a sua garganta. Uma tênue linha vermelha surge  sob a pressão da adaga.

Ele recua chocado, afastando-me, sua postura alerta, como a de um animal ferido. ─ Marian! ─ diz ele, incrédulo. O que me tornaste? Um tolo! ─ ele diz. A raiva duramente controlada em sua voz.

─ Veja, Meu Senhor, posso me defender de homens que rodam as estradas. Declaro triunfantemente. E estou a falar sério!

─ Tomai … ele desafivela a bainha da espada e a lança ao chão. Fique também com a espada como prova de minha estupidez.

Guy and marian2

Não há nada que posso dizer para acalmar a sua raiva, por isso, tiro a espada do chão, limpo-a e volto-me para o seu corcel negro. Seguro-o pela rédea, afagando a sua crina e lentamente o puxo, iniciando a caminhada de volta para casa.

Passo diante de Guy, minhas mãos o tocam levemente, convidando–o à acompanhar-me. Seguimos em silêncio. Consigo ouvir o rumor de sua capa atrás de mim e a contrariedade de seus pensamentos. Quando chegamos ao final do bosque detenho-me e viro-me para ele, oferecendo suas armas e a rédea de seu cavalo.

─ Meu Senhor, perdoe-me. Eu digo debilmente. Não quero que fiques aborrecido comigo e passe a me tratar com indiferença. Minha voz soa trêmula, e surpreendo-me com a sinceridade das minhas palavras. Ele me olha.

─ Nunca. Diz ele simplesmente. Nem que esse fosse o meu desejo, eu poderia lhe ser indiferente. Você me trata como um cão e como um cão eu devo segui-la para todo o sempre.

─ Não diga isso!

─ Não digo o quê?

─ Não suporto vê-lo falando assim! Irei sentir-me arrependida para todo o sempre da minha insensatez.

─ Porque o arrependimento? Provoca ele. De uma maneira ou de outra, eu não passo de um animal para você. Ele diz. E num movimento brusco ele me toma em seus braços.

Suas mãos firmemente prendem meu corpo junto ao seu. E sinto o calor de sua pele irradia-se pelo meu corpo, despertando a minha feminilidade. Sinto sua respiração próxima ao meu rosto e meus lábios se entreabrem levemente. Eu o desejo, e inesperadamente, ele me beija! E ao invés de repeli-lo, eu quero reconciliar a violência no seu coração4.  Exorcizar os demônios do seu passado, e satisfazer os desejos secretos do seu coração.

Guy and marian

O meu coração corre acelerado e  meu corpo responde tão prontamente ao seu toque, que  por um momento penso que poderia deitar-me com ele, ali como uma sacerdotisa pagã, tendo apenas o céu de álomos como testemunha.  Mas então, ele me afasta com veêmencia.

─ Pronto, Minha Senhora, estamos quites ─ ele diz. Roubaste as minhas armas e eu roubei a sua. A partir daqui estás em segurança. Lá está o seu  pai. Devolva-me o cavalo e seguirei o meu caminho em paz. Ele diz com leve ironia, numa voz suave quase inocente.

Consigo sentir a cor do meu rosto intensificar-se pela raiva e o orgulho ferido. No entanto minhas palavras saem fracas, quase infantis.

─Seu insolente! Ergo minha mão para dar-lhe um tapa. Mas ele a segura, impedindo-me.

─ Melhor não, Marian. Você já me feriu hoje, e eu não quero que se arrependa novamente!

─Tome as suas armas e seu cavalo. Respondo ainda com raiva, livrando-me dos seus braços e jogando as armas em cima dele. Ele as pega com incrível agilidade.

─ Aceita a adaga, Minha Senhora, como uma lembrança minha. Ele diz, assumindo a máscara que normalmente usa. Fria e sem amor.

─ Claro, se é isso que desejais. Eu digo orgulhosamente, tomando a adaga e virando-lhe as costas.

Guy and marian5

─ Marian ─ ele me chama, sua voz quase um sussurro. E eu ouço o canto do tordo ao longe. Porque fui lhe dar ouvidos!

─ Não se aborreça comigo. Perdoe a minha loucura. Ele diz. Seus olhos refletem a tempestade de seus sentimentos. Um misto de vulnerabilidade e  orgulho. E  vejo o tanto que ele já sofreu,  e incapaz de feri-lo novamente, eu digo docemente:

─ Venha Guy,  leve-me até o portão de casa. Ele me olha e segue ao meu lado silenciosamente. Eu quero acalma-lo, reconciliar a violência do seu coração. Quero reconhecer a sua beleza e satisfazer os desejos não revelados do meu coração.

 

Referências e Notas

 

1. Para acessar o significado do tordo como um Animal de Poder, eu segui apenas a minha intuição. Logo no início do conto, temos esse pássaro canoro, anunciado para Marian a chegada de uma canção de amor. A canção de Marian e Guy of Gisborne como todas as canções de amor é cheia de incertezas, medos e inseguranças. O tordo nos ensina que para cantar a canção do amor temos que criar o nosso próprio repertório, a expressão da nossa individualidade (cada macho de tordo pode ter um repertório de mais de 100 frases). Igualmente, ele nos lembra que para nos relacionarmos precisamos abrir os nossos canais de percepção e perceber a expressão do outro.

Song Turdus philomelos

2. Já  a árvore álomo na tradição celta  representa a Incerteza. De acordo com essa tradição, pessoas ligadas ao álamo não são muito seguras de si mesmas,  mas são valentes se for necessário, precisam estar em um ambiente agradável, são muito seletivas, e às vezes solitárias, muito alegre, de natureza artística, boa organizadora, tentam aprender através da filosofia, confiável em qualquer situação, assume as relações muito seriamente.

