O processo de autoconhecimento tem inúmeros caminhos. Às vezes queremos contar a nossa história, compartilhando assim a nossa sabedoria. Às vezes, as histórias nos chegam como sonhos, colocando-nos em contato com outros mundos. Vovó Lua me dizia que as histórias precisam ser contadas para que possamos aprender com elas a nossa própria história. “É isso que as histórias fazem. Elas diferem dos conselhos pelo fato de que, quando você toma conhecimento delas, elas se tornam um produto da sua própria alma. É por isso que elas curam você (Alice Walker).“
A história dessa semana me veio através da música Blue Pail Fever, de Woven Hand. Alguns versos de David E. Edwards se destacavam da letra como por vontade própria e se uniram as imagens de Guy of Gisborne, me contando a sua história de amor não realizado com Marian.
Ao terminar o texto, Donzela Branca, uma tristeza me invadiu a alma. “Não, Guy, essa não é a história que queremos contar.“ Salvei o texto para reescrevê-lo mais tarde. Então, como Guy of Gisborne, me deixei cair à deriva no sono. E outra história me veio.
Estávamos eu e minha sobrinha Carol (acredito que a Carol represente a minha donzela corajosa e aventureira nesse sonho), viajando pelos Estados Unidos, quando descobrimos que Richard Armitage estava filmando na cidade onde iriamos parar. Resolvemos ir ao seu encontro para tentar conhece-lo. Estamos num lugar cheio de águas termais e cachoeiras e somos informadas que após as filmagens ele irá tomar o nosso ônibus de excursão.
(À direita, Richard Armitage, Comic-on, 2012. À esquerda, Pohutu Geyser, Rotorua, Nova Zelândia, Photo Ana Cris).
Há inúmeros turistas e nosso ônibus parece um uma estação de trem em Machu Picchu, não há bancos, apenas mochilas e sacos de dormir espalhados no chão, onde se juntam inúmeros jovens. Eu e Carol estamos lá sentadas entre nossas mochilas esperando a chegada de Richard. Ele entra no ônibus vestindo uma camisa preta e uma calça jeans escura, como a que ele vestia no Comic-On. Sua barba ainda está lá. Ele se deita no chão do ônibus e nós estamos sentadas num apoio um pouco acima dele.
(Esperando o Trem da Morte, Peru, Photo Ana Cris)
Eu o observo, enquanto ele dorme. Meus olhos percorrem o seu corpo. E eu vejo que em seu peito nu, há inúmeras tatuagens. Símbolos que desconheço e que diferem das tattos de Lucas North. Isso me fascina e desperta a minha curiosidade, pois não esperava que ele fosse tatuado. Então, eu olho para a parte superior de suas pernas. E novamente encontro novos símbolos, desenhos tribais indígenas típicos da etnia Karajás. E uma voz ressoa em minha mente dizendo: Leia os símbolos1, Ana.
Então eu desperto, e por um momento, lamento que não me recordo quais eram os símbolos que eu vi em seu peito.
Lembro-me do texto que escrevi antes de dormir e relei-o. Há tantos símbolos na história de Guy e Marian, contada pelos versos de Woven Hand. O touro, a Donzela Branca e a espada. Eu lembro do meu sonho. Leia os símbolos, Ana. Eu os leio e eles me contam uma nova história muito mais antiga que Vovó me contou.
To be continued
1. Nota
Tatuagens indígenas sul-americanas
A pintura corporal é simbolicamente importante para diversos grupo indígenas sul-americanos. Os desenhos possuem significado (relacionados à sua cosmologia) e sua elaboração segue um design próprio, obedecendo regras estéticas e culturais. Em geral pode-se definir três ordens ou domínios: a natureza, a cultura e o sobrenatural.
Alguns dos padrões mais comuns são listras pretas e faixas nos braços e pernas. As mãos, pés e rosto são pintados com um pequeno número de padrões representativos da natureza, especialmente fauna.
Para os índios sul-americanos, as tatuagens podem fornecer aos seus usuários poderes específicos atribuídos aos espíritos que foram incorporados neles. Por exemplo, um sapo colocado no ombro ou no braço está relacionado a um grupo de mestres espirituais do totem dos sapos que nos ensinam a louvar nossas lágrimas para purificar nossa alma.
O xamã Tuiarajup diz que “em meus sonhos espirituais, cada espírito dá um símbolo ou um glifo diferente para o nome que se tornará a tatuagem que irei colocar no corpo. Cada símbolo tem um espírito ligado a ele, e às vezes o espírito do nome aparece diante de mim. Você sabe, esses espíritos também têm tatuagens em seus corpos, e mesmo se você morrer e não ter sido tatuado, o espírito vai lhe dar todas as tatuagens que você merece, dependendo de como você viveu a sua vida”.


Oi Ana Cris,
Espero que você fale mais sobre as tatuagens, fiquei intrigada! Procurando sobre as pinturas corporais indígenas, li que são usadas para “se diferenciar dos demais ou demarcar seu lugar no mundo ou dentro da sociedade indígena, sendo tão necessárias e importantes esteticamente como a roupa para o homem branco.” Você colocou também o significado sobrenatural. Agora resta encaixar no contexto do seu sonho.
Bjs,
Fabi
Oi Fabi,
Realmente as tatuagens indígenas são fascinantes!Mas há muita pouca informação sobre elas!
O interessante nas sociedades indígenas é que não uma separação entre o sobrenatural (religioso), a natureza e a sociedade.
Na visão deles esses três domínios são integrados. Interessante o que vc pesquisou, porque realmente a tatuagem indígena é como uma roupa, e com ela vc se apresenta ao mundo. Eu não tinha feito essa ligação, mas ela é um pouco como as tatuagens russas. se vc sabe ler os símbolos, vc sabe um pouco da história daquela pessoa, de onde ela vem, o seu nome. E o nome traz a força de um espirito, um ancestral ou um protetor. A tatuagem não é um símbolo aleatório, ele traz uma determinada energia para o seu usuário. O que me lembra do nosso Lucas North.
Eu achei um fio condutor que liga o sonho ao texto, mas eu não sei se vou consegui costurar a trama.
Talvez vá precisar de um tempo. ;0)
bjkas
Ana Cris