“Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: “Era só um conto de fadas”… Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida.”
Antoine de Saint-Exupéry
La Loba me perguntou se eu conhecia a história da menina que sonhava com o Belo Reino4. Sim, respondi. Conte-me então, ela me pediu. Era uma vez uma menina que não tinha nem pai nem mãe e que morava na Floresta Negra. Um dia ela quis conhecer o Belo Reino. Havia nas proximidades da floresta uma aldeia. Então ela resolveu ir até lá para perguntar qual era o caminho para o Belo Reino. Mas, a aldeia era um lugar onde ninguém jamais voltava ao que já tinha deixado, nem sabia onde é que tinha andado. Nesse lugar, ninguém nem se lembrava o que tinha sonhado2. A menina perambulava pelas ruas, perguntando qual era o caminho para o Belo Reino. Mas ninguém parava e lhe prestava atenção. Todos eram muito ocupados e jamais largavam a grande roda. Onde giravam e giravam. Por isso uma noite, ela subiu uma escada de papelão. Imaginada. Invocada. Não levava a nada. Era só uma escada de papelão1.
— Uma escada de ilusão. Mas, havia outro caminho para o Belo Reino, não havia? Perguntou La Loba.
— Sim havia, respondi.
— Qual era? Ela me perguntou.
—Havia uma outra entrada, mais estreita. Uma entrada muito mais díficil e apertada. Essa entrada foi inventada por um Anão e está guardada por um Dragão2, eu disse.
—Sim, Aquamarine, o Dragão da Autenticidade3, de cor verde-azulado, disse La Loba. Este dragão nos ajuda a descobrir que somos todos únicos. Com a ajuda dele, é possível deixar de lado todas as máscaras para sermos autênticos, sem medo de mostrar ao mundo quem somos. Quanto mais aceitamos nossa essência – com nossas luzes e sombras – mais poderemos respeitar a maneira como os outros pensam e agem3. Muito bem, esse é o único caminho que conheço para o Belo Reino, afirmou La Loba. E o que a menina fez?
— Ah, ela foi até o Dragão e perguntou se ele conhecia o caminho para o Belo Reino, pois ela queria muito, mas muito mesmo conhece-lo. Então o Dragão lhe disse:

Ó, menina, não vês aquela estrada estreita. Coberta de urzes e de espinhos? Pois é a trilha da Honradez; Poucos perguntam de tais caminhos. E não vês aquela estrada larga. Que passa pelo campo liso? É a trilha dos Perversos. Que chamam de Estrada do Paraíso. E não vês aquela estrada linda. Que pela escarpa agreste desceu? Pois leva à bela Terra dos Elfos. Lá vamos à noite, tu e eu4.
—E o que aconteceu? perguntou La Loba.
—Bom, a menina conheceu o Anão, que era na verdade um Cavaleiro de Dragão e ele disse que ia ajudá-la ao longo do caminho para o Belo Reino. Mas antes ela tinha que voltar para a floresta negra. Para todas as coisas que ela deixou. E ela tinha que se lembrar de todos os caminhos pelo qual andou. E mais importante, ele lhe disse: Ela tinha que se lembrar de seus sonhos, pois sem eles era muito fácil perder o caminho para o Belo Reino.
—Bom isso era um bocado de coisas. Como ela fez para se lembrar de todas elas? Perguntou La Loba.
—Ela começou a escrever, ler e desenhar e ela aprendeu a língua dos animais e das plantas. E assim ela fez inúmeros amigos, que por acaso também procuravam a estrada do Belo Reino. Eu disse.
—Mas, então, algo aconteceu, não foi?
—Sim, algo aconteceu, respondi.
—O quê aconteceu? ela perguntou.