3. O conto é baseado na série Robin Hood, produzida pela BBC One e transmitida entre 2006-2009. As imagens são de Richard Armitage, como Guy of Gisborne e Lucy Griffiths, como Marian, personagens da série.

4. Undisclosed Desires- Muse

Read Full Post »

Franky!                                                                                                                                         Franky!
I’m not scared                                                                                                          Eu não tenho medo
I know that you’re gone                                                                                     Eu sei que você se foi
but I’m still here                                                                                         mas eu ainda estou aqui
Franky!                                                                                                                                         Franky!
Tell me why I’m still here                                                  Diga-me porque eu ainda estou aqui
When you’re not, what’s the deal?                         Quando você não está, qual é o propósito?
Where did you go                                                                                                           Aonde você foi
It’s stormy on this road                                                                    É tormentoso por esta estrada
And I’m alone                                                                                                         E eu estou sozinha
I’m still your princess1                                                                          Eu ainda sou sua princesa
image

Era uma vez um Belo Reino, onde vivia uma  princesa e o seu principe, eles eram muito felizes e tinham inúmeros planos juntos. Mas um dia o príncipe saiu para cavalgar e nunca mais voltou. E Bela caiu  num sono profundo, assim como seus pais e todos os habitantes do castelo.

E foi assim que que o Belo Reino deixou  de existir para Bela. Eis o significado simbólico do sono mortífero em que caíram todos e tudo que circundavam a princesa, pois o mundo só está vivo para a pessoa que desperta para ele — disse La Loba, enquanto lentamente escovava os meus cabelos.

—Ela caiu num sono profundo a fim de apagar a lembrança de sua dor? Eu perguntei. Sim, La Loba concordou. E serão necessários muitos anos, um longo processo para que a princesa venha a despertar, pois ela dorme o sono da transformação. Cumprido o tempo determinado, ela haverá de acordar2,3.

—E o mundo não será mais o mesmo. Eu disse a La Loba, enquanto me deitava em minha cama.

—Sim, minha querida — disse La Loba — o mundo continua a girar. E jovens como você temem os períodos de inatividade, onde parece não acontecer nada, devido a  crença comum de que só se fazendo coisas se pode atingir os objetivos. No entanto, um período longo de calma, de contemplação, de concentração sobre o eu, pode nos levar às maiores realizações. E Bela não ficará presa permanentemente na imobilidade mesmo que ela sinta no momento que este período de quietude pareça durar cem anos2,3.

—Por favor, continue a história, pedi a La Loba, até que eu durma!

Enquanto o Reino adormeceu, continuou La Loba,  os espinheiros cresceram em volta da Torre  onde a princesa se refugiou e todos que tentaram chegar até ela fracassaram, pois ela ainda não estava pronta e em seu sono ela buscava a sua própria identidade e liberdade.

—Eu gostaria que ela tivesse um Dragão a protegendo em sua Torre — eu disse a La Loba.

image

— Ah, mas ela tinha, ela respondeu . Black Dragon4 é o seu nome, o dragão da renovação. Ele é o maior de todos os Dragões e seu fogo é muito poderoso. O Black4 está no início e no fim de todos os processos. Com seu enorme coração ele trabalha a auto-aceitação e a coragem para fazer mudanças nas nossas vidas. Ele nos ajuda a superar nossos traumas. E permite que você enxergue as situações difíceis de maneira objetiva. Se algo difícil aconteceu, ele vai ajuda-la a dissolver as emoções e o sofrimento que vêm das lembranças, permitindo que você se distancie emocionalmente da situação, enxergando-a com compreensão e aceitação, entendendo o seu aprendizado. Depois disso, este Dragão irá nos ajudar a colocar o que foi aprendido em prática para que possamos continuar a caminhada. Black é um salvador que vem nos resgatar quando passamos por períodos de crise. Ele penetra na escuridão e traz a luz. Com seu fogo poderoso ele limpa profundamente a nossa energia mental e os nossos ambientes psico-emocionais negativos4.

—Sim, um dragão negro como a noite. E o que aconteceu com Bela? perguntei a La Loba.

—Bom, embora o tempo não apague os momentos vividos no passado, ele tem o poder de retirar deles a sua vitalidade, deixando-nos apenas  uma lembrança.  Assim, passado o tempo, Bela juntou forças na solidão, e se tornou ela mesma, adquirindo maturidade emocional. Mudanças aconteceram dentro dela que a despertaram para a possibilidade de uma nova vida feliz em seu reino. E assim a princesa sentiu-se viva novamente. E, por conseguinte, o que antes pareceria impenetrável se abriu. O muro de espinhos subitamente se transformou numa cerca de flores grandes e belas, permitindo que alguém pudesse entrar, pois somente o relacionamento com os outros nos "desperta" do perigo de deixar nossa vida adormecida por tempo demais2,3.

Então, ela encontrou o príncipe e o beijou5, continuou La Loba. Todos consideravam o príncipe um homem insignificante e sem ambições. Um homem praticamente invisível em seu mundo. Entretanto, ele era um homem bom, um verdadeiro gentleman, com senso de humor, mas sofria preconceito por sua aparência. E foi por esse homem por quem, lentamente, Bela se apaixonou. E no coração de Bela, onde estavam todas as suas Belas,  ele conheceu a sutileza da dor e a delicadeza do amor5.

  image

Referências

1. Franky’s Princess – Emilie Simon

2. Bruno Bettelheim. A Psicanálise dos Contos de Fadas. 16a Edição – PAZ e TERRA – 2002 Traduzido do original em inglês: The Uses of Enchantment:
The Meaning and Importance of Fairy Tales.

