Pegando a saída sul num dia de verão, ao som de Siouxie & the Banshees1, eu olho a estrada a minha frente e vejo-a coberta com uma poça d’água. No entanto, eu nunca a alcanço, pois o que observo é uma miragem. Para muitos a palavra miragem pode invocar imagens de viajantes sedentos que se movem lentamente em areias do deserto em direção à imagem de uma lagoa de água fresca e cristalina. No entanto, à medida que eles se aproximam a água desaparece, pois a visão é meramente uma ilusão ótica. Os personagens podem variar, cowboys no Vale da Morte, nos EUA ou soldados no deserto do Saara, no Norte da África, mas o simbolismo é claro, pessoas morrendo de sede perseguindo uma imagem que só existe em suas mentes. Somos então propensos a considerar miragem como uma ilusão de uma mente sobrecarregada; uma invenção da imaginação de pessoas ressequidas pela sede.
O mesmo simbolismo tem sido usado para descrever fans. Na esfera do senso comum, o fã é visto como alguém incapaz de estabelecer distinções – entre o real e a ficção; entre admiração e amor incondicional; e entre a própria identidade e a identidade do ídolo (Jenson, 2001; Storey, 1996).
Fechado em seu próprio universo, o fã seria, então, um indivíduo em constante crise de identidade e valores, que projeta, na figura do ídolo, tudo aquilo que ele gostaria de ser mas não é, gerando um sentimento misto de dependência e frustração. Além disso, recebem o rótulo de indivíduos infantis e imaturos que não vivem suas vidas por completo e que tentam compensar falhas de sua vida por meio de relações inventadas com ídolos e personagens (Jenkins, 1992).
De acordo com American Meteorological Society’s Glossary of Weather and Climate, miragem é um fenômeno de refração, em que uma imagem de algum objeto distante aparece deslocado de sua verdadeira posição por causa de grandes variações de densidade verticais perto da superfície, assim a imagem pode aparecer distorcida, invertida ou trêmula.
No caso de miragem em estradas, os raios de luz solar, em direção ao asfalto, sofrem refração devido ao gradiente de temperatura das camadas de ar próximas ao asfalto. Essa refração desvia a direção de propagação da luz, e em seguida, a luz reflete-se (reflexão total) nas camadas de ar próximas ao solo. Assim, o que nossos olhos veêm e nossa mente inicialmente interpreta como água são de fato raios de luz vindo a partir do céu azul e nuvens, acima e a frente de nós, refratados por mudanças fortes na densidade do ar próximo a superfície, de modo que eles parecem ter vindo a partir do solo. Em síntese, a imagem que vemos é real, não é uma ilusão, a interpretação de nossa mente (espelho d’água) é que é incorreta.
O termo miragem tem origem na expressão francesa se mirer que significa mirar-se, ver-se no espelho. Assim miragem, ao contrário do que o senso comum dita, é um fenômeno real; não é uma ilusão óptica. O mesmo pode ser dito para o que é ser um fã.
O primeiro passo de ser um fã é mirar-se, ver-se no espelho. No caso o espelho, pode ser um ídolo, um personagem ou uma história. Mirar-se é se colocar naquela situação, vivendo-a não como um observador passivo, mas como um agente projetado. Para Matt Hills (2002) essa projeção do Eu no outro não reflete falta de personalidade ou uma disfunção identitária, uma vez que para personificar um ídolo, um personagem ou uma história, é necessário que o fã se conheça e esteja perfeitamente consciente de si próprio. A mente projetada de um fã permite-lhe dar continuidade ao seu interesse e reforçar a sua própria identidade através da autoconsciência, que por sua vez lhe permite assumir por alguns momentos uma nova identidade e vivenciar novas situações (Hills, 2002).
Além disso, mirar-se num espelho, envolve não apenas fascinação ou adoração, mas também frustração e antagonismo, e é a combinação dessas duas reações que motivam o engajamento ativo dos fãs na produção criativa de fanfics, fanart, fanvideo, entre outros. Porque as narrativas com frequência não satisfazem completamente os fãs, e eles precisam lutar com elas, tentando articular entre eles possibilidades não realizadas dentro da narrativa original (JENKINS, 1992).
Assim, os fãs vêem a adesão ao fandom como um movimento que parte do isolamento cultural e social em direção a uma participação ativa em um grupo receptivo às suas produções (JENKINS, 2006). Nesse ambiente, os fãs dividem referências, interesses e um senso comum de identidade que faz com que eles tenham a sensação de pertencer a um grande grupo, que não se define por termos tradicionais como raça, credo, gênero, classe social ou localização geográfica, mas por indivíduos que compartilham textos e conhecimentos. Estar nesse grupo é buscar uma aceitação que tem mais a ver com o que você tem a acrescentar à comunidade do que quem você é (JENKINS, 2006).
No entanto, como no fenômeno de miragem, a informação sobre nossos ídolos, personagens ou histórias podem sofrer um tipo de refração até chegar aos nossos olhos, causada principalmente pelos elementos da nossa atmosfera cultural (mídias, entrevistadores, agentes publicitários, mercado) ou pelo filtro do próprio ídolo. E então vemos uma imagem distorcida, invertida ou trêmula do objeto real. Muitas vezes o que pensamos ser o objeto real é a reflexão de nós mesmos. Isso não que dizer que seja uma ilusão, é real para nós, somente a interpretação de nossa mente sobre o objeto real é que pode estar incorreta.
Referências
JENKINS, Henry. Textual poachers: television fans and participatory culture. New York: Routledge, 1992.
JENKINS, Henry; Introduction: “Worship at the Altar of Convergence”: A New Paradigm for Understanding Media Change. In Convergence culture: where old and new media colide, New York University Press, Nova Iorque e Londres, 2006.
HILLS, Matt; Cult Bodies. Between the ‘self’ and the ‘other’ in Fan Cultures, Routledge, Londres e Nova Iorque, 2002.


Oi Ana Cris,
A origem da palavra fã por si já é pejorativa, pois vem de fanático. Claro que nesse grande grupo existem inúmeras variações, intensidades. Acredito que é possível ser um fã consciente, sim. Pelo menos a gente tenta, né?
Quanto à miragem, impossível distinguir o real da refração. Essa é uma das vantagens, ver a reflexão de nós mesmos e talvez assim descobrir algo sobre nossa própria pessoa.
Conclusão 1: Fandom é bom!
Conclusão 2: Fotos de JP sem camisa são extremamente dispersivas para minha concentração!
Conclusão 3: Siouxsie and The Banshees me fez viajar de volta aos anos 80, bons tempos!
Resumo: Grande post!
Abraços,
Fabi
Oi Fabi,
Tentamos (ser consciente), e eventualmente fracassamos terrivelmente!
E essa é a diversão, que infelizmente o “senso comum”, excessivamente crítico, não consegue enxergar!
Mas o mundo tem mudado e com ele essa visão do fã. Eu me surpreendi com os artigos que encontrei para este post.
Reply 1: Fandom é tudo de bom! Principalmente pelos amigos que encontramos.
Reply 2: Física seria muito mais interessante e fácil de aprender com JP sem camisa! Refração, reflexão, miragem tudo fez sentido com JP para ilustrar! E de quebra podemos aprender tb sobre as leis da termodinâmica. :0)
Reply 3: Oh meu Deus, eu tenho que parar de revelar a minha idade!!!!
Resumo: Obrigada sempre pelo seu apoio!
bjs
Ana Cris