"Nenhum de nós realmente muda com o tempo. Nós só nos tornamos mais plenamente o que somos ".
O Vampiro Lestat, Anne Rice
Foi numa tarde, lembro-me como se fosse ontem. Veio pelo pátio, sem um ruído, um homem alto, cabelos louros e movimentos silenciosos, quase felinos. A princípio pensei que fosse alguém pedindo uma informação. Mas esta suspeita foi logo abandonada. Ele parou perto de mim, de modo que seu rosto ficou sob a luz, e vi que não se tratava de um homem comum. Seus olhos cinza ardiam com uma incandescência, e as mãos longas e brancas que pendiam a seu lado não eram as de um ser humano2. Acho que compreendi tudo naquele instante, e tudo o que ele me disse era apenas uma isca sedutora. Dentro da isca havia, porém, algo afiado, algo que acabou com o meu espírito no momento em que senti a primeira mordida3. Quero dizer, no momento em que o vi, percebi sua aura, e compreendi que eu seria reduzido a nada. Todas as minhas crenças, meus sonhos, pareciam subitamente não ter nenhuma importância. Era tudo cinzas. Esse foi o início da fome, o início do vazio insaciável2,3.

Todos nós conhecemos pessoas que têm a capacidade inexplicável para drenar-nos fisicamente em um período relativamente curto de tempo. Quando estarmos em sua presença, nós realmente experimentamos a sensação de nossa energia vital está sendo sugada. Embora haja variações culturais nas várias lendas, há sempre uma característica definidora de um vampiro: um vampiro deseja o sangue. O sangue representa a vida, e também é o símbolo arquetípico da alma, da energia vital4,5. O que chamamos de alma pode ser compreendido simplesmente como o desejo de participar na vida3,4,5.
Os vampiros não são fantasmas, mas humanos que por alguma razão, eventos traumáticos ou um ataque, perderam o contato com a fonte de vida dentro de si, e assim eles devem predar outros4,5. Pois embora, a sede vermelha seja sempre um desejo muito forte para resistir, viver no estado de hambre del alma, de fome de alma, é uma perspectiva muito mais sombria. É sentir uma fome insaciável3.

Nessa situação a pessoa arde de fome por qualquer coisa que a faça voltar a se sentir viva. Nesse estado, a pessoa se afunda em excessos _ sendo os mais comuns às drogas, o álcool e os relacionamentos destrutivos _ cuja força propulsora é a fome de alma3. No entanto nada satisfaz, apenas intensifica a experiência de vazio e melancolia crônica. A aniquilação através dos excessos é a reação da pessoa que passou por um período de privação e está faminta por uma vida que tenha significado3.
Hambre del alma também implica a privação dos atributos da alma: a criatividade, a percepção sensorial e os dons instintivos. É então que a vida passa a ser dominada pela palidez e a aridez da morte. Tudo o que o vampiro quer é ter de volta a vida profunda. Assim, sua fome o impulsiona em busca de alguém para satisfazer sua necessidade3.
O ato de matar não é um ato comum – disse o vampiro. – A gente não se satisfaz simplesmente com o sangue do outro. Certamente trata-se de experimentar novamente a vida e, às vezes, de experimentar a perda desta vida através do sangue, lentamente. É a continua repetição das sensações que tive ao perder minha própria vida, ao sugar o sangue do pulso de Lestat e ao ouvir seu coração rufando junto ao meu.
(Entrevista com Vampiro, Anne Rice)


No entanto, obedecer a um sistema de valores tão desprovido de vida provoca uma perda extrema de vínculo com a alma. Assim, nosso desafio em defesa da alma e do nosso espírito criador consiste em não nos fundirmos com o coletivo, mas em nos distinguimos dos que nos cercam, construindo pontes até eles à nossa escolha, decidindo quais pontes irão se solidificar e ter muito movimento e quais permanecerão no esboço e vazias3.
Para evitar a fome devemos nos relacionar com aqueles que nos proporcionem maior apoio à nossa alma e à vida criativa. Temos que manter o nosso vínculo com o significado, com a paixão, com o envolvimento e com a natureza profunda da nossa alma, nos tornando mais plenamente o que somos.

Referências e Notas
1. Rice, A. B. 1997. Interview with the Vampire. Ballantine, USA.
2. Estes, C. P. 1994. Mulheres que correm com os lobos. Editora Rocco, Rio de Janeiro.
3. Johnson, R. L. 1992. The Vampire Archetype, Tallahassee centre for Jungian and Gnostic Studies.
4. Kimberley, S. 2012. A Psychological Analysis of The Vampire Myth. Estreo: Essex Student Research Online. Vol 1(1): 38-45
5.Esse texto não se insere nas discussões sobre a possibilidade de Richard Armitage interpretar o vampiro Matthew Clairmont, escrito por Deborah Harkness, em A Discovery of Witches ou o vampiro Michael Tyle, escrito por Syrie James, em Nocturne. Esses temas foram brilhantemente discutidos em Armitage as vampire? escrito por Servetus e em Nocturne: I’ve Read it, Liked It and This is why: Richard Armitage! escrito por Maria Grazia.
6. O significado psicológico do mito do vampiro tem sido discutido amplamente na literatura especializada e as principais linhas de interpretação são as Junguiana e Freudiana. Algumas referências para esses estudos estão listadas acima.


Oi Ana Cris,
Sua abordagem dos vampiros foi bem significativa. Quem não conhece algumas pessoas sugadoras da alma como as que você descreveu, bem como os guardiões do status quo dentro de um grupo para os quais qualquer individualidade é uma ameaça.
Interessante escolha de fotos tb!
Bjs,
Fabi
Oi Fabi,
Sim eles estão por aí, e devemos reconhecer o resultado de suas ações, os chamados “famintos por alma”,
Amy Winehouse infelizmente foi um caso recente, Janis Joplin o foi nos anos anteriores.
Na comemoração do Halloween nada como lidar com as sombras coletivas
para lembrar-nos de manter os nossos instintos alertas e nossas garras bem afiadas!
bjs
Ana Cris
P.S Você sabe como me perco nessas fotos! :0)
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