3. Qual Bela Adormecida você quer ser? Texto de Cristina Balieiro

4. Black Dragon, O Dragão da Renovação – Texto de Dragon Energy Center

5. La delicatesse (A Delicadesa do Amor) – Um filme de David Foenkinos e Stéphane Foenkinos. França, 2011.

Read Full Post »

No vale clareia uma fogueira.                                                          Subitamente pelas encostas,
Uma dança sacode a terra inteira.                                                Indo perder-se na escuridão.
E sombras desformes e descompostas                     De quem é a dança que a noite aterra?
Em clarões negros do vale vão                                                                         (Fernando Pessoa)
ep3hd_034

O escorpião promete transformação. No Egito antigo, Selkhet1 é a senhora do mundo subterrâneo e do renascimento da alma. Seu símbolo é o escorpião, sendo representada como umaimage mulher, com um escorpião sobre a cabeça ou como um escorpião com cabeça de mulher. Para os egipícios antigos, Selkhet era um deusa invocada para a proteção contra picada de animais peçonhentos, geralmente letais. O  veneno do Escorpião  pode levar à paralisia e nome Serket descreve isso, pois significa aquela que aperta a garganta, mas, também pode ser lido como aquela que faz com que a garganta volte a respirar, pois em algumas espécies  o próprio veneno é o  antídoto para o seu aguilhão. Já, na mitologia grega a morte de Órion2 (filho de Zeus) foi ocasionada por um escorpião. Segundo a lenda, Órion era exímio caçador, dotado de um porte de rara beleza e tinha a predileção da deusa Artemis, mas também era amado pela deusa Aurora. Por ciúme, Artemis fez com que um escorpião gigante saísse da terra e picasse mortalmente o calcanhar do caçador, que nesse momento é levado ao céu junto com o animal venenoso, formando as constelações Órion e Scorpio, que são mantidas separadas para evitar novas contendas. Scorpio, com sua principal estrela vermelha Antares, aparece na oitava casa do zodíaco  e traduz, para os astrólogos, o signo que está associado com a força mística nas fases críticas de transformação, como reprodução, morte e renascimento.

image

Assim, o caminho de aprendizado desse animal de poder não é para os fracos de coração, pois a mudança que o escorpião promete deve ser precedida pela morte de  algo: uma idéia, um relacionamento ou um modo de vida, para que o renascimento possa ocorrer.

Dessa forma, Escorpião exige que  a pessoa se torna um discípulo, ou seja, alguém que está conscientemente disposto a prestar ajuda para a  evolução da humanidade. E para fazer isso, ele tem  que testar seu poder: ir o mais longe possível dentro de si mesmo, encarar todas as suas misérias para poder morrer e renascer como uma Fênix, plenamente consciente de quem é e o quanto vale. O lema transpessoal de Escorpião é “Guerreiro eu sou, e da batalha emerjo triunfante”. É a luta que vai trazer resultados, mesmo que a pessoa morra.

SBPromo-03Escorpião traz intensidade, força, inteligência e sexualidade. Convida-nos a ir profundamente e apaixonadamente em tudo, acessando nosso instinto de sobrevivência. Pessoas com a energia de escorpião são fortes e têm a habilidade de inspirar. Escorpião lhes confere os poderes de carisma, rejuvenescimento, transformação, morte e renascimento,  magnetismo pessoal,  paixão, intensidade, coragem e cura em todos os níveis. Uma mensagem potente que o Escorpião tem para nós é o de proteção.  Suas principais características físicas são sistemas naturais  de proteção do escorpião  Por exemplo, considere o exoesqueleto rígido do escorpião como uma linha de defesa. Considere também quelíceras e pedipalpos são potencialmente prejudiciais – para não mencionar o seu ferrão venenoso. Assim, a aparência do Escorpião parece nos dizer “Não brinque comigo.”

Escorpiões são quase sempre solitários, embora algumas espécies possam desenvolver algum grau de comportamento social.  A interação intra-específica mais bem estudada e mais complexa do escorpião é o comportamento de corte, que foi descrita pela primeira vez no início do século XIX e somente na década de 1950 foi descoberta a forma indireta de transferência de espermatozóides.  (Necessidades sexuais são muito fortes em pessoas sintonizadas com o escorpião. No entanto, elas geralmente têm período de solidão intercalados com relacionamentos intensos e apaixonados, novamente o símbolo reprodução, morte e renascimento.)

imageO comportamento de corte1,2 dos escorpiões pode ser dividido basicamente em três fases: iniciação, promenade à deux (caminhar à dois)  e transferência de espermatozóides. Na primeira, relativamente rápida, o casal se encontra, e ocorre o reconhecimento intraespecífico e sexual, somente prosseguindo se a fêmea, geralmente maior que o macho, estiver receptiva.

image

A segunda parte da corte pode ser resumida pelo clássica ‘promenade à deux’2 (Fig. 1) na qual o  macho primeiro se aproxima da fêmea e depois agarra os pedipalpos dela com os seus  próprios. Em seguida,  toma lugar o ritual de dança. Durante a dança, o macho estimula a fêmea e reduz sua agressividade conduzindo-a em várias direções, segurando seus pedipalpos, explorando o ambiente à procura do substrato adequado para efetuar a deposição do espermatóforo. A duração desta fase é diretamente influenciada pelo tempo de encontro do local de deposição (5 minutos ou até 48 horas). Na terceira fase, o macho deposita o espermatóforo no substrato escolhido e puxa a fêmea, posicionando-a adequadamente sobre ele. O opérculo genital da fêmea se abre enquanto ela se abaixa sobre o espermatóforo, permitindo que os espermatozóides entrem em seu trato reprodutivo e ocorra a fecundação. Além dessas três fases, foram registados  comportamentos pós-transferência em algumas espécies, como o consumo do espermatóforo e o canibalismo. O canibalismo  é o comportamento pós-cópula que mais chama a atenção dos pesquisadores e ocorre quando a fêmea percebe o macho como uma presa e não como um parceiro. Aqui a advertência do Escorpião é clara: controle suas paixões, para que elas não o consuma.

