Vocês se lembram da entrevista que Quickbeam da TORn fez com Richard Armitage? Fiquei intrigada quando Armitage respondeu: "Tolkien não criou mitos, ele criou lendas." Qual a diferença, pensei. E mais, várias vezes havia lido a expressão "mitologia de Tolkien". Assim, mãos à obra. Tenho que investigar!
Entrevista de Richard Armitage, Comic-on 2012
(A entrevista completa pode ser vista aqui , e transcrição aqui, cortesias de Bccmee)
Primeiro passo: descobrir o significado exato dos dois termos. Vamos ver o que diz a Wikipédia.
Um mito (do grego antigo μυθος, translit. "mithós") é uma narrativa de caráter simbólico, relacionada a uma dada cultura. O mito procura explicar a realidade, os fenômenos naturais, as origens do Mundo e do homem por meio de deuses, semi-deuses e heróis. Ao mito está associado o rito. O rito é o modo de se pôr em ação o mito na vida do homem – em cerimônias, danças, orações e sacrifícios.
Lenda é uma narrativa fantasiosa transmitida pela tradição oral através dos tempos. De caráter fantástico e/ou fictício, as lendas combinam fatos reais e históricos com fatos irreais que são meramente produto da imaginação aventuresca humana. Com exemplos bem definidos em todos os países do mundo, as lendas geralmente fornecem explicações plausíveis, e até certo ponto aceitáveis, para coisas que não têm explicações científicas comprovadas, como acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais. Podemos entender que lenda é uma degeneração do Mito.
Certo, entendi. Mas por que Richard Armitage afirma serem lendas e não mitos?
That was one of Tolkien’s great achievements. He didn’t really create myths, he created legends. And that’s what his full intention was, to create something that felt like it was of this earth, not somewhere else in the same way C.S. Lewis did. If you read any of the early histories of the evolution series it comes through, you realize that you’re looking for something much deeper, much more English actually.
Segundo passo: Descobrir o que o Tolkien nos diz sobre Mitos e Lendas.
Estava com isso em mente enquanto relia As Cartas de Tolkien, e lá estava a explicação na voz do Professor:
Carta 131 (não datada, provavelmente 1951)
"(…) desde cedo eu era afligido pela pobreza de meu próprio amado país: ele não possuía histórias próprias (relacionadas à sua língua e solo), não da qualidade que eu buscava e encontrei nas lendas de outras terras. (…) Eu tinha em mente criar um corpo de lendas mais ou menos associadas, que abrangesse desde o amplo e cosmogônico até o nível do conto de fadas romântico, que eu poderia dedicar simplesmente à Inglaterra, ao meu país."
Carta 257 (1964)
"O germe de minha tentativa de escrever lendas minhas para adequarem-se a meus idiomas particulares foi o conto trágico do infeliz Kullervo no Kalevala finlandês. Permanece um aspecto importante nas lendas da Primeira Era (que espero publicar como O Silmarillion) (…)"
"Em Oxford escrevi um mito cosmogônico, ‘A Música dos Ainur’, definindo a relação d’O Único, o Criador transcendental, com os Valar (…)"
"O Hobbit (…) não possuía uma relação necessária com a ‘mitologia‘ (…)"
"O anel mágico era a única coisa óbvia em O Hobbit que poderia ser relacionada com minha mitologia."
Não satisfeito, Tolkien usou ainda o termo legendarium com referência a sua obra em quatro cartas escritas entre
1951 e 1955.
Sobre O Silmarillion: "Esse legendário termina com uma visão do fim do mundo, sua ruptura e reconstrução, e com a recuperação das Silmarilli e da ‘luz anterior ao Sol’…" (Carta a Milton Waldman, escrita c.1951)
Sobre ambos os textos "meu legendário, especialmente a "Queda de Númenor", que se situa imediatamente antes de O Senhor dos Anéis, é baseado em minha própria visão: a de que os Homens são essencialmente mortais e não devem tentar tornar-se ‘imortais’ na carne." (Carta escrita em 1954)
Sobre O Silmarillion: "Na verdade, na imaginação desta história estamos vivendo agora em uma Terra fisicamente redonda. Mas o ‘legendário’ inteiro possui uma transição de um mundo plano … a um globo …" (Carta escrita em 1954)
Abrangendo ambos os textos: "Contudo, o início do legendário, do qual a Trilogia é parte (a conclusão), foi uma tentativa de reorganizar algumas partes do Kalevala …" (Carta escrita em 1955)
E qual a conclusão a que cheguei? Que os dois termos são usados quase como sinônimos, mas tem diferenças importantes. O próprio Tolkien usou os dois para se referir ao conjunto da sua obra. Mas pela definição das palavras, acredito que Richard Armitage está correto ao usar o termo lendas em referência a obra de Tolkien, com a exceção do mito da criação do mundo, presente no Silmarillion.
Mas para que nos serve Mitos e Lendas? Com a palavra J.R.R. Tolkien:
Acredito que as lendas e mitos são em grande criados a partir da verdade, e de fato apresentam aspectos dela que somente podem ser percebidos nesse modo. E há muito tempo atrás certas verdades e modos deste tipo foram descobertos e devem sempre reaparecer.
Carta 131 To Milton Waldman


Oi Fabi,
RA é realmente fora de sério. Olhando as entrelinhas de suas entrevistas sempre há um trabalho de pesquisa, um conceito, algo que ele acrescenta a sua interpretação. Depois dos inúmeros momentos fangirl podemos saborear da sua inteligência. Nessa ele trouxe a grandiosidade da ambição de Tolkien, que para o deleite de gerações foi atingido no conjunto de suas obras!
Gosto dessa referência de Joseph Campbell: Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana. Então, sejamos como Bilbo e vamos nos aventurar na jornada rumo a Erebor!
bjkas
Oi Ana Cris,
Eu realmente gosto das entrevistas com RA, porque sempre podemos ver uma amostra daquela inteligência aguçada em ação. Ele sabe como usar seu cérebro e isso é muito atraente em um homem. Ele me inspira a buscar o significado mais profundo de cada coisa e não contentar a mim mesma com menos.
Obrigado por me emprestar um quarto aqui em La Loba!
Beijos,
Fabi
Ia comentar o Post da Fabi com calma, mas pelo visto o Tolkien criou algo tão volumoso que o Peter Jackson e seus associados acabam de anunciar que O Hobbit será contado em três filmes, não mais em dois!
Oi meninas,
Também gostei da novidade. Prefiro três filmes, ou um filme mais longo, do que cenas cortadas esquecidas no chão, ou inseridas no DVD junto aos comentários, sem o acabamento merecido. E eu sou do tipo que vejo tudo! Mas sempre fico pensando essa cena estendida seria tão perfeita, colocou aquela outra sem tanta importância em detrimento desta. E me refiro especificamente a uma cena de um pedido de casamento mal sucedido. :0)
Oi Bibiana,
Pois é, haja filmes para contar todas as histórias imaginadas por Tolkien! Essa notícia foi muito bem-vinda para quem acredita no talento de PJ em transpor a Terra-média para as telas.
Obrigada por ler e comentar!