—Um dia as pessoas da aldeia deram falta da menina. E foram ver o que ela andava fazendo. E viram os seus escritos, os seus desenhos, a sua arte. E eles ficaram chocados com que encontraram. Pois, a menina escrevia sobre anões, animais que falavam, florestas negras, dragões, sonhos e fantasias. E isso os assustava, pois os faziam se lembrar de seus próprios sonhos e de seus próprios caminhos. E pior, isso os fazia esquecer da grande roda. Onde eles giravam e giravam. E então, eles tiveram muito medo.
—E o que eles fizeram, perguntou La Loba.
—Eles a magoaram.
—Oh, menina, e La Loba me abraçou. Para evitar a escada de papelão. Há um importante passo que você deve dar. Qualquer um que não apóie sua arte, seus sonhos, sua vida, não é digno de seu tempo. É duro mais é verdade. Esses tipos de projetos precisam ser acalentados e alimentados. Eles precisam de apoio vital, de pessoas carinhosas e amigas5.
—O que devo fazer, La Loba? Perguntei com olhos marejados.
—Você deve continuar em busca do Belo Reino, na companhia de seu Anão e de seu Dragão, apenas isso.
—Sim, assenti.
—Mas me diga uma coisa lobinha. Esse Anão é muito bonito, não é?
—Sim, ele é. Alguns falam que ele é um anão quente, respondi.
—Hum, um anão quente? Esse é um detalhe interessante da história, disse La Loba.
—Sim, eu disse, secando as lágrimas. Mas ele também é o líder valoroso, inteligente e heróico de uma companhia de Anões. Hah, La Loba riu.
—Quem diria, uma companhia de Anões quentes, valorosos e heróicos. Agora, entendo, grande parte do reboliço. Veja, minha lobinha, Branca de Neve era uma garota sábia para o seu tempo, mas não muito ousada. Ela tinha sete anões para lhe ensinar o caminho para o Belo Reino, mas eram todos feios! Vamos, deixe-me dar uma olhada nesse Anão. Nada mal, concordou La Loba. Se você não tivesse me dito que era um Anão, eu iria pensar que era o Princípe Encantado, e aí sim, teríamos o caos. Então, rimos feito loucas dessa ‘história’ toda, como só as mulheres sabem rir.
Referências
1 and 2. The Portuguese group “Madredeus” com lead singer “Teresa Salgueiro” perform “The Paradise” and “ The Shep. The first video have Portuguese lyrics and an English translation.
4. Tolkien, J.R.R. 2006 . Sobre Histórias de Fadas. Original title Tree and Leaf.
5. Estés, C.P. 1994. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Editora Rocco, Rio de Janeiro.


Oi Ana Cris,
Acho que tem mais uma personagem nesse conto: a Maga do Cerrado. Seus encantamentos são feitos em um tear mágico, onde ela com habilidosas mãos entretece fios de diversas cores e tramas, formando intrincadas tapeçarias. Elas são lindas de se ver de longe mas, quanto mais perto você chega delas, mais desenhos menores, de sutil significado, consegue distinguir.
Nunca desista da sua busca, querida amiga! Você vai encontrar o Belo Reino, tenho certeza disso, pois você é sábia e corajosa!
Bjs,
Fabi
P.S.: Ah, esse Anão…não sei porque ele fica sempre aparecendo nas histórias. (risos)
Fabi!
Que magia que você trouxe!
Eu amo essa simbologia, a colcha de retalhos, o patch work, a tapeçaria!
A história de vida de cada um poderia ser contada exatamente assim!
Que encantamento! Fico muito feliz que no caminho para o Belo Reino, eu tenha encontrado amiga tão fabulosa!
bjkas
P.S. Ah, ele adora aparecer em cena, na verdade, eu diria que ele poderia ser um artista!
Ficou incrível…. Coroado ao final pelo Madredeus…. AMO esses Portugueses, a voz da Teresa Salgueiro é ímpar e o instrumental desse grupo nos faz VIAJAR… Conheci-os através da trilha sonora de ‘Os Maias”, justamente com esta pérola “O PASTOR” e da belíssima “HAJA O QUE HOUVER” (linda demais da conta: “…eu sei QUEM és prá mim…”), vocês lembram????
Oi Mari,
Que bom que você gostou!. Madredeus realmente nos faz viajar nas suas letras e melodias!
Para mim, o melhor disco é o Existir (1990). Mas há algo mais romântico do que:
Haja o que houver
Eu estou aqui
Haja o que houver
espero por ti
… isso derrete até os corações mais insensíveis!
bjkas