Portanto, como um animal de poder, o Escorpião representa proteção, paixão, controle, intensidade.  Quando o escorpião faz uma aparição em nossas vidas ele nos chama a sua dança mística de paixão, morte e renascimento. Estamos prontos para a sua caminhada à dois?

Referências

Promenade à deux – Scorpion Tales (2012) for Two Harps. Composed by Robert Paterson, and Duo Scorpio performed by Kathryn Andrews and Kristi Shade

1. BRASIL, T. K. & PORTO, T. J. 2010. Os escorpiões. Salvador: EDUFBA, 2010.
84 p.

2. LOURENÇO, W. R. 2000. Reproduction in scorpions, with special reference to parthenogenesis. European Arachnology 2000, pp. 71-85.

3. Algumas das informações desse post sobre o totem Escorpião foram derivadas das seguintes fontes:

Scorpion – A Symbol Meaning of Stinging Importance

Scorpion

Scorpion Totem, Scorpion Medicine

4.  Todas as imagens são Chris Ryan’s Strike Back  é uma série da televisão britânica baseada no romance de mesmo nome escrito pelo ex-soldado da Special Air Service, Chris Ryan. Foi produzido por Imagens Left Bank para Sky1. O elenco de Strike BAck é estrelado por Richard Armitage, que interpreta o protagonista da série John Porter. Porter serviu com o SAS até que ele é reformado, após salvar um menino que se acreditava ter assassinado dois soldados de sua unidade, numa operação de resgate na noite anterior à invasão do Iraque.

ep3hd_025.jpg

Read Full Post »

“Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: “Era só um conto de fadas”… Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida.”
Antoine de Saint-Exupéry

26 - Landscape 6

La Loba me perguntou se eu conhecia a história da menina que sonhava com o Belo Reino4. Sim, respondi. Conte-me então, ela me pediu. Era uma vez uma menina que não tinha nem pai nem mãe e que morava na Floresta Negra. Um dia ela quis conhecer o Belo Reino. Havia nas proximidades da floresta uma aldeia. Então ela resolveu ir até lá para perguntar qual era o caminho para o Belo Reino. Mas, a aldeia era um lugar onde ninguém jamais voltava ao que já tinha deixado, nem sabia onde é que tinha andado. Nesse lugar, ninguém nem se lembrava o que tinha sonhado2. A menina perambulava pelas ruas, perguntando qual era o caminho para o Belo Reino. Mas ninguém parava e lhe prestava atenção. Todos eram muito ocupados e jamais largavam a grande roda. Onde giravam e giravam. Por isso uma noite, ela subiu uma escada de papelão. Imaginada. Invocada. Não levava a nada. Era só uma escada de papelão1.

— Uma escada de ilusão. Mas, havia outro caminho para o Belo Reino, não havia? Perguntou La Loba.

— Sim  havia, respondi.

— Qual era? Ela me perguntou.

image

—Havia uma outra entrada, mais estreita. Uma entrada muito mais díficil e apertada. Essa entrada foi  inventada por um Anão e está guardada por um Dragão2, eu disse.

—Sim, Aquamarine, o Dragão da Autenticidade3, de cor verde-azulado, disse La Loba.  Este dragão nos ajuda a descobrir que somos todos únicos. Com a ajuda dele, é possível deixar de lado todas as máscaras para sermos autênticos, sem medo de mostrar ao mundo quem somos. Quanto mais aceitamos nossa essência – com nossas luzes e sombras – mais poderemos respeitar a maneira como os outros pensam e agem3. Muito bem,  esse é o único caminho que conheço para o Belo Reino, afirmou La Loba. E o que a menina fez?

— Ah, ela foi até o Dragão e perguntou se ele conhecia o caminho para o Belo Reino, pois ela queria muito, mas muito mesmo conhece-lo. Então o Dragão lhe disse:

Ó, menina, não vês aquela estrada estreita. Coberta de urzes e de espinhos? Pois é a trilha da Honradez; Poucos perguntam de tais caminhos. E não vês aquela estrada larga. Que passa pelo campo liso?  É a trilha dos Perversos.  Que chamam de Estrada do Paraíso. E não vês aquela estrada linda.  Que pela escarpa agreste desceu?  Pois leva à bela Terra dos Elfos. Lá vamos à noite, tu e eu4.

—E o que aconteceu? perguntou La Loba.

—Bom, a menina conheceu o Anão, que era na verdade um Cavaleiro de Dragão e ele disse que ia ajudá-la  ao longo do caminho para o Belo Reino. Mas antes ela tinha que voltar para a floresta negra. Para todas as coisas que ela deixou. E ela tinha que se lembrar de todos os caminhos pelo qual andou. E mais importante, ele  lhe disse:  Ela tinha que se lembrar de seus sonhos, pois sem eles era muito fácil  perder o caminho para o Belo Reino.

—Bom isso era um bocado de coisas. Como ela fez para se lembrar de todas elas? Perguntou La Loba.

—Ela começou a escrever, ler e desenhar  e ela aprendeu a língua dos animais e das plantas. E assim ela fez inúmeros amigos, que por acaso também procuravam a estrada do Belo Reino.  Eu disse.

—Mas, então,  algo aconteceu, não foi?

—Sim, algo aconteceu, respondi.

—O quê aconteceu? ela perguntou.

—Um dia as pessoas da aldeia deram falta da menina. E foram ver o que ela andava fazendo. E viram os seus escritos, os seus desenhos, a sua arte. E eles ficaram chocados com que encontraram. Pois, a menina escrevia sobre anões, animais que falavam, florestas negras, dragões, sonhos e fantasias. E isso os assustava, pois os faziam se lembrar de seus próprios sonhos e de seus próprios caminhos. E pior, isso os fazia esquecer da grande roda. Onde eles giravam e giravam. E então, eles tiveram muito medo.

—E o que eles fizeram, perguntou La Loba.

—Eles a magoaram.

—Oh, menina, e La Loba me abraçou. Para evitar a escada de papelão. Há um importante passo que você deve dar. Qualquer um que não apóie sua arte, seus sonhos, sua vida, não é digno de seu tempo. É duro mais é verdade. Esses tipos de projetos precisam ser acalentados e alimentados. Eles precisam de apoio vital, de pessoas carinhosas e amigas5.

—O que devo fazer, La Loba? Perguntei com olhos marejados.

—Você deve continuar em busca do Belo Reino, na companhia de seu Anão e de seu Dragão, apenas isso.

—Sim,  assenti.

29-Thorin-EWiPad-July2012

—Mas me diga uma coisa lobinha. Esse Anão é muito bonito, não é?

—Sim, ele é. Alguns falam que ele é um anão quente, respondi.

—Hum, um anão quente? Esse é um detalhe interessante da história, disse La Loba.

—Sim, eu disse,  secando as  lágrimas. Mas  ele também é o líder valoroso, inteligente e heróico de uma companhia de Anões. Hah,  La Loba riu.

—Quem diria, uma companhia de Anões quentes, valorosos e heróicos. Agora, entendo, grande parte do reboliço. Veja, minha lobinha, Branca de Neve era uma garota sábia para o seu tempo, mas não muito ousada. Ela tinha sete anões para lhe ensinar o caminho para o  Belo Reino, mas eram todos feios! Vamos, deixe-me dar uma olhada nesse Anão. Nada mal,  concordou La Loba. Se você não tivesse me dito que era um Anão, eu iria pensar que era o Princípe Encantado, e aí sim, teríamos o caos. Então, rimos feito loucas dessa ‘história’ toda, como só as mulheres sabem rir.

Referências

1 and 2. The Portuguese group “Madredeus” com lead singer “Teresa Salgueiro” perform “The Paradise” and “ The Shep. The first video have Portuguese lyrics and an English translation.

image

3. Dragon Energy Center

4. Tolkien, J.R.R. 2006 . Sobre Histórias de Fadas. Original title Tree and Leaf.

5. Estés, C.P. 1994. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Editora Rocco, Rio de Janeiro.

Read Full Post »

cbeebies3_008.jpg

lost acorn v - CópiaÉ outono na floresta  e o Esquilo está muito ocupado. Com sua  inquietude característica, ele corre de um galho para outro, subindo em árvores e descendo ao solo. Coletando bolotas de carvalho para armazena-las para o inverno, quando as condições climáticas são severas e a disponibilidade de alimento é muito menor. Mas agora é época de frutificação e há tantas e tantas bolotas!

image E, portanto, muito trabalho também. O Esquilo retira a casca das bolotas e as ilustra com sua cauda _ pois  quando for a época de recuperar-las ele irá localizá-las  seguindo o seu cheiro. Mas todo ano o Esquilo  esquece onde ele enterrou o seu armazenamento de inverno, pois o cheiro funciona a curtas distâncias. imageMas, esse ano ele tem uma idéia brilhante! Enterra-las todas juntas em local seguro, marcando o local com um poste de sinalização. lost acorn vi

Assim, o Esquilo carrega todas as bolotas para longe da planta-mãe, pois esta atrae outros coletores de nozes, tais como as gralhas, e as enterra num grande buraco, marcando  o lugar com um poste de sinalização formado por uma vara nodosa, uma folha de bordo e um cogumelo. lost acorn xiii

lost acorn vii

—————————————————————————————————

A mensagem do esquilo é clara. Ele sabe que o importante é ser precavido sem ansiedade, demonstrando auto-estima suficiente para reservar para uso futuro, coisas das quais você possa vir a necessitar, mesmo que tal necessidade nunca chegue a se manifestar. cbeebies3_040.jpgMas há outra lição que o Esquilo pode nos ensinar para que possamos enfrentar qualquer adversidade futura.  Aprender a guardar as coisas importantes em um local seguro, e não nos referimos aqui apenas aos nossos brinquedos e a nossa mesada, mas aos nossos sonhos, desejos, esperanças e todos aqueles que amamos, que devem ser guardados  em um coração compassivo e numa mente serena, protegidos da inveja e da ansiedade.

————————————————————————

image

Mas, o Esquilo não sabia que outros animais da floresta tinham outros usos para o seu poste de sinalização! O Sapo foi o primeiro a encontrar a exótica armação, e logo ficou com o cogumelo. Seria um execelente assento para as longas horas de espera por uma presa. Já o pequeno Rato ia numa correria desenfreada fugindo da chuva quando encontrou a folha de bordo. Era um exelente guarda-chuva. O Morcego não encontrava uma haste para se pendurar e já era tão tarde! Até que encontrou a bela haste do Esquilo, e foi embora com ela.  E assim a sinalização que o Esquilo deixou no outono foi desfeita e quando o inverno chegou seu esconderijo foi  encoberto pela neve.

lost acorn xviiiPobre Esquilo! No tempo de recuperar as bolotas  ele foi atrás de seu precioso esconderijo e andou de um lado a outro, sem nada encontrar! E estava tão frio.  Como ele iria sobreviver ao inverno sem o seu suprimento de comida? lost acorn xii

Mas, o Esquilo tinha muito amigos e logo todos se propuseram a ajudá-lo.  A cada dia um deles  lhe oferecia uma farta refeição, com iguarias desconhecidas para o Esquilo, o que resultou em um tempo-refeição muito interessante! lost acorn xilost acorn viii

lost acorn iii - CópiaO Sapo lhe ensinou a conhecer novos sabores. Já, o Morcego o ensinou a ficar de cabeça para baixo, se livrando de tudo que estava entulhado em sua cabeça! E o ratinho lhe ensinou, com seus olhos pequenos,  a olhar os detalhes! Quando a primavera chegou, com suas novas habilidades o Esquilo achou o seu esconderijo secreto de bolotas. Ele era agora um lindo anel de mudas de carvalho!

————————————————————-O esquilo nos ensina a armazenar apenas o necessário para uma eventual necessidade e a confiar no Grande Mistério para efetuar a semeadura. Se um esquilo apareceu dependurado de cabeça para baixo nos galhos de sua árvorecbeebies3_035.jpg, isto é sinal de que você está vendo o mundo através de uma polarização negativa, represando seus pensamentos de abundância e deixando que a carência domine a sua vida! Faça como o Esquilo, esqueça seu esconderijo secreto, onde você guarda as suas mágoas, suas angústias e preocupações, devolva-os para a Mãe-terra, abrindo assim um novo espaço em sua mente e coração  para o novo e a mudança que com certeza virão.

Bye-bye e tenham bons sonhos!

—————————————————————————————————

Faça como o Esquilo, enterre pequenas sementes de boa-vontade em seu coração para que florestas exuberantes possam germinar!
Richard Armitage apoia as seguintes instituições de caridade:
The Salvation Army

The Salvation Army

Shelter

Shelter

ChildLine

ChildLine

Barnardo’s

Barnardo's

Referencias

The lost acorns

Read Full Post »

image

Através da névoa, eu sigo meu caminho. Eu não quero estar com medo. Morrer por dentro para poder respirar. Esquecer quem eu sou para que o seu mundo faça sentido.  A noite se aproxima, e eu irei cantar a canção da Lua novamente. Invocar  a energia psiquica e o inconsciente que guarda todos os segredos da sabedoria e do conhecimento. E então eu irei descobrir o meu prórprio caminho.

Eu irei chamar com o meu uivo, o cão lunar da minha alma. Por favor, não queira ser meus olhos e ouvidos, pois os meus sentidos são bastante apurados e eu conheço os caminhos que me levam a novos mundos e que me trazem de volta ao lar.

imageNão tente me assustar, eu não irei me perder pelo caminho.  Eu sigo o lobo e a  lua cheia  ilumina o meu caminho. Como ele, eu sigo os meus instintos. Eu levanto o meu nariz ao vento, eu inspiro os seus cheiros. Orelhas alertas, eu escuto os sons da vida. Eu mudei, e posso parecer um pouco quebrado, mas minha essência  permanece.  Então, eu não sou  um estranho em minha própria pele.

Aos seus olhos posso  parecer distante ou preso em outro mundo. Mas eu não estou mais ferido, e essas cicatrizes embora permaneçam comigo, elas apenas dizem aonde eu estive e não aonde eu irei.

imageEu caminho com o meu lobo e  não tenho medo de desbravar novos caminhos. Sentir a terra pulsando, correr pelo mundo e caçar o  meu próprio alimento. E  voltar para compartilhar o alimento adquirido.

imageEu não sou mais aquela menina insegura ou dolorosamente tímida implorando a sua aprovação. Eu não sou um estrangeiro em meu próprio território. Eu encontrei o cão lunar da minha alma.  Eu simplemente não estou mais só.

image E me sinto inteira novamente. Eu tenho uma voz, e eu serei ouvida por todos aqueles que entoam a canção da noite. A canção da Lua. Eu compartilharei segredos e quebrarei promessas.

Embora eu não esteja mais com raiva, eu estou cansada de me sentir estagnada, esperando você me olhar. E apesar de suas mentiras, eu sei que você me vê. E você sabe que eu sinto a sua solidão e frio. Eu conheço os seus caminhos, se  anestesiar por dentro para permanecer vivo.  Para não sentir  a dor.  Mas esse é um remédio que mata por dentro. E eu quero viver.

imageO alívio existe e eu o encontro quando eu aceito ser quem eu sou. Quando eu aceito que você está simplesmente errado.  Que é você quem não conhece os caminhos e se perdeu na escuridão da sua alma. imageO seu coração se guia apenas pelo seu egoísmo, e isso não me fere mais. Você perseguiu e matou o lobo, mas ele vive dentro de mim. E a lua prateada ilumina os seus pêlos em minha nuca.  Você saberia disso se apenas me olhasse nos olhos.  Você conheceria a verdadeira natureza da minha alma. Mas agora é muito tarde e nossas escolhas apenas nos distanciam cada vez mais.

A noite se aproxima e eu ouço a  canção da Lua. Ela me diz que eu irei continuar a uivar, cantar e viver. Que um novo sol se levanta por mais escura que seja a noite. comportamento-dos-lobos A matilha me chama com seus uivos distantes. Eu não sou um desconhecido em meu próprio mundo.

Eu ouço a canção lunar,  e  agora eu compreendo o caráter único de cada personalidade e a beleza de ser quem você é. Eu não tenho medo de redescobrir os meus talentos e  dons naturais. Eu não sou um estrangeiro em meu próprio território.  Eu sou o cão lunar da minha alma, e eu sou livre para ser-lo.

imageViver é crescer, e crescer é aceitar que todas as formas de vida podem ser nossos mestres.  Basta  solicitar sua orientação. Minhas mãos se prendem ao pêlo do lobo, e ele caminha ao meu lado. O lobo conhece os caminhos.

O caminho é estar disposto a subir montanhas, adentrar florestas, caminhar em desertos, cair em abismos e sair de lá com a força de ser quem você é. Pronto  para tornar-se o seu próprio mestre. Pronto para compartilhar a canção da Lua com a sua matilha. Pronto para tornar-se Uno com a própria Lua.

Read Full Post »

image

Desapareci há cerca de um ano, naquele dia recebi uma carta. Ela me levou ao alto das montanhas, onde a minha vida com as águias começou. Por favor, perdoe-me pelo longo silêncio (Colbert, 2005). Esta carta rompe esse silêncio, nos unindo novamente em palavras e pensamentos.

Naquele dia, enquanto meus pés vagavam atravessando as colunas do templo, meus olhos percorriam as montanhas solitárias. Meus olhos vagavam sem destino até avistar as asas da liberdade, as asas da Harpia1. Então o sol despertou-me  inundando-me com luz e rompendo a escuridão dos meus dias. E assim meu coração de águia começou a pulsar.

Nós somos águias. Somos feitos para a liberdade e não para o cativeiro. Temos dentro de nós o chamado para o céu infinito, o chamado dos picos mais altos das montanhas. O chamado para a maior das realizações, a realização plena do nosso ser.

imageNossas almas almejam a luz do sol.

A integração do nosso ser ao Grande Espírito. Nossas penas  anseiam o voo rumo ao impossível, ao inalcançável e ao inimaginável. Anseiam o mundo que vai além das cercas que limitam nosso pequeno universo, feito de parcos desejos e interesses mundanos. Nossas asas desejam romper o comodismo, o conformismo, os padrões de pensamento repetitivos, alçando nossa mente a uma realidade muito mais ampla (Boff, 1997).

Nas asas da águia descobri que não bastava apenas libertar-me dos grilhões que me prendiam ao chão, do medo do desconhecido, da segurança da vida ordinária. Mas precisava libertar-me para: para a realização de minhas potencialidades, para a realização do meu próprio destino, para a realização de minha natureza de águia (Boff, 1997). Dei-me conta que também podia e devia voar penetrando no céu infinito do meu próprio ser.

Convivendo com as águias percebi que a nossa existência não está pronta, que devemos construí-la continuamente. Não importa as coisas que nos aconteceram, mas sim como reagimos a elas. O decisivo são os sentimentos, os valores e as visões que elaboramos em contato com as aventuras e desventuras da nossa vida (Boff, 1997). O que importa é o crescimento que elas nos proporcionam.

Voe. Ouça a canção da águia, busque a recuperação da sua alma selvagem, da sua natureza criativa, livre e em comunhão com o Divino. A domesticação excessiva faz com que deixemos de ser quem realmente somos para ser quem “os outros” desejam que sejamos. A domesticação nos afasta do nosso verdadeiro ser e do nosso destino. Voe o caminho da águia. Voe ao céu infinito.

Voe, voe, voe.

Referências e Legendas

1. A harpia (Harpia harpyja) é uma das maiores aves de rapina do mundo, com envergadura de 2,5 metros e peso de até 10 kg.O habitat principal são as florestas tropicais e a espécie se dispersa geograficamente do México à Bolívia, na Argentina e em grande parte do Brasil, notadamente no Amazonas, vivendo em árvores altas, dentro de vasta mata, onde constrói seus ninhos. Habitava as matas brasileiras de forma abrangente. Hoje pode ser encontrado na Amazônia e visto raramente na Mata Atlântica. Na região amazônica da Guiana, onde foi bem estudado, verificou-se que é um predador sobretudo de mamíferos.

2. Colbert, G. 2005. Ashes and Snow, um filme de  Gregory Colbert,  que usa fotografias e cameras cinematográficas para explorar a interação entre os humanos e animais. Feito em 60 minutos é uma narrativa poética antes do que um documentário. O objetivo é retirar as barreiras naturais e artificiais entre humanos e outras espécies, dissolvendo a distância que existe entre eles. http://www.ashesandsnow.org/

3. Boff, L. 1997. A águia e a galinha. Uma metáfora da condição humana. Editora Vozes. Petropólis, Brasil.

A águia e a galinha.
Leonard Boff
Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos, esse homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
- De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei cimo galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
– Já que de fato você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
– Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
– Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurou-lhe:
– Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
– Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
– Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
– Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra as suas asas e voe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento…”

Read Full Post »

HobbitTrailer04

imageRAFrenzy em seu blog1 espelhou o pensamento de inúmeros admiradores do ator Richard Armitage, a de que ele é um camaleão. A expressão é amplamente conhecida no mundo artístico e usada para adjetivar bons atores, aqueles que possuem a capacidade de se reinventar e adaptar o seu físico, voz, postura corporal e comportamento as necessidades do personagem, dando vida a cada um deles de maneira distinta de si mesmo e de seus outros personagens. Já na cultura popular o camaleão é conhecido como o mestre do disfarce, em referência a sua habilidade em mudar de cor, camuflando-se em seu ambiente.

Talvez você não saiba, mas camaleão é o nome dado a todos os animais pertencentes à família Chamaeleonidae, uma das famílias mais conhecidas e antigas de lagartos. O registro fóssil mais antigo conhecido de um camaleão  é datado de 26 milhões de anos atrás2 (Moody S, 1980).  Na biologia evolutiva longevidade está profundamente relacionado a capacidade de adaptar-se a um ambiente mutável. Assim se você que ser um bom ator, a primeira lição do camaleão é a flexibilidade frente ao futuro instável e incerto. A segunda lição é a paciência e concentração, camaleões não são predadores ativos. Eles preferem se acomodar num galho e atentamente esperar a oportunidade chegar. Quando a oportunidade surge, ele foca a sua visão, e sua língua rápida e certeira captura a sua presa.

imageNo entanto, ao contrário da crença popular, a principal vantagem evolutiva para mudança de cor não é a camuflagem, mas sim a comunicação social (Stuart-Fox & Moussalli, 2008). Assim dois camaleões duelando por uma fêmea exibirão suas cores mais fortes e vibrantes, até que um desista da disputa e exiba a sua coloração de submissão. Assim, ser um camaleão exige que você seja sensível não apenas ao seu ambiente físico (luz, câmera e ação), mas principalmente ao seu ambiente social.

Displays comportamental de três espécies de camaleão-anão africano do Gênero Bradypodion (A) B. damaranum ; (B) B. transvaalense e  (C) B. caffrum. Figuras da esquerda para a direita: machos mostrando coloração dominante; macho da mesma população, mostrando coloração submissa. Modificado de Stuart-Fox & Moussalli, 20083

Numa entrevista de Richard Armitage4 podemos entender o que isso significa num contexto artístico. Ele cita que prefere uma abordagem onde cada ator não é uma ilha, sugerindo que muitas vezes os atores obtêm o seu melhor desempenho a partir da atuação de seus companheiros de cena. Ele diz: “Acredito no tipo de atuação onde você faz o modo de atuar do outro ir além. Há uma cena em Rabbit Hole, com Nicole Kidman e um ator desconhecido, sentados em um banco, onde ele fez ela atuar de uma forma  melhor do que eu já presenciei antes. Eu acho que posso fazer outro ator atuar melhor, e espero que alguém possa me fazer produzir algo que eu não produzi antes.” Terceira lição do camaleão: ninguém é uma ilha e as nossas cores mais vibrantes são exibidas num contexto social.

image

Exemplos de camuflagem e respostas  anti-predação de três espécies de camaleão anão africano (A) B. taeniabronchum, uma espécie criticamente em perigo; (B) B. gutterale, e (C) B.atromontanum, mostrando o comportamento anti-predação típico (achatamento dorso-lateral e colocando-se para o lado oposto do ramo) em resposta a um predador (Lanius collaris). Todos os três estão mostrando a coincidência de fundo em que a cor do animal e padrão se assemelha a uma amostra aleatória do ambiente. Modificado de Stuart-Fox & Moussalli, 2008.

Como todos os lagartos, os camaleões tem sua pele revestida de queratina e assim durante a fase de crescimento eles trocam de pele. Trocar de pele significa deixar quem você é para trás, seus medos, seus anseios, seu passado, para que o futuro possa se manifestar. Sobre sua primeira experiência no teatro, Armitage5 exemplifica o que é trocar de pele: Eu perdi o controle de mim mesmo e tornei-me o personagem. Em outra entrevista o ator nos conta suas experiências em deixar para trás o seu medo de água para desempenhar suas cenas de submersão em Capitão América e Spooks4. Quarta lição do camaleão para ser um bom ator: troque de pele!

Já, na cultura indígena o lagarto representa o sonhador, devido ao hábito do animal de ficar parado na sombra, apenas com os olhos em movimento, lembrado o movimento dos globos oculares dos seres humanos durante o sono. O camaleão possui os olhos ainda mais especializados tendo a capacidade de se moverem independentemente um do outro.

Assim o SundayTimes2006-15.jpgcamaleão vê o passado e o futuro, tendo, portanto, o poder da clarividência. Para esses povos sonhar é ir para o futuro, para outros mundos e realidades. Um bom ator é aquele que tem a capacidade de transportar a sua audiência para outra realidade, para outros mundos. Para o mundo dos sonhos, o mundo das coisas não visíveis. Um bom ator é aquele que desafia a sua audiência, trazendo-a para o mundo do seus personagens e despertando a sua imaginação e criatividade. Se você sonhou com o camaleão hoje preste atenção aos seus sonhos, use a sua intuição e tente decifrar o seu significado, pois o Rei Lagarto pode ter algo muito importante a lhe dizer sobre você!

Referências e Subtitulos

1. RAFrenz. 2012. The Chamaleon.

http://rafrenzy.com/2012/01/04/the-chameleon/

2. Moody S, Rocek Z. (1980). "Chamaeleo caroliquarti: a new species from the Lower Miocene of Central Europe."Vestnik Ustredniho Ustavu Geologickeho 55: 85–92

3. Stuart-Fox, D & Moussalli, A. 2008. Selection for Social Signalling Drives the Evolution of Chameleon Colour Change, PLoS Biol; 6(1): e25. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2214820/

4. Entrevista de Richard Armitage por Alice Wyllie. So Bad, he’s Good. The Scotsman Magazine, 23 de julho de 2011.  Disponível em

http://www.richardarmitagenet.com/interviews.html

5. Entrevista de Richard Armitage. The inside track: Richard Armitage, The Sundays Time, 27 de abril de 2010.

Disponível em

http://www.richardarmitagenet.com/images/articlescans/TheTimes_270410.jpg

Read Full Post »

Older Posts »